Nota: Este livro foi escaneado e corrigido por Norman Davis Jr., em maio de 2005, para o uso exclusivo de pessoas  com alguma  deficiencia visual e sua
distribuio ao pblico em geral, bem como para fins comerciais  extritamente proibida pela lei brasileira de direitos autorais.

Tnia Quintaneiro
Maria Ligia de Oliveira Barbosa
Mrcia Gardnia Monteiro de Oliveira

Um Toque de Clssicos
MARX, DURKHEIM e WEBER
2 EDIO REVISTA E AMPLIADA
1 REIMPRESSO
Belo Horizonte Editora UFMG
2003

Copyright (c) 1995 by Tnia Quintaneiro, Maria Ligia de Oliveira Barbosa e Mrcia Gardnia Monteiro de Oliveira
1999 - 1 reimpresso
2 reimpresso
2000 - 3 reimpresso
2001 - 4 reimpresso
2002 - 2 ed. rev. ampl.
2003 - 1 reimpresso da 2 ed. rev. ampl. . t.

Este livro ou parte dele no pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorizao escrita do Editor.

EDITORAO DE TEXTO: Ana Maria de Moraes
REVISO DE TEXTO E NORMALIZAO: Olga M. A. Sousa
PROJETO GRFICO: Glria Campos - Manga
CAPA: Ready Made Multimdia e Comunicao, revista por Cssio Ribeiro
PRODUO GRFICA: Warren M. Santos
FORMATAO: Cssio Ribeiro
REVISO DE PROVAS: Brbara Christiane Ferreira Silva e Edilene Soares da Cruz

Editora UFMG
Av. Antnio Carlos, 6627
Ala direita da Biblioteca Central - trreo - Campus Pampulha
31270-901 Belo Horizonte/MG
Tel.: (31) 3499-4650    -    Fax: (31) 3499-4768
www.editora.ufmg.br    -    editora@ufmg.br

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS REITORA: Ana Lcia Almeida Gazzola VICE-REITOR: Marcos Borato Viana
CONSELHO EDITORIAL
Titulares
Antnio Luiz Pinho Ribeiro, Beatriz Rezende Dantas, Carlos Antnio Leite Brando,
Helosa Maria Murgel Starling, Luiz Otvio Fagundes Amaral, Maria das Graas Santa Brbara,
Maria Helena Damasceno e Silva Megale, Romeu Cardoso Guimares,
Wander Melo Miranda (Presidente)
Suplentes
Cristiano Machado Gontijo, Denise Ribeiro Soares, Leonardo Barci Castriota,
Lucas Jos Bretas dos Santos, Maria Aparecida dos Santos Paiva, Maurlio Nunes Vieira,
Newton Bignotto de Souza, Reinaldo Martiniano Marques, ^
Ricardo Castanheira Pimenta Figueiredo
Quintaneiro, Tnia

Um toque de clssicos: Marx, Durkheim e Weber / Tnia Quintaneiro, Maria Ligia de Oliveira Barbosa, Mrcia Gardnia de Oliveira. - 2. ed. rev. amp. - Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2002.
159 p. - (Aprender)
ISBN: 85-7042-317-3
1. Sociologia - Teoria        2. Sociologia - Histria I. Ttulo
II. Barbosa, Maria Ligia de Oliveira   in. Oliveira, Mrcia Gardnia Monteiro de.     IV. Srie
CDD: 301 CDU: 316.001.l
Catalogao na publicao: Diviso de Planejamento e Divulgao da Biblioteca Universitria - UFMG

Nmeros no rodap da pgina

APRESENTAO

        A primeira edio deste livro, fruto de uma dcada e meia de trabalho na Universidade Federal de Minas Gerais no campo da teoria
sociolgica clssica, cumpriu cinco anos. Nesta edio revista e ampliada mantemos o mesmo objetivo: tentar superar aqueles que pensamos
ser os principais problemas enfrentados pelos que se iniciam na obra dos trs grandes clssicos da sociologia - Marx, Durkheim e Weber. Entre
tais obstculos encontram-se as dificuldades de acesso e compreenso dos textos originais e *o alto grau de abstrao das interpretaes
avanadas.
        Em face da extenso e da densidade da produo que analisamos, o trabalho que se segue serve fundamentalmente como roteiro para a
descoberta desses autores. No  nossa inteno substituir a leitura dos originais, cuja riqueza somente pode ser conhecida por aqueles que se
lanam a essa aventura. Acreditamos tambm que nosso trabalho facilita ao principiante orientar-se num debate imprescindvel  compreenso da
temtica sociolgica contempornea. - Temos muito a agradecer, na chegada a esse resultado, aos nossos alunos, que apontaram os pontos
obscuros  compreenso, e principalmente  leitura atenta de Afonso Henrique Borges e de Antnio Fernando Mitre que procuraram desviar-nos
de caminhos equivocados.
        O captulo "Karl Marx" foi produzido por Mrcia Gardnia Monteiro de Oliveira e Tnia Quintaneiro, o "mile Durkheim" foi escrito
por Tnia Quintaneiro, e o "Max Weber"  de autoria de Maria Ligia de Oliveira Barbosa e Tnia Quintaneiro. O resultado final, em seu
conjunto,  expresso do que logramos desvendar ao final de longas discusses assim como de nossos equvocos e deficincias.


                                SUMRIO

INTRODUO
1 KARL MARX
Mrcia Gardnia Monteiro de Oliveira
Tnia Quintaneiro

Introduo 27
Dialtica e materialismo 28
Necessidades: produo e reproduo 32
Foras produtivas e relaes sociais de produo 34
Estrutura e superestrutura 36
Classes sociais e estrutura social 40
Lutas de classes 42
A economia capitalista 45
O papel revolucionrio da burguesia 48
A transitoriedade do modo de produo capitalista 50
Trabalho, alienao e sociedade capitalista 51
Revoluo 56
Comunismo 58
Concluses 59
Bibliografia 60

2 EMILE DURKHEIM
Tnia Quintaneiro

Introduo 67
A especificidade do objeto sociolgico 68
O mtodo de estudo da sociologia segundo Durkheim 72
A dualidade dos fatos morais 75
Coeso, solidariedade e os dois tipos de conscincia 77

2
Os dois tipos de solidariedade 79
Os indicadores dos tipos de solidariedade 81
Moralidade e anomia 87
Moral e vida social 93
Religio e moral 96
A teoria sociolgica do conhecimento 98
Concluses 100
Bibliografia 101

3 MAX WEBER
Maria Ligia de Oliveira Barbosa
Tnia Quintaneiro

Introduo 107
A objetividade do conhecimento 108
Os tipos ideais 111
Os conceitos fundamentais da sociologia weberiana 114
Os tipos puros de ao e de ao social 116
Relao social 118
Diviso do poder na comunidade: classes, estamentos e partidos 122
A dominao 128
Carisma e desencantamento do mundo 131
A sociologia da religio 134
Tendncia  racionalizao e burocracia 138
Racionalizao e capitalismo 141
Concluses 144
Bibliografia 144
CONSIDERAES FINAIS 151
CRONOLOGIA DOS PRINCIPAIS FATOS RELACIONADOS A MARX, DURKHEIM E WEBER 155



INTRODUO

        A reflexo sobre as origens e a natureza da vida social  quase to antiga quanto a prpria humanidade, mas a Sociologia, como um campo
delimitado do saber cientfico, s emerge em meados do sculo 19 na Europa. Para melhor entender esse processo,  mister referir-se ao
quadro das mudanas econmicas, polticas e sociais ocorridas principalmente a partir do sculo 16 e s correntes de pensamento que
estabeleceram os alicerces da modernidade europia - o racionalismo, o empirismo e o iluminismo. 1
        A marca da Europa moderna foi, sem dvida, a instabilidade, expressa na forma de crises nos diversos mbitos da vida material,
cultural e moral. Foi no cerne dessas dramticas turbulncias que nasceu a Sociologia enquanto um modo de interpretao chamado a explicar o
"caos" at certo ponto assustador em que a sociedade parecia haver-se tornado. Passemos a considerar, brevemente, algumas das dimenses
sociais e intelectuais envolvidas nessa trajetria.

MUDANAS RESULTANTES DA INDUSTRIALIZAO

        As grandes transformaes sociais no costumam acontecer de maneira sbita, sendo quase imperceptveis para aqueles que nelas esto
imersos. Mesmo os sistemas filosficos e cientficos inovadores entrelaam-se a tal ponto com os que os antecedem que  difcil pensar
em termos de rupturas radicais. Ainda assim, comeara a despontar desde a Renascena a conscincia de que uma linha distintiva separava os novos
tempos do que veio a se chamar Medievo. 2. Mudanas na organizao poltica e jurdica, nos modos de produzir e de comerciar exerciam um
mtuo efeito multiplicador e geravam conflitos ideolgicos e polticos de monta.
        O avano do capitalismo como modo de produo dominante na Europa ocidental foi desestruturando, com velocidade e profundidade
variadas, tanto os fundamentos da vida material como as crenas e os princpios morais, religiosos, jurdicos e filosficos em que se sustentava
    p. 9

o antigo sistema. Profundos cmbios na estrutura de classes e na ossatura do Estado foram ocorrendo em muitas das sociedades europias. A dinmica do desenvolvimento
capitalista e as novas foras sociais por ele engendradas provocaram o enfraquecimento ou desaparecimento, mais ou menos rpido, dos estamentos tradicionais - aristocracia
e campesinato - e das instituies feudais: servido, propriedade comunal, organizaes corporativas artesanais e comerciais. A partir da segunda metade do sculo
18, com a primeira revoluo industrial e o nascimento do proletariado, cresceram as presses por uma maior participao poltica, e a urbanizao intensificou-se,
recriando uma paisagem social muito distinta da que antes existia. Os cus dos grandes centros industriais comearam a cobrir-se da fumaa despejada pelas chamins
de fbricas que se multiplicavam em ritmo acelerado, aproveitando a considervel oferta de braos proporcionada pela gradual deteriorao da propriedade comunal.
De fato, esta antiga instituio europia vinha sendo aos poucos usurpada pelos grandes proprietrios e arrendatrios de terras, com base nas leis e nas armas.
A capitalizao e modernizao da agricultura provocaram o xodo de milhares de famlias que, expulsas de seu habitat ancestral, vagavam  procura de trabalho. As
cidades, receptoras desses fluxos contnuos, foram crescendo acelerada e desordenadamente. Cenrio de feiras peridicas, elas recebiam pequenos produtores locais
e mercadores estrangeiros e, sob o manto de sua intensa atividade, albergavam uma populao de mendigos, desocupados, ladres, saltimbancos, piratas de rios e de
cais, traficantes e aventureiros em busca de todo tipo de oportunidades. A cidade acenava a todos com a possibilidade de maior liberdade, proteo, ocupao e melhores
ganhos, embora para muitos tais promessas no chegassem a cumprir-se. No carregado ambiente urbano, a pobreza, o alcoolismo, os nascimentos ilegtimos, a violncia
e a promiscuidade tornavam-se notveis e atingiam os membros mais frgeis do novo sistema, particularmente os que ficavam fora da cobertura das leis e instituies
sociais.
        A aglomerao, conjugada a outros fatores como as condies sanitrias, tinha outras conseqncias deletrias sobre a populao urbana, especialmente sobre
os mais miserveis. A fome, a falta de esgotos e de gua corrente nas casas, o lixo acumulado e as precrias regras de higiene contribuam para a proliferao de
doenas e a intensificao de epidemias que elevavam as taxas de mortalidade da populao em geral, e dos pobres, das crianas e parturientes em particular. 3. A
gente decente banhava-se somente por ordem mdica (o banho dirio era coisa de nobres e libertinos) e "muitos no tinham idia se o sabo era ou no comestvel". 
4.
Foi somente no limiar do sculo 18, com as revolues industrial e agrcola na Inglaterra, que uma relativa abundncia de alimentos juntamente com outros fatores 
ligados a melhorias na higiene promoveram uma sensvel reduo das taxas de mortalidade e um correspondente aumento da populao. As quedas
    p. 10

abruptas, uma constante na pauta demogrfica dos perodos anteriores, tornaram-se menos freqentes. Entre 1800-1850, o crescimento populacional da Europa foi de
43%. Alguns pases ultrapassaram os 50%. Na Frana, no incio do sculo 19, a expectativa mdia de vida subiu a 38 anos, e 7% da populao j chegavam aos 60 anos,
embora 44% no passassem dos 20.
        As condies de trabalho que caracterizam o incio da revoluo industrial eram assustadoras para os padres atuais e podem ser
responsabilizadas pela baixa expectativa de vida dos operrios que labutavam em turnos dirios de 12 a 16 horas, ampliados para at 18
horas quando a iluminao a gs tornou-se disponvel. Foi em 1833, e somente nas fbricas txteis da Inglaterra, que crianas entre 9 e 13
anos foram proibidas de trabalhar em jornadas de mais de 9 horas, e as que tinham entre 13 e 16 anos por mais de 12 horas, sendo o turno da
noite reservado para que freqentassem a escola. 5.
        O salrio dos aprendizes era em geral a metade do que se pagava aos operrios, o das mulheres a quarta parte, e o das crianas... j se
pode imaginar. Alm das doenas devidas ao ambiente insalubre, da alimentao deficiente, da falta de aquecimento apropriado, da
disciplina nas fbricas e das multas que reduziam ainda mais seus ganhos, os trabalhadores estavam expostos a freqentes acidentes
provocados pelo maquinado pesado que mutilava e matava. Muitas revoltas tiveram como alvo as prprias mquinas, destrudas pelos operrios
enfurecidos, como no chamado movimento ludista. A luta por melhores condies de trabalho, na Europa como na Amrica, foi rdua, e novos
direitos foram sendo aos poucos conquistados e acrescentados  legislao social e trabalhista em diversos pases.
        Mudanas tambm ocorreram, em distintos graus, na instituio familiar, tanto no que se refere ao status de seus membros segundo sexo
e idade, como  natureza das relaes pessoais e jurdicas entre eles. Em questes tais como o controle de propriedades por parte das mulheres,
a relativa autonomia dos filhos, a abolio do direito de primogenitura houve avanos significativos, dependendo da dinmica interna das
sociedades.
        Menos visveis, mas igualmente profundos foram os desenvolvimentos no universo das relaes afetivas. Nas camadas altas e
mdias das comunidades medievais, onde nome e fortuna eram o binmio que marcava os destinos de homens e mulheres, a escolha de parceiros
dependia de critrios estamentais ou refletia interesses polticos ou econmicos familiares. 6. Com o advento da modernidade, certas
instituies comearam a se consolidar e a adquirir importncia - entre elas o amor romntico, o casamento por escolha mtua, a estrutura
nuclear da famlia, o reconhecimento da infncia e mesmo da adolescncia enquanto fases peculiares da vida. A presena de uma nova sensibilidade
e de atitudes, comportamentos e valores distintos - como os mimos que passam a ser dedicados
    p. 11
xxxxxxxxxxxxxxxx
s crianas, at ento vistas como adultos em miniatura - s se torna conspcua quando se atenta para o longo prazo e, mesmo assim, as prticas anteriores no deixam
de ter vigncia. De fato, provocaria escndalo nos dias de hoje a indiferena com que freqentemente os pais tratavam as crianas at que elas ultrapassassem o
limite de idade que permitia ter esperana em sua sobrevivncia. 7 Como na estria de Joo e Maria, no era incomum que fossem abandonadas por famlias que no tinham
meios de cri-las. O infanticdio era secretamente praticado e moralmente admitido. Um sentimento de famlia mais prximo do que existe nos dias de hoje deve-se
tambm ao aparecimento, nas casas burguesas da Inglaterra, dos espaos privados, claramente diferenciados do lugar do trabalho, embora o proletariado urbano demorasse
ainda a alcanar esse benefcio. 8
        Entre outras coisas, a industrializao tambm modificou profundamente a percepo do tempo entre as populaes europias,
ajustadas a ritmos naturais em obedincia a costumes milenares. Isso se explica porque quanto menos os povos dependem da tecnologia para levar
adiante suas atividades produtivas, mais o tempo social  regulado pelos fenmenos da natureza - as estaes, as mars, a noite e o dia, o clima.
A revoluo industrial obriga a um registro mais preciso do tempo na vida social. O empresrio passa a comprar horas de trabalho e a exigir
seu cumprimento. Os trabalhadores perdem o controle do ritmo produtivo que impe uma disciplina at ento desconhecida. 9. Uma nova moralidade
a sustenta desde os plpitos at que os operrios, organizados em associaes, comeam a rebelar-se contra as exigncias excessivas.
        O esforo para entender as causas e os provveis desenvolvimentos das novas relaes sociais motivou a reflexo que veio a cristalizar-se na Sociologia.

ANTECEDENTES INTELECTUAIS DA SOCIOLOGIA

        Pelo menos at o sculo 18, a maioria dos campos de conhecimento, hoje enquadrados sob o rtulo de cincias, era ainda, como
na Antigidade Clssica, parte integral dos grandes sistemas filosficos. A constituio de saberes autnomos, organizados em
disciplinas especficas, como a Biologia ou a prpria Sociologia, envolver, de uma forma ou de outra, a progressiva redefinio das
questes ltimas colocadas tradicionalmente pela reflexo filosfica, como a liberdade e a razo. Consideraremos brevemente algumas idias
cujo impacto foi marcante para a configurao das primeiras teorias sociais modernas.
        Concomitantemente aos processos de ordem socioeconmica, mudanas culturais contribuiro para suplantar a concepo orgnica,
    p. 12

dominante na Antigidade e no perodo medieval, substituindo-a por correntes de pensamento de base individualista. 10 A Reforma protestante, iniciada no sculo 16,
foi um momento importante nessa trajetria. Ao contestar a autoridade da Igreja como instncia ltima na interpretao dos textos sagrados e na absolvio dos pecados,
a Reforma colocou sobre o fiel essa responsabilidade e, instituindo o livre exame, fez da conscincia individual o principal nexo com a divindade. O esprito secular
impregnou distintas esferas da atividade humana. Generalizou-se aos poucos a convico de que o destino dos homens tambm depende de suas aes. Crticas  educao
tradicional nas universidades catlicas levaram  substituio do estudo da Teologia pelo da Matemtica e da Qumica.
        A crena de que a razo  capaz de captar a dinmica do mundo material e de que a lei natural, inscrita no corao dos homens, pode ser descoberta
espontaneamente vai ganhando fora, deteriorando, aos poucos, os velhos princpios de autoridade - entre os quais os mantidos pela Igreja catlica. Sobre essa base,
torna-se mais fcil compreender a emergncia do empirismo, do racionalismo cartesiano 11 e o avano das cincias experimentais que, no seu conjunto, caracterizaro
a era moderna.
        Alm do impacto das mudanas provocadas pela Revoluo Industrial, atribui-se  Revoluo Francesa, alentada pelo movimento de idias da Ilustrao, um extraordinrio
impulso para que o modo sociolgico de investigar e interpretar a realidade social se tornasse possvel. 12 A confiana na razo e na capacidade de o conhecimento
levar a humanidade a um patamar mais alto de progresso, regenerando o mundo atravs da conquista da natureza e promovendo a felicidade aqui na terra, tornou-se bandeira
e smbolo do movimento de crtica cultural que marca o Setecentos, o Sculo das Luzes - o Iluminismo. 13  esse movimento de idias - que alcana seu ponto culminante
com a Revoluo Francesa e o novo quadro sociopoltico por ela configurado - que ter um impacto decisivo na formao da Sociologia e na definio de seu principal
foco: o conflito entre o legado da tradio e as foras da modernidade. A idia de liberdade passou, ento, a conotar emancipao do indivduo da autoridade social
e religiosa, conquista de direitos, e autonomia frente s instituies. A burguesia europia ilustrada acreditava que a ao racional traria ordem ao mundo, sendo
a desordem um mero resultado da ignorncia. Educados, o seres humanos seriam bons e iguais. Embora o status da mulher continuasse a ser inferior, comeava-se timidamente
a pensar, e mesmo a promover, em algumas esferas, a igualdade civil entre os sexos. 14 A idia de que o progresso era uma lei inevitvel que governava as sociedades
consolida-se e vem a manifestar toda a sua fora no pensamento social do sculo 19, atuando diretamente sobre os primeiros tericos da Sociologia. Na busca de explicaes
sobre a origem, a natureza e os possveis rumos que tomariam as sociedades em vias de transformao, temas tais
    p. 13

como liberdade, moral, leis, direito, obrigaes, autoridade e desigualdade ganham destaque e vm a fazer parte tambm do elenco de questes que a Sociologia se
coloca.
        Charles Louis de Secondat, Baro de la Brde e de Montesquieu, conhecido como Montesquieu (1689-1755), foi um filsofo poltico de
grande impacto sobre as cincias sociais, tendo lanado mo do conhecimento histrico e emprico para fundar seus argumentos,
distanciando-se, assim, do raciocnio hipottico-dedutivo caracterstico dos contratualistas. Graas ao saber adquirido por meio de suas viagens
e leituras, inovou ao propor a assuno de um ponto de vista comparativo no estudo das sociedades e suas instituies, tendo analisado no apenas
a trajetria dos povos de tradio crist-ocidental mas tambm sociedades orientais, como a turca e a persa. Talvez sua contribuio
terica mais importante refira-se  sua concepo de leis como "relaes necessrias que derivam da natureza das coisas". 15 Cabe ao intelecto
humano descobri-las. E na medida em que a lei em geral  um princpio de razo, deve-se procurar que as leis positivas, isto , as leis polticas
e civis, atendendo s particularidades do clima, da geografia, da raa e dos costumes de cada povo, sejam harmnicas com essa ordem maior. Este
 o esprito das leis. Mas as leis que governam os homens no so sempre obedecidas por estes, sujeitos s paixes,  ignorncia e ao erro. Por
isso, o mundo inteligente no seria to bem governado como o fsico. Sob esse ponto de vista, a liberdade  entendida como "o direito de fazer
tudo quanto as leis permitem; e, se um cidado pudesse fazer o que elas probem, no teria mais liberdade porque os outros teriam idntico
poder". 16 Em sntese, a caracterizao da esfera social como um campo diferenciado e a procura das leis que regem seu movimento representam o
legado mais importante de Montesquieu  formao do pensamento sociolgico.
        Partindo da concepo de um estado de natureza onde no existiriam desigualdades, e tampouco moralidade, o genebrino
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), ao mesmo tempo que prolonga a tradio contratualista do Seiscentos, modifica o contedo e o sentido
do chamado "pacto social" o qual, ao fazer surgir o poder da lei, legitimou a desigualdade, a injusta distribuio da propriedade e da
riqueza, e tambm a submisso, a violncia, os roubos, a usurpao e todo tipo de abusos. O estado civil, alm de ser um artifcio, um ato de
associao ao qual a vontade individual se submete,  o resultado de um processo histrico. E , precisamente, nessa viso evolucionista e na
crtica do processo civilizatrio onde haver de buscar-se a herana mais duradoura que o genebrino legou  Sociologia. No estado primitivo,
o homem , segundo ele, "um ser livre, cujo corao est em paz e o corpo com sade". com a formao da sociedade e das leis e o surgimento
de governantes, os seres humanos perdem a liberdade e os direitos naturais. Eles passam a fazer parte de um rebanho chamado sociedade onde
reina uma uniformidade desprezvel e enganosa. A vida civil e a dependncia mtuas criam entre eles laos de servido.
    p. 14

Embora nesse estado (o ser humano) se prive de muitas vantagens que frui da natureza, ganha outras de igual monta: suas faculdades se exercem e se desenvolvem,
suas idias se alargam, seus sentimentos se enobrecem, toda a sua alma se eleva a tal ponto que, se os abusos dessa nova condio no o degradassem freqentemente
a uma condio inferior quela de onde saiu, deveria, sem cessar, bendizer o instante feliz que dela o arrancou para sempre e fez, de um animal estpido e limitado,
um ser inteligente e um homem. 17.
        Entre os benefcios alcanados, o hbito de viver juntos criou nos seres humanos sentimentos doces como o amor conjugal e paterno, no
havendo, no incio, diferenas entre o modo de viver dos dois sexos. O jugo auto-imposto - a fonte dos males - deveu-se ao aumento de
comodidades, que acabaram por se tornar indispensveis. Assim, o homem, de livre e independente que antes era, devido a uma multido de novas
necessidades, passou a estar sujeito, por assim dizer, a toda a natureza e, sobretudo, a seus semelhantes dos quais, num certo sentido, se torna
escravo, mesmo quando se torna senhor: rico, tem necessidade de seus servios; pobre, precisa de seu socorro... 18
        Esses males constituem o efeito da propriedade privada, cujo estabelecimento  o primeiro progresso da desigualdade. Numa frase muito
conhecida, ele afirma que "o verdadeiro fundador da sociedade" foi aquele que primeiro cercou um terreno e lembrou-se de dizer: "isto 
meu", tendo encontrado "pessoas suficientemente simples para acredit-lo". 19. O gnero humano ficou, ento, submetido ao trabalho, 
servido e  misria, surgiram preconceitos "contrrios  razo,  felicidade e  virtude" e, por fim, o despotismo. Assim, "por mais que
se admire a sociedade humana, no ser menos verdadeiro que ela necessariamente leva os homens a se odiarem entre si  medida que seus
interesses se cruzam, a aparentemente se prestarem servios e realmente a se causarem todos os males imaginveis". 20 No corao de todo homem
civilizado est o desejo de ser o rei do universo, diz Rousseau.
        O movimento iluminista depositava uma imensa f na capacidade de a humanidade utilizar-se da razo e assim progredir. Advogar que,
utilizando-se da razo, os seres humanos podiam melhorar sua condio levou ao surgimento de um grande interesse por parte de certos setores
da sociedade na divulgao de conhecimentos cientficos e prticos. 21 Na Frana, alguns desses pensadores planejaram a elaborao de uma
enciclopdia ambiciosa, como um quadro geral dos "esforos da mente humana" para que, por meio do saber, os homens pudessem tornar seus
descendentes mais instrudos, logo, mais virtuosos e felizes. Em 1750, Diderot lanou o Prospectus atravs do qual a Enciclopdia foi
apresentada. 22. No Discurso preliminar, publicado em 1751, D'Alembert procura mostrar que, a partir
    p. 15

de nossas sensaes, damo-nos conta de nossa prpria existncia e, em seguida, dos objetos exteriores, entre os quais nosso corpo "sujeito a mil necessidades e
extremamente sensvel  ao dos corpos exteriores". Entre os objetos exteriores, descobrimos seres semelhantes a ns, o que nos faz pensar que possuem as mesmas
necessidades e "o mesmo interesse em satisfaz-las" e que, portanto, deve ser vantajoso nos unirmos a eles. Assim, "a comunicao de idias  o princpio e a base
dessa unio e exige necessariamente a inveno dos signos; tal  a origem da formao das sociedades com a que as lnguas devem ter nascido". 23 Ali se l que "entre
os artesos se encontram as provas mais admirveis da sagacidade do esprito e da pacincia", qualidades que de fato iriam fazer avanar o conhecimento em outras
reas. 24. Iniciava-se uma era na qual mestres e empresrios tornar-se-iam, pouco a pouco, parte da camada social dominante. Foram eles os responsveis por maravilhosas
invenes e descobertas que, "preparadas pelos trabalhos dos sculos precedentes", vinham agora a modificar inexoravelmente a face do planeta.
        Uma mostra da vitalidade desse perodo encontra-se na srie de inventos revolucionrios como a lanadeira que John Kay construiu, em
1733, e o tear mecnico produzido cinco anos mais tarde por John Wyatt e Lewis Paul que multiplicariam a produtividade da indstria txtil; os
projetos desenvolvidos entre 1761 e 1768 por James Watt que resultaram na mquina a vapor, fazendo surgir em 1813 a primeira locomotiva e, em
1821, o barco a vapor, construdo pelo norte-americano Robert Fulton. Terras e mares foram rasgados, encurtando distncias que pouco tempo
antes pareciam incomensurveis. A guerra tambm aguou a criatividade, e a produo blica teve reflexos importantes na economia. O grande
desenvolvimento industrial permitiu o aumento da produo, gerando uma demanda de novos mercados e de matrias-primas.
        Na esteira desse processo, o comrcio internacional se intensificou e, com ele, a expanso colonial na frica e na sia. Enfim,
o novo modo de produzir instalava-se, jogando por terra a sociedade feudal e suas instituies.

PRIMEIRAS SOCIOLOGIA
ORDEM, CAOS, CONTRADIES, EVOLUO

        A Revoluo Francesa e seu iderio de liberdade, assim como o individualismo e o anticlericalismo presentes no pensamento iluminista, inspiraram tambm uma
reao profundamente conservadora e de certo modo retrgrada no seio do pensamento social e que se refletiu nas
    p. 16

produes francesa e inglesa, especialmente no que diz respeito  preeminncia da sociedade sobre o indivduo, sua criatura, e na crtica
s mazelas da sociedade moderna. Entre os principais representantes dos que tm sido chamados "profetas do passado" esto o ingls Edmund Burke
(1729-1797) e os franceses Joseph de Maistre (1754-1821) e Louis de Bonald (1754-1840). Em linhas gerais, eles ansiavam por uma sociedade
estvel, hierarquizada, fundada em valores familiares, religiosos e comunitrios, assim como na ordem, na coeso e na autoridade.
        Esse modelo havia chegado ao clmax nas sociedades medievais, comeando a declinar com o Renascimento. A nostalgia de uma vida
comunitria e familiar, vista ento como idlica, e do processo artesanal de trabalho, ambos destrudos pelo novo modo de produo e
pela urbanizao descontrolada, traduziram-se em crticas  prpria modernidade de que era fruto o homem alienado, anmico, desprovido de
virtudes morais e espirituais. Paralelamente a essa rejeio ao moderno, tal corrente glorificava a tradio.
        Precursores imediatos da Sociologia, os pensadores conservadores consideram que o caos e a ausncia de moralidade e solidariedade que as
sociedades nascidas das duas grandes revolues revelam eram fruto do enfraquecimento das antigas instituies protetoras, como a Igreja e as
associaes de ofcios, que haviam garantido ou expressado a estabilidade e a coeso social anteriores. Essa percepo impacta
fortemente a produo sociolgica, especialmente no que se refere aos temas da coeso e da solidariedade. Apesar dessa influncia, a
Sociologia vem a assumir um carter decididamente moderno, acreditando no progresso como uma tendncia inexorvel.
        A teoria social avana a passos rpidos na Frana com a obra de Claude Henri de Rouvroy, conde de Saint-Simon (1760-1825). Ele esteve
entre os primeiros a dar-se conta da inutilidade da aristocracia no contexto da nova sociedade que se estava gestando. Um dos fundamentos da
anlise sociolgica de Saint-Simon , precisamente, a existncia de classes sociais dotadas de interesses conflitantes. Segundo ele, os
industriais franceses deveriam mandar uma carta ao rei pedindo que ele os livrasse dos ultramonarquistas e bonapartistas dizendo: "Senhor, ns
somos as abelhas, livrai-nos dos zanges." Em 1819, publicou a Parbola (texto que lhe valeu uma curta estada na priso), apontando para a nova
sociedade onde industriais (proprietrios e trabalhadores, as "abelhas") contrastam com a elite ociosa (cerca de 30.000 indivduos considerados
importantes, entre famlia real, ministros, prelados e outros, os "zanges") a qual, se desaparecesse de uma s vez, no faria falta 
nao. Assim, segundo ele,

            a prosperidade da Frana no pode ser determinada mais que por efeito e
            como conseqncia do progresso das cincias, das belas artes e das
            profisses e ofcios. Mas os marechais da Frana, os prefeitos e os
            proprietrios
    p. 17

            ociosos no trabalham em absoluto para o progresso das cincias, no
            contribuem para tal progresso, antes o freiam, pois esto se esforando
            em prolongar o predomnio que at agora vm exercendo as teorias
            conjeturais sobre os conhecimentos positivos... so prejudiciais porque
            empregam seus meios pecunirios de um modo no diretamente til para as
            cincias, as belas artes e as artes e ofcios. 25

        Saint-Simon acreditava no industrialismo como domnio da natureza, sendo a histria humana a do trabalho material e espiritual ou
do esforo coletivo - que engloba os avanos da cincia. A caracterstica fundamental da sociedade moderna era, para ele como o
fora para os iluministas, o progresso. Fazendo eco ao sucesso alcanado pelas cincias naturais,  cincia que tratava de construir chamou de
Fisiologia Social. Ela deveria tratar da ao humana incessante, transformadora do meio, e adotar o mtodo positivo das cincias fsicas.
A sociedade no seria "um simples aglomerado de seres vivos cujas aes, independentes de toda finalidade, no tm outra razo que a
arbitrariedade das vontades individuais", mas um verdadeiro ser animado, mais ou menos vigoroso, a cujas partes corresponderiam distintas
funes.         
        A base da sociedade  a produo material, a diviso do trabalho e a propriedade. As vidas individuais seriam as engrenagens principais
que contribuem para o progresso da civilizao. Todas as sociedades possuem idias comuns, e seus membros gostam de sentir os laos morais
que garantem sua unio com os demais. A cada tipo de estrutura social corresponde uma moral e, na sociedade industrial, ela se vincula 
produo e ao trabalho. Se nas sociedades militares que a antecederam, o poder cabia aos guerreiros, na poca da indstria a direo deveria
passar  classe industrial, cuja propriedade se origina no trabalho. A fora militar estaria fadada a tornar-se completamente intil, diz ele.
O poder teolgico seria tambm substitudo pela capacidade cientfica positiva, e os conhecimentos passariam a se fundar na observao. O
corpo social como um todo deveria, ento, exercer as funes governamentais, e o Estado, que tenderia a tornar-se uma organizao de
ociosos, seria substitudo pelos interesses espontneos da produo, sendo absorvido pela sociedade, quando passaria a visar a satisfao de
todos os necessitados. Para ele, a luta entre as classes militar ou feudal e a industrial resultaria na vitria desta ltima e, a partir
da, constituir-se-ia uma sociedade de trabalhadores. Posteriormente, ele modificar sua viso idlica e passar a criticar os patres que
parasitam os operrios. Todos deveriam cooperar para a felicidade comum, e os ociosos seriam excludos, de modo que se aplicasse a divisa: "de
cada um segundo suas capacidades e a cada capacidade segundo suas obras". Uma cincia social "positiva" revelaria as leis do
desenvolvimento da histria, permitindo uma organizao racional da sociedade. As idias saint-simonianas tiveram vigoroso impacto, tanto
sobre a obra de Marx e Engels, como sobre a de Durkheim.
    p. 18

        Secretrio de Saint-Simon por algum tempo, Auguste Comte (1798- 1857) foi quem cunhou o termo Sociologia, que logo veio a se
generalizar, contribuindo para que alguns o percebessem como o fundador da prpria cincia. Ele foi o grande divulgador do mtodo positivo de
conhecimento das sociedades, sintetizado num desiderato: "cincia, da previdncia, previdncia, da ao". 26 Tratava-se de conhecer as leis
sociais para poder prever racionalmente os fenmenos e agir com eficcia; explicar e antever, combinando a estabilidade e a atividade,
as necessidades simultneas de ordem e progresso - condies fundamentais da civilizao moderna. Uma das grandes preocupaes de
Comte era a crise de sua poca, causada, segundo ele, pela desorganizao social, moral e de idias. A soluo se encontraria na
constituio de uma teoria apropriada - a Sociologia - capaz de extinguir a anarquia cientfica vigente, origem do mal. Esse seria,
precisamente, o momento em que se atingiria o estado positivo, o grau mximo de complexidade da cincia. Para isso, era indispensvel
aperfeioar os mtodos de investigao das leis que regem os fenmenos sociais, ou seja, descobrir qual  a ordem contida na histria humana,
lembrando que o princpio dinmico do progresso deveria estar subordinado ao princpio esttico da ordem.
        A chamada "filosofia positiva", segundo Comte,  fundamentalmente um sistema geral do conhecimento humano que se antepe
 "filosofia negativa" com a pretenso de organizar, e no de destruir a sociedade. O movimento crtico do antigo regime em decadncia ainda
carecia de uma filosofia adequada que fornecesse as bases da regenerao social. O fundamento de tal movimento tinha sido o esprito metafsico,
presente na "filosofia negativa" daquele perodo, e que s poderia cristalizar-se numa poltica tendente "a continuar a desordem ou um
estado equivalente de desgoverno". Para que fosse possvel a reorganizao social, era necessrio reconstruir previamente as opinies
e os costumes por meio da "sistematizao dos pensamentos humanos". Esta seria a tarefa do positivismo, composto "de uma filosofia e de uma
poltica... uma constituindo a base, a outra a meta de um mesmo sistema universal". 27
        Comte rejeitava a concepo contratualista de que a sociedade  formada de indivduos, afirmando que tudo o que  humano alm do nvel
meramente fisiolgico deriva da vida social, o que evidencia o predomnio do coletivo. Para o esprito positivo, "o homem propriamente
dito no existe, existindo apenas a Humanidade, j que nosso desenvolvimento provm da sociedade, a partir de qualquer perspectiva
que se o considere"28. O individualismo , portanto, uma construo do pensamento pr-positivo, do esprito teolgico-metafsico.
Contrariamente s concepes iluministas e racionalistas do direito individual, Comte acreditava que "ningum possui o direito seno de
cumprir sempre o seu dever". A ordem, base das sociedades que alcanam o estado positivo 29, baseia-se
    p. 19

no consenso moral, na autoridade. Por isso, rejeitava a revoluo, por promover o progresso s expensas da ordem.
        Tanto Comte como Saint-Simon dedicaram-se tambm a analisar a necessidade da criao de uma religio - de fato uma moralidade
consistente que fundamentasse a nova ordem social. Comte escreveu o Catecismo positivista, em que a Humanidade vem a substituir Deus, e o
altrusmo ocupa o lugar do egosmo. Do mesmo modo, o Novo cristianismo de Saint-Simon seria uma religio sem teologia e sem Deus, dedicada a
aplicar os princpios da fraternidade  vida social. Observa-se em ambos os pensadores uma profunda preocupao com a necessidade de uma moral -
forte o suficiente para amparar a vida social e gerar uma solidariedade compatvel com os novos tempos e capaz de reorganizar as instituies
devastadas pelas revolues, e que viesse a substituir a antiga religiosidade crist fundada na f, na superstio e nos privilgios.
        Parte dessas apreenses sobre a necessidade de uma nova moralidade tiveram seguimento na obra de mile Durkheim. Na busca de
constituir uma Sociologia cientfica com objeto e mtodo claramente definidos, muitas hipteses explicativas da natureza da vida social e
das possveis leis de sua evoluo foram propostas, emulando, com freqncia, modelos de investigao e demonstrao j consagrados -
particularmente pelas cincias fsicas e naturais. Nessa linha, a teoria evolucionista exerceu profunda atrao sobre a Sociologia e a
Antropologia, estimulando a utilizao de analogias entre a sociedade e os organismos. A sociedade era vista como um sistema vivo, dotado de
funes e relaes ordenadas, como uma estrutura que unifica seus componentes diferenciados, garantindo a continuidade harmnica do todo
em atividade. O ingls Herbert Spencer (1820-1903) foi o socilogo mais representativo dessa corrente. Ele difundiu o chamado darwinismo social
- a teoria do evolucionismo biolgico aplicada  compreenso dos fenmenos e, particularmente, das desigualdades sociais, atravs de
conceitos como: evoluo, seleo natural, luta, sobrevivncia. A lei do progresso orgnico, acreditava Spencer,  a lei de todo progresso, que
transforma o simples em complexo por meio de diferenciaes sucessivas e da especializao de funes. Isso se ajusta  sociedade, que teria
evoludo para o tipo industrial. Para ele, "uma sociedade no  mais do que um nome coletivo empregado para designar certo nmero de indivduos.
 a permanncia das relaes existentes entre as partes constitutivas que faz a individualidade de um todo e que a distingue da
individualidade das partes 30." Sendo os indivduos - unidades elementares - organismos sujeitos s leis biolgicas, o arranjo e a
distribuio das funes reguladoras da convivncia social estariam submetidos s mesmas leis do mundo natural. A sociedade
    p. 20

 um organismo [e] apresenta um crescimento contnuo.  medida que ela cresce, suas partes tornam-se dessemelhantes, sua estrutura fica mais complicada e as partes
dessemelhantes assumem funes tambm dessemelhantes. Essas funes no so somente diferentes: suas diferenas so unidas por via de relaes que as tornam possveis
umas pelas outras. A assistncia que mutuamente se prestam acarreta uma mtua dependncia das partes. Finalmente, as partes, unidas por esse liame de dependncia
mtua, vivendo uma pela outra e uma para a outra, compem um agregado constitudo segundo o mesmo princpio geral de um organismo individual. A analogia de uma sociedade
com um organismo torna-se, ainda, mais surpreendente quando se v que todo organismo de aprecivel volume  uma sociedade... 31
        O modelo de relaes que a caracteriza  o contrato, porque os indivduos procuram associar-se na busca da prpria felicidade ou graas ao seu auto-interesse,
e o tipo de ordem da resultante  utilitrio. Concepes evolucionistas desse tipo continuam a exercer um certo fascnio, dada a simplicidade de seu esquema explicativo.
        Em meados do sculo 19, Karl Marx (1818-1883), afastando-se da filosofia idealista alem, concentrava seus esforos em compreender "os
homens de carne e osso", movidos por suas necessidades materiais e inseridos no rio da Histria. Embora sua obra no possa ser considerada
estritamente sociolgica, ela lanou as bases para explicar a vida social a partir do modo como os homens produzem socialmente sua
existncia por meio do trabalho, e de seu papel enquanto agentes transformadores da sociedade.
        Isto trouxe de volta ao centro do debate poltico e intelectual o tema da desigualdade social, vinculando-o a processos
histrico-sociais.
        A Sociologia comeou a se consolidar enquanto disciplina acadmica e a inspirar rigorosos procedimentos de pesquisa a partir das
reflexes de mile Durkheim (1858-1917) e de Max Weber (1864-1920). Ambos se dedicaram no s a delimitar e a investigar um grande nmero de
temas como a dar-lhes uma clara definio sociolgica. Uma parcela considervel da produo desses autores esteve voltada  discusso do
mtodo de pesquisa adequado  Sociologia.
        A maior parte da vida de Durkheim transcorreu durante a Terceira Repblica francesa (1870-1940), poca caracterizada pela instabilidade
poltica e pelas guerras civis. A sociedade europia mostrava-se a seus olhos ainda pouco integrada e cheia de contradies, a famlia e a
religio acusavam sinais do enfraquecimento de suas antigas funes. Ele acreditava ser necessrio descobrir novas fontes de solidariedade e de
consenso entre os membros da sociedade para fortalecer sua coeso.
        Durkheim foi um liberal democrata disposto a levar  frente os ideais revolucionrios de 1789. Nesse sentido, deu continuidade  idia
comtiana de instituir uma religio de cunho secular, fundada em princpios morais que poderiam revigorar a sociedade moderna. O
positivismo foi a corrente de pensamento que teve maior influncia sobre o mtodo de investigao que ele
    p. 21

elegeu como o mais correto para a coleta dos dados, a fim de que a Sociologia ultrapassasse os obstculos impostos pelas noes vulgares e pela afetividade.
        J na Alemanha de Weber a situao social e poltica era bastante distinta daquela que vigorava em boa parte do continente
europeu. Sua industrializao foi retardatria em relao  da Inglaterra e  da Frana, faltando-lhe uma burguesia economicamente
forte, politicamente audaz e com um certo grau de prestgio social. Assim  que os grandes proprietrios agrcolas tomaram a direo do
processo de unificao nacional que veio a ser concludo em 1870. O Prncipe Otto von Bismarck constituiu na Alemanha uma burocracia forte,
racionalmente organizada nos moldes do exrcito prussiano do qual copiou o rgido sistema de hierarquia e autoridade. Nesse quadro de
transformaes estruturais, a pequena burguesia germnica perdeu espao social e poltico e acabou por ensaiar uma reao contra certos aspectos
do capitalismo industrial que vinha se instalando no pas. Crtico do capitalismo - ou melhor, da sociedade racionalizada, burocratizada e
desencantada - Weber tem uma atitude resignada diante desses processos que considera inevitveis e inerentes  evoluo do dito sistema.  o
chamado "anti-capitalismo romntico" que marca de forma definitiva seu pensamento.
        Em suma, foi a partir da obra realizada sobretudo por Marx, Durkheim e Weber que a Sociologia moderna se configurou como um campo de
conhecimento com mtodos e objeto prprios. Valores e instituies que antes eram considerados de um ponto de vista supra-histrico passam a
ser entendidos como frutos da interao humana.
        Assim, a Sociologia revelava a dimenso temporal de fenmenos e dispunha-se, mesmo, a interferir no seu curso aparentemente autnomo.
com o tempo, nenhum tema seria considerado menos nobre ou escaparia  nsia de entendimento: o Estado, as religies, os povos
"no-civilizados", a famlia e a sexualidade, o mercado, a moral, a diviso do trabalho, os modos de agir, as estruturas das sociedades e
seus modos de transformao, a justia, a bruxaria, a violncia... O olhar sociolgico continuar  espreita de novos objetos. A razo passa
a ser vista como a luz que, promovendo a liberdade do indivduo, orienta sbios e ignorantes em direo  verdade.
        Ao tratar de compreender a especificidade do que poderia ser chamado de "social" e dada a prpria natureza de seu objeto, a
Sociologia sofre continuamente as influncias de seu contexto. Idias, valores, ideologias, conflitos e paixes presentes nas sociedades
permeiam a produo sociolgica. Antigos temas - liberdade, igualdade, direitos individuais, alienao - no desaparecem, mas assumem hoje
outros significados. A Sociologia era, e continua a ser, um debate entre concepes que procuram dar resposta s questes cruciais de cada poca.
Por inspirar-se na vida social, no pode, portanto, estar ela prpria livre de contradies.
    p. 22

BIBLIOGRAFIA

ARIES, Phillippe. Histria social da criana e da famlia. Traduo de Dora Flaksman. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.
COMTE, A. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. In .
Comte. So Paulo: Abril Cultural, 1980. Coleo Os Pensadores.
DIDEROT; D'ALEMBERT. Dicionrio raciocinado das cincias, das artes e dos ofcios por uma sociedade de letrados. Traduo de Flvia M. L. Morato. So Paulo: Unesp,
1989.  >* :v
HISTRIA Universal Marin. Barcelona-. Editorial Marin, 1973.
MONTESQUIEU. O esprito das leis, livro I, cap. I. In: WEFFORT, Francisco. Os clssicos da poltica -Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau. So Paulo:
tica, 1991. v. I: O federalista.
QUINTANEIRO, T. Sociologia, obra dos tempos modernos. Caderno de Filosofia e Cincias Humanas, Belo Horizonte, Centro Universitrio Newton Paiva, v. 7, n. 13, 1999-

ROSEN, George. Uma histria da sade pblica. Traduo de Marcos F. S. Moreira. So Paulo: Unesp, 1994.
ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a desigualdade. In . Rousseau. So Paulo:
Abril Cultural, 1980. Coleo Os Pensadores.
ROUSSEAU, J. J. Do contrato social. In . Rousseau. So Paulo: Abril
Cultural, 1980. Coleo Os Pensadores.
SAINT-SIMON, Henri. Parbola. In: DESANTI, Dominique. Los socialistas utpicos. Traduo de Ignacio Vidal. Barcelona: Anagrama, 1973-
SCLIAR, Moacyr. A paixo transformada. Histria da medicina na literatura. So Paulo: Companhia das Letras, 1996.
SPENCER, H. O que  uma sociedade? In: BIRNBAUM, P.; CHAZEL, F. Teoria sociolgica. Traduo de Gisela S. Souza e Hlio Souza. So Paulo: Hucitec/USP, 1977.
THOMPSON, E. P. Tradicin, revuelta y conscincia de clase. Estdios sobre la crisis de la sociedad preindustrial. Barcelona: Crtica, 1979-
    p. 23

NOTAS

1. Esta introduo incorpora partes do artigo Sociologia, obra dos tempos modernos.
2. com a queda do Imprio Romano, em 410, comeam a configurar-se os elementos que caracterizaro a chamada Idade Mdia ou o perodo medieval, que se estende at
o sculo 15. A se inicia o Renascimento, o nascimento da Modernidade.
3. Segundo Scliar, "a teoria do miasma, ao mesmo tempo que alertava contra a transmisso de doenas pelos maus ares, condenava o banho, que poderia abrir os poros
e assim facilitar a entrada de eflvios perigosos". Aos europeus causava surpresa a limpeza dos "selvagens". SCLIAR. A paixo transformada, p. 169-170.
4. HISTRIA Universal Marin, v. 4, p. 228.
5. O tratamento das crianas  um bom exemplo das mudanas sociais ocorridas no processo de socializao e na moralidade. A punio fsica sofrida pelas crianas
na forma de palmadas e outros castigos, que j foi considerada desejvel e pedaggica, hoje comea a parecer inaceitvel em algumas sociedades. Surgem entidades
oficiais e privadas protetoras que visam coibir abusos, e s vezes  suficiente um ato que provoque publicamente sofrimento de qualquer natureza a uma criana para
que aqueles que o assistem manifestem seu desagrado e averso. Mesmo assim, ainda hoje se tm notcias sobre o infanticdio de meninas praticado por familiares,
especialmente nas sociedades em que o sexo feminino  socialmente desvalorizado e nas quais at mesmo a oferta de alimentos, assim como oportunidades de educao,
sade, salrios e cargos  menor para mulheres ou meninas.
6. A histria registra um caso extremo de uma menina da nobreza que foi casada pela primeira vez antes dos quatro anos e, aps enviuvar, ter sido casada novamente
por mais duas vezes antes de completar onze. Isso mostra o grau de dependncia a que estavam submetidas as mulheres e a inexistncia de laos afetivos como fundamento
das alianas, mais voltadas a outros interesses.
7. Ver ARIES. Histria social da criana e da famlia.
8. Em meados do sculo 19, em Manchester, 60.000 pessoas viviam em ptios e 40.000 em pores. Em 1. 500 destes pores, trs pessoas dormiam numa mesma cama; em outros
738, quatro que descansavam em um s colcho, e nos demais 281, cada cama era compartilhada por cinco
    p. 24

pessoas. Uma espcie de tina esvaziada pelas manhs era usada como privada. Para um de seus distritos havia 33 tinas servindo a 7.000 pessoas. ROSEN. Uma histria
da sade pblica, p. 166-167.
9. "O tempo se converte em moeda, no passa... se gasta." THOMPSON. Tradicin, revuelta y conscincia de clase, p. 247.
10. Foi entre os sculos 17 e 18, sobretudo, que despontaram as concepes que faziam do indivduo o ponto de partida do saber e da vida social.   *
11. O "penso, logo existo" exprime a descoberta de uma verdade indubitvel, a partir da qual Descartes construir seu sistema filosfico.
12. O racionalismo nasce no sculo 17 com Ren Descartes, juntamente com o contratualismo, com Thomas Hobbes e John Locke, e o empirismo com Francis Bacon, entre
outros. Enquanto o empirismo fundava o conhecimento na experincia, sendo, portanto, indutivo, o racionalismo era dedutivo. A deduo inicia-se com um conceito
geral, abstrato, do qual derivam-se concluses lgicas a respeito da realidade concreta. Por exemplo, a partir da idia de estado da natureza explica-se, atravs
de um processo hipottico dedutivo, a origem do Estado.
13. O lema kantiano sapere aude - ousa conhecer - exprime o esprito do movimento iluminista.
14. Helvtius escreve, em 1758, que as diferenas entre os seres humanos no se referem  sua capacidade de conhecer, mas aos fatores sociais e polticos, ou morais;
portanto, a educao deveria ser oferecida igualmente a homens e mulheres. Seu livro foi condenado pelo Papa e queimado no Parlamento de Paris e na Faculdade de
Teologia, a Sorbonne.
15. MONTESQUIEU. O esprito das leis, p. 121.
16. MONTESQUIEU. O esprito das leis, p. 172.
17. ROUSSEAU. Do contrato social, p. 267.
18. ROUSSEAU. Discurso sobre a desigualdade, p. 267.
19. ROUSSEAU. Discurso sobre a desigualdade, p. 259.
20. ROUSSEAU. Discurso sobre a desigualdade, p. 291.
21. O termo arte j era, desde os gregos, aplicado  tcnica, enquanto a cincia conhecia as coisas eternas: substncias, essncias, movimentos.
22. Figuras proeminentes da Ilustrao francesa, Denis Diderot (1713-
1784), filsofo e literato, e Jean l Rond d'Alembert (1717-1783), filsofo, fsico e matemtico, organizaram e publicaram a Enciclopdia.
23. DIDEROT; D'ALEMBERT. Dicionrio raciocinado das cincias, das artes e dos ofcios por uma sociedade de letrados, p. 23- Entre 1757-1780 saram " luz 17 volumes
de textos, 111 de pranchas e ilustraes, 5 de
    p. 25

suplementos e 2 de ndices. Contriburam para a Enciclopdia, entre outros, Conclorcet, Rousseau e Voltaire.
24. Ao questionar os preconceitos que haviam relegado  condio de classe inferior aqueles que se dedicavam s operaes manuais e rotineiras, a Enciclopdia concedeu
s chamadas artes mecnicas um lugar que nunca antes haviam ocupado.
25. SAINT-SIMON. Parbola.
26. O positivismo, fundado por Comte, s admitia o conhecimento baseado nos fatos e, portanto, na observao. Comte rejeita a metafsica e a prtica da deduo em
benefcio da cincia emprica e verificvel.
27. COMTE. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo, p. 97.
28. COMTE. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo, p. 77.
29. Os estados anteriores so teolgico e metafsico. A chamada lei dos trs estados  atribuda equivocadamente a Comte, mas foi comum a diversos outros sistemas
de pensamento na poca.
30. SPENCER. O que  uma sociedade? p. 147.
31. SPENCER. O que  uma sociedade? p. 148-149.
    p. 26

1 KARL MARX

                 Mrcia Gardnia Monteiro de Oliveira
                           Tnia Quintaneiro


                     O trabalhador  tanto mais pobre quanto mais riqueza
                     produz, quanto mais cresce sua produo em potncia e
                     em volume. O trabalhador converte-se numa mercadoria
                     tanto mais barata quanto mais mercadorias produz. A
                     desvalorizao do mundo humano cresce na razo direta
                     da valorizao do mundo das coisas. O trabalho no
                     apenas produz mercadorias, produz tambm a si mesmo
                     e ao operrio como mercadoria, e justamente na
                     proporo em que produz mercadorias em geral.

                                            Karl Marx

INTRODUO

        As formulaes tericas de Karl Marx acerca da vida social, especialmente a anlise que
faz da sociedade capitalista e de sua superao, provocaram desde o princpio tamanho
impacto nos meios intelectuais que, para alguns, grande parte da sociologia ocidental tem
sido uma tentativa incessante de corroborar ou de negar as questes por ele levantadas. Mas
a relevncia prtica de sua obra no foi menor, servindo de inspirao queles envolvidos
diretamente com a ao poltica. Herdeiro do iderio iluminista, Marx acreditava que a
razo era no s um instrumento de apreenso da realidade mas, tambm, de construo de
uma
    p. 27

sociedade mais justa, capaz de possibilitar a realizao de todo o potencial de
perfectibilidade existente nos seres humanos. As experincias do desenvolvimento
tecnolgico e as revolues polticas, que tornaram o Setecentos uma poca nica,
inspiraram sua crena no progresso em direo a um reino de liberdade.
        Alm das dificuldades inerentes  complexidade e extenso da obra de Marx, o que
aumenta o desafio de sintetiz-la, o carter sucinto de algumas de suas teses tem dado lugar
a interpretaes controversas. O que se procura a seguir  apresentar, para os que se iniciam
no pensamento marxiano, seus fundamentos conceituais e metodolgicos.

DIALTICA E MATERIALISMO

        A tradio filosfica dominante na Europa at o incio da modernidade pressupunha a
existncia, alm do mundo sensvel e histrico, de uma outra dimenso mais real e povoada
de substncias ou de essncias imutveis que seriam os verdadeiros objetos do
conhecimento. Sob essa tica, o movimento e a transformao, no nvel fenomnico, eram
considerados mera aparncia ou concebidos como consumao de um ciclo inexorvel que
em nada afeta o ser das coisas, constitudo desde sempre, e sempre idntico a si mesmo.
Gradualmente, os caminhos da razo e da histria iro se aproximando at que formas mais
dinmicas de entender a realidade acabaro por ocupar o lugar das concepes anteriores.
        A filosofia idealista de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831)  um ponto alto dessa
trajetria. Para o pensador alemo, "tudo o que  real  racional, e tudo o que  racional 
real". A realidade histrica desenvolve-se enquanto manifestao da razo, num processo
incessante de auto-superao desencadeado pelo conflito e pela contradio que lhe so
inerentes. Tal  "o movimento dialtico, esse caminho que produz a si mesmo". A noo de
dialtica origina-se no pensamento clssico grego e  retomada e reformulada por Hegel
que, discorrendo sobre a dificuldade de apreend-la, diz:

            Assim como a opinio se prende rigidamente  oposio do verdadeiro e
            do falso, assim, diante de um sistema filosfico, ela costuma esperar uma
            aprovao ou uma rejeio e, na explicao de tal sistema, costuma ver
            somente ou uma ou outra. A opinio no concebe a diversidade dos
            sistemas filosficos como o progressivo desenvolvimento da verdade, mas
            na diversidade v apenas contradio. 1
    p. 28

        O finito 2 deve, portanto, ser apreendido a partir do seu oposto, o infinito, o universal, e 
essa relao entre o particular e a totalidade que Hegel denomina unidade dialtica. 3.' O
fenmeno torna-se inteligvel ao ser articulado  totalidade em que se insere, ao ser
constitudo conceitualmente. Na base desse empreendimento est o sujeito - que  quem
realiza o esforo conceitual orientado a transcender a simples observao dos "fatos",
estruturando-os em um sistema totalizante. Este, no entanto, ser sempre transitrio,
passvel de superao, devido ao automovimento do conceito, que reflete a busca pela
verdade em que se empenha o pensamento cientfico e filosfico. Aplicada aos fenmenos
historicamente produzidos, a tica dialtica cuida de apontar as contradies constitutivas
da vida social que resultam na negao e superao de uma determinada ordem.
        Outro tpico recorrente no pensamento poltico e filosfico, sobretudo ao longo do sculo
18, refere-se  perda de autocontrole por parte dos seres humanos, subjugados pela sua
prpria criao: a riqueza da vida material e seus refinamentos. 4 Esse tema reflete-se na
idia hegeliana de conscincia alienada, separada da realidade, "a conscincia de si como
natureza dividida". De fato, para o filsofo idealista, ser livre significa recuperar a
autoconscincia, e a histria dos povos  o processo atravs do qual a Razo alcana
progressivamente esse destino. Aps a morte de Hegel, seu pensamento foi interpretado e,
at certo ponto, instrumentalizado politicamente por seus seguidores o que deu origem a
duas tendncias: uma conservadora, de direita, e outra de esquerda, representada pelos
jovens ou neo-hegelianos, entre os quais encontravam-se Marx e Engels. 5 De fato, o
marxismo, desde seus incios, manter um intenso e duradouro debate com o idealismo
hegeliano.
        Na passagem do idealismo para o materialismo dialtico, Ludwig Feuerbach (1804-1872),
hegeliano de esquerda, foi uma figura-chave. Feuerbach sustentava que a alienao
fundamental tem suas razes no fenmeno religioso, que cinde a natureza humana, fazendo
com que os homens se submetam a foras divinas, as quais, embora criadas por eles
prprios, so percebidas como autnomas e superiores. O mundo religioso  concebido por
Feuerbach como uma projeo fantstica da mente humana, por isso mesmo alienada. 6 A
supresso desse mundo, por meio da crtica religiosa, faria desaparecer a prpria alienao,
promovendo a liberao da conscincia. 7
        Embora inicialmente seduzidos pelas teses de Feuerbach, logo Marx e Engels rebateram-
nas vigorosamente por considerarem tal crtica religiosa uma simples "luta contra frases". 
nesse ponto que a teoria marxista articula a dialtica e o materialismo sob uma perspectiva
histrica, negando, assim, tanto o idealismo hegeliano quanto o materialismo dos neo-hegelianos. 8
Isto resultou na reformulao no s da dialtica como da concepo dos fundamentos da
alienao. 9 Marx e Engels questionam o materialismo feuerbachiano que se limitava a captar o mundo como
    p. 29

objeto de contemplao e no como resultado da ao humana. Por isso, no fora capaz de
v-lo como passvel de transformao atravs da atividade revolucionria ou crtico-prtica.
 a unidade entre a teoria e a praxis que d sentido  frase: "Os filsofos limitaram-se a
interpretar o mundo de distintos modos, cabe transform-lo." 10. Para Marx e Engels, a
alienao associa-se s condies materiais de vida e somente a transformao do processo
de vida real, por meio da ao poltica, poderia extingui-la. Na sociedade capitalista, o
sujeito que realiza as potencialidades da histria  o proletariado, libertando a conscincia
alienada que atribui  realidade histrica uma aparncia mgica, enfeitiada.

            Hoje em dia, tudo parece levar em seu seio sua prpria contradio. Vemos que as mquinas, dotadas da
            propriedade maravilhosa de encurtar e fazer mais frutfero o trabalho humano, provocam a fome e o
            esgotamento do trabalhador. As fontes de riqueza recm-descobertas convertem-se, por arte de um estranho
            malefcio, em fontes de privaes. Os triunfos da arte parecem adquiridos ao preo de qualidades morais. O
            domnio do homem sobre a natureza  cada vez maior; mas, ao mesmo tempo, o homem se converte em
            escravo de outros homens ou de sua prpria infmia. At a pura luz da cincia parece no poder brilhar mais
            que sobre o fundo tenebroso da ignorncia. Todos os nossos inventos e progressos parecem dotar de vida
            intelectual as foras produtivas materiais, enquanto reduzem a vida humana ao nvel de uma fora material
            bruta. Este antagonismo entre a indstria moderna e a cincia, por um lado, e a misria e a decadncia, por
            outro; este antagonismo entre as foras produtivas e as relaes sociais de
            nossa poca  um fato palpvel, abrumador e incontrovertido. (...) no nos enganamos a respeito da natureza
            desse esprito maligno que se manifesta constantemente em todas as contradies que acabamos de assinalar.
            Sabemos que, para fazer trabalhar bem as novas foras da sociedade, necessita-se unicamente que estas
            passem s mos de homens novos, e que tais homens novos so os operrios. 11

        A anlise da vida social deve, portanto, ser realizada atravs de uma perspectiva dialtica
que, alm de procurar estabelecer as leis de mudana que regem os fenmenos, esteja
fundada no estudo dos fatos concretos, a fim de expor o movimento do real em seu
conjunto. Marx afirma que a compreenso positiva das coisas "inclui, ao mesmo tempo, o
conhecimento de sua negao fatal, de sua destruio necessria, porque ao captar o prprio
movimento, do qual todas as formas acabadas so apenas uma configurao transitria,
nada pode det-la, porque em essncia  crtica e revolucionria". 12. Com isso, refora as
diferenas entre sua interpretao da realidade e as anteriores. Enquanto para Hegel a
histria da humanidade nada mais  do que a histria do desenvolvimento do Esprito,
Marx e Engels colocam como ponto de partida
    p. 30

            os indivduos reais, a sua ao e as suas condies materiais de existncia, quer se trate daquelas que
            encontrou j elaboradas quando do seu aparecimento, quer das que ele prprio criou (...) A primeira
            condio de toda a histria humana , evidentemente, a existncia de seres humanos vivos. 13

        Este mtodo de abordagem da vida social foi denominado posteriormente de materialismo
histrico. De acordo com tal concepo, as relaes materiais que os homens estabelecem
e o modo como produzem seus meios de vida formam a base de todas as suas relaes. Mas
essa maneira de exercer a atividade no corresponde meramente 

            reproduo da existncia fsica dos indivduos. Pelo contrrio, j constitui um modo determinado de atividade
            de tais indivduos, uma forma determinada de manifestar a sua vida, um modo de vida determinado. A forma
            como os indivduos manifestam sua vida reflete muito exatamente aquilo que so. O que so coincide,
            portanto, com a sua produo, isto , tanto com aquilo que produzem, como com a forma como produzem.
            Aquilo que os indivduos so depende, portanto, das condies materiais de sua produo. 14

        Conforme a perspectiva materialista e dialtica, todo fenmeno social ou cultural 
efmero. Logo, tanto a anlise da evoluo dos processos econmicos quanto a produo de
conceitos para estruturar sua compreenso devem partir do reconhecimento de que:

            As formas econmicas sob as quais os homens produzem, consomem e trocam so transitrias e histricas.
            Ao adquirir novas foras produtivas, os homens mudam seu modo de produo, e com o modo de produo
            mudam as relaes econmicas, que no eram mais que as relaes necessrias daquele modo concreto de
            produo... as categorias econmicas no so mais que abstraes destas relaes reais e so verdades
            unicamente enquanto essas relaes subsistem. 15

        Segundo Marx, os economistas de seu tempo no reconhecem a historicidade dos
fenmenos que se manifestam na sociedade capitalista, por isso suas teorias so
comparveis s dos telogos, para os quais "toda religio estranha  pura inveno humana,
enquanto a deles prprios  uma emanao de Deus". Ele questiona a perspectiva para a
qual as relaes burguesas de produo so naturais, esto de acordo com as leis da
natureza, como se fossem "independentes da influncia do tempo", sendo por isso
consideradas como "leis eternas que devem reger sempre a sociedade. De modo que at
agora houve histria, mas agora j no h." Assim, as instituies feudais teriam sido
histricas, ironiza, mas as burguesas seriam naturais e, portanto, imutveis. 16. Para ele,
tanto os processos ligados  produo so transitrios, como as idias, concepes, gostos,
crenas, categorias do conhecimento e ideologias os quais, gerados socialmente,
                p. 31

dependem do modo como os homens se organizam para produzir. Portanto, o pensamento e
a conscincia so, em ltima instncia, decorrncia da relao homem/natureza, isto , das
relaes materiais.

            Ser a maneira de ver a natureza e as relaes sociais que a imaginao grega inspira - e que constitui, por
            isso mesmo, o fundamento da mitologia grega - compatvel com as mquinas automticas de fiar, as
            ferrovias, as locomotivas e o telgrafo eltrico? Quem  Vulcano ao p de Roberts & Cia., Jpiter em
            comparao com o pra-raios e Hermes em comparao com o Crdito Imobilirio? Toda a mitologia
            subjuga, governa as foras da natureza no domnio da imaginao e pela imaginao, dando-lhes forma:
            portanto, desaparece quando estas foras so dominadas realmente. A arte grega supe a mitologia grega,
            isto , a elaborao artstica mas inconsciente da natureza e das prprias formas sociais pela imaginao
            popular. So esses os seus materiais... Jamais a mitologia egpcia teria podido proporcionar um terreno
            favorvel  ecloso da arte grega. 17

NECESSIDADES: PRODUO E REPRODUO

        Na busca de atender s suas carncias, os seres humanos produzem seus meios de vida. 
nessa atividade que recriam a si prprios e reproduzem sua espcie num processo que 
continuamente transformado pela ao das sucessivas geraes. A premissa da anlise
marxista da sociedade , portanto, a existncia de seres humanos que, por meio da interao
com a natureza e com outros indivduos, do origem  sua vida material.

            Um primeiro pressuposto de toda existncia humana e, portanto, de toda histria (...) [] que os homens
            devem estar em condies de poder viver a fim de "fazer a histria". Mas, para viver,  necessrio, antes de
            mais nada, beber, comer, ter um teto onde se abrigar, vestir-se etc. O primeiro fato histrico , pois, a
            produo dos meios que permitem satisfazer essas necessidades, a produo da prpria vida material; trata-se
            de um fato histrico; de uma condio fundamental de toda a histria, que  necessrio, tanto hoje como h
            milhares de anos, executar, dia a dia, hora a hora, a fim de manter os homens vivos. 18

        Todos os seres vivos devem refazer suas energias a fim de assegurar sua existncia e a de
sua espcie. Todavia, ao interagir com a natureza, os animais atuam de forma inconsciente,
no-cumulativa, somente em resposta s suas privaes imediatas, e tendo como limite as
condies naturais.
    p. 32

             certo que tambm o animal produz. Constri para si um ninho, casas, como as abelhas, os castores, as
            formigas etc. Mas produz unicamente o que necessita imediatamente para si ou sua prole (...) produz unicamente
            por fora de uma necessidade fsica imediata, enquanto o homem produz inclusive livre da necessidade fsica
            e s produz realmente liberado dela, o animal produz somente a si mesmo, enquanto o homem reproduz a natureza
            inteira; o produto do animal pertence imediatamente a seu corpo fsico, enquanto o homem enfrenta-se livremente
            com seu produto O animal produz unicamente segundo a necessidade e a medida da espcie a que pertence, enquanto
            o homem sabe produzir segundo a medida de qualquer espcie e sabe sempre impor ao objeto a medida que lhe 
            inerente; por isso o homem cria tambm segundo as leis da beleza. 19

        Ao produzir para prover-se do que precisam, os seres humanos procuram dominar as
circunstncias naturais, e podem modificar a fauna e a flora. 20 Para isto, organizam-se
socialmente, estabelecem relaes sociais. O ato de produzir gera tambm novas
necessidades, que no so, por conseguinte, simples exigncias naturais ou fsicas, mas
produtos da existncia social.

            A fome  a fome, mas a fome que se satisfaz com carne cozinhada, comida com faca e garfo, no  a mesma
            fome que come a carne crua, servindo-se das mos, das unhas, dos dentes. Por conseguinte, a produo
            determina no s o objeto do consumo, mas tambm o modo de consumo, e no s de forma objetiva, mas
            tambm subjetiva. Logo, a produo cria o consumidor 21

        Logo, "a prpria quantidade das supostas necessidades naturais, como o modo de satisfaz-las,
 um produto histrico que depende em grande parte do grau de civilizao
alcanado". 22. Na busca de controlar as condies naturais, os homens criam novos objetos
os quais no s se incorporam ao ambiente, modificando-o, como passam s prximas
geraes. Os resultados da atividade e da experincia humanas que se objetivam so
acumulados e transmitidos por meio da cultura.  por meio da ao produtiva que o homem
humaniza a natureza e tambm a si mesmo. O processo de produo e reproduo da vida
atravs do trabalho , para Marx, a atividade humana bsica, a partir da qual se constitui a
"histria dos homens",  para ele que se volta o materialismo histrico, mtodo de anlise
da vida econmica, social, poltica, intelectual.
    p. 33

FORAS PRODUTIVAS E RELAES SOCIAIS DE PRODUO

        Marx nunca se refere  produo em geral, mas  "produo num estdio determinado do
desenvolvimento social [que]  a produo dos indivduos vivendo em sociedade". Embora
a sociedade seja "o produto da ao recproca dos homens", ela no  uma obra que esses
realizam de acordo com seus desejos particulares. A estrutura de uma sociedade depende
do estado de desenvolvimento de suas foras produtivas e das relaes sociais de produo
que lhes so correspondentes. Tais conceitos so interdependentes e tm, antes de mais
nada, uma finalidade analtica, de modo a tornar inteligvel a realidade.
        A ao dos indivduos sobre a natureza  expressa no conceito de foras produtivas - o
qual busca apreender o modo como aqueles obtm, em determinados momentos, os bens de
que necessitam e, para isto, em que grau desenvolveram sua tecnologia, processos e modos
de cooperao, a diviso tcnica do trabalho, habilidades e conhecimentos utilizados na
produo, a qualidade dos instrumentos e as matrias-primas de que dispem. Esse conceito
pretende, pois, exprimir o grau de domnio humano sobre a natureza, embora Marx assinale

            que os homens no so livres rbitros de suas foras produtivas - base de toda sua histria - pois toda fora
            produtiva  uma fora adquirida, produto de uma atividade anterior. Portanto, as foras produtivas so o
            resultado da energia prtica dos homens, mas essa mesma energia est determinada pelas condies em que os
            homens se encontram colocados, pelas foras produtivas j adquiridas, pela forma social anterior a eles, que
            eles no criaram e que  produto da gerao anterior. O simples fato de que cada gerao posterior encontre
            foras produtivas adquiridas pela gerao precedente, que lhe servem de matria-prima para a nova produo,
            cria na histria dos homens uma conexo, cria uma histria da humanidade, que  tanto mais a histria da
            humanidade porque as foras produtivas dos homens e, por conseguinte, suas relaes sociais adquiriram
            maior desenvolvimento. 23

        O conceito de relaes sociais de produo refere-se s formas estabelecidas de distribuio
dos meios de produo e do produto, e o tipo de diviso social do trabalho numa dada
sociedade e em um perodo histrico determinado. Ele expressa o modo como os homens se
organizam entre si para produzir; que formas existem naquela sociedade de apropriao
    p. 34

de ferramentas, tecnologia, terra, fontes de matria-prima e de energia, e eventualmente de
trabalhadores; quem toma decises que afetam a produo; como a massa do que 
produzido  distribuda, qual a proporo que se destina a cada grupo, e as diversas
maneiras pelas quais os membros da sociedade produzem e repartem o produto. Na medida
em que, ao produzir, os homens atuam coletivamente, cooperam,

            a produo da vida, tanto a prpria atravs do trabalho como a alheia atravs da procriao, surge-nos agora
            como uma relao dupla: por um lado, como uma relao natural e, por outro, como uma relao social -
            social no sentido de ao conjugada de vrios indivduos, no importa em que condies, de que maneira e
            com que objetivo. Segue-se que um determinado modo de produo ou estdio de desenvolvimento industrial
            se encontram permanentemente ligados a um modo de cooperao ou a um estado social determinado, e que
            esse modo de cooperao  ele mesmo uma fora produtiva. 24

        Ainda que a cooperao seja uma relao social de produo porque ocorre entre seres
humanos, ela pode se dar tendo em vista interesses particulares, como o de aumentar a
produtividade do trabalho ou a quantidade de trabalho explorado. Devido a condies
socialmente estabelecidas - ou seja, em sociedades onde existem classes sociais - d-se
um acesso diferenciado, segundo o grupo social, ao produto e aos meios para produzi-lo. A
distribuio - que aparece como se fosse apenas distribuio das riquezas nada tendo a ver
com a produo - , antes de mais nada: 1) distribuio dos instrumentos de produo e,
2) distribuio dos membros da sociedade pelos diferentes gneros de produo. A
quantidade de produtos a que distintos membros de sociedades tm acesso  o resultado
desta distribuio, que  parte da estrutura do prprio processo produtivo.
        A diviso social do trabalho expressa modos de segmentao da sociedade, ou seja,
desigualdades sociais mais abrangentes como a que decorre da separao entre trabalho
manual e intelectual, ou entre "o trabalho industrial e comercial e o trabalho agrcola; e,
como conseqncia, a separao entre a cidade e o campo e a oposio dos seus
interesses". 25. A partir dessas grandes divises, ocorreram historicamente outras como, por
exemplo, entre os grupos que assumiram as ocupaes religiosas, polticas, administrativas,
de controle e represso, financeiras etc. A cada um desses grupos cabem tanto tarefas
distintas quanto pores maiores ou menores do produto social, j que eles ocupam
posies desiguais relativamente ao controle e propriedade dos meios de produo. Assim,
o tipo de diviso social do trabalho corresponde  estrutura de classes da sociedade,

            os vrios estgios de desenvolvimento da diviso do trabalho representam
            outras tantas formas diferentes de propriedade; por outras palavras, cada
    p. 35

            novo estgio na diviso do trabalho determina igualmente as relaes
            entre os indivduos no que toca  matria, aos instrumentos e aos
            produtos do trabalho. 26

        Marx sugere que se imagine uma reunio de homens livres que trabalham com meios de produo comuns e que agrupam suas foras. Seu
produto  social, uma parte do qual volta a ser meio de produo e outra  consumida. "O modo de distribuio variar segundo o organismo
produtor da sociedade e o grau de desenvolvimento histrico alcanado pelos produtores." 27. Devido  percepo alienada que se tem das
relaes sociais, Marx salienta que elas tambm so obra dos homens, do mesmo modo como o so o linho ou a seda.

            O moinho movido a brao nos d a sociedade dos senhores feudais; o moinho movido a vapor, a sociedade
            dos capitalistas industriais. Os homens, ao estabelecerem as relaes sociais vinculadas ao desenvolvimento
            de sua produo material, criam tambm os princpios, as idias e as categorias conformes s suas relaes
            sociais. Portanto, essas idias, essas categorias so to pouco eternas quanto as relaes s quais servem de expresso. 28

        Assim sendo, as noes de foras produtivas e de relaes sociais de produo mostram que tais relaes se interligam de modo que
as mudanas em uma provocam alteraes na outra. Em resumo, o conceito de foras produtivas refere-se aos instrumentos e habilidades que
possibilitam o controle das condies naturais para a produo, e seu desenvolvimento  em geral cumulativo. O conceito de relaes sociais de
produo trata das diferentes formas de organizao da produo e distribuio, de posse e tipos de propriedade dos meios de produo, bem
como e que se constituem no substrato para a estruturao das desigualdades expressas na forma de classes sociais. O primeiro trata
das relaes homem/natureza e o segundo das relaes entre os homens no processo produtivo.

ESTRUTURA  E  SUPERESfRUTURA

        O conjunto das foras produtivas e das relaes sociais de produo de uma sociedade forma sua base ou estrutura *29 que, por sua
vez,  o fundamento sobre o qual se constituem as instituies polticas e sociais.

            A estrutura social e o Estado resultam constantemente do processo vital de indivduos determinados; mas no 
            resultam daquilo que esses indivduos aparentam perante si mesmos ou perante outros e sim daquilo que so na 
            realidade, isto , tal como trabalham e produzem materialmente. 30
    p. 36

        Segundo a concepo materialista da histria, na produo da vida os homens geram
tambm outra espcie de produtos que no tm forma material: as ideologias polticas,
concepes religiosas, cdigos morais e estticos, sistemas legais, de ensino, de
comunicao, o conhecimento filosfico e cientfico, representaes coletivas de
sentimentos, iluses, modos de pensar e concepes de vida diversos e plasmados de um
modo peculiar. A classe inteira os cria e os plasma derivando-os de suas bases materiais e
das relaes sociais correspondentes. 31 Esta  a superestrutura ou supra-estrutura. Marx e
Engels sintetizam a articulao entre esses dois nveis na seguinte crtica ao idealismo:

            So os homens que produzem as suas representaes, as suas idias etc., mas os homens reais, atuantes, e tais
            como foram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas foras produtivas e do modo de
            relaes que lhe corresponde, incluindo at as formas mais amplas que estas possam tomar. A conscincia
            nunca pode Ser mais que o Ser consciente, e o Ser dos homens  o seu processo da vida real... Assim, a moral,
            a religio, a metafsica e qualquer outra ideologia, tal como as formas de conscincia que lhes correspondem,
            perdem imediatamente toda aparncia de autonomia. No tm histria, no tm desenvolvimento; sero,
            antes, os homens que, desenvolvendo a sua produo material e as suas relaes materiais, transformam, com
            esta realidade que lhes  prpria, o seu pensamento e os produtos deste pensamento. No  a conscincia que
            determina a vida, mas sim a vida que determina a conscincia. 32

        Assim, a explicao das formas jurdicas, polticas, espirituais e de conscincia encontra-se
na base econmica e material da sociedade, no modo como os homens esto organizados no
processo produtivo. No caso das sociedades onde se d a apropriao privada dos meios
para produzir, esta base relaciona-se diretamente  forma adotada por suas instituies.

            Na relao imediata entre o proprietrio dos meios de produo e o produtor direto h que se buscar o segredo
            mais profundo, o cimento oculto de todo o edifcio social, e por conseguinte da forma poltica que a relao
            de soberania e dependncia adota; em uma palavra, a base da forma especfica que o Estado adota em um
            perodo dado. Isto no impede que a mesma base econmica apresente, sob a influncia de inumerveis
            condies empricas distintas, de condies naturais, de relaes sociais, influncias histricas
            exteriores, infinitas variaes e matizes, que s podero ser esclarecidos por uma anlise dessas circunstncias empricas. 33

        Esta base material , portanto, expressa no conceito de modo de produo que serve para
caracterizar distintas etapas da histria humana. Na medida em que uma diversidade de
fatores contribui para a configurao das maneiras como se produz em diferentes
sociedades e pocas, de
    p. 37

suas estruturas de classes, assim como de suas leis, religies, regimes polticos e outros
elementos superestruturais, o conceito de modo de produo  abstrato o suficiente para
contemplar as formas particulares que se apresentam historicamente. Marx faz meno aos
modos de produo comunista primitivo, antigo, feudal e capitalista nas sociedades
ocidentais, ao asitico que compreende as sociedades orientais e as pr-colombianas da
Amrica do Sul, e finalmente ao comunista. Debates posteriores encarregaram-se de
mostrar que, com isso, Marx no pretendia dizer que o progresso social encaminhava-se
linearmente e numa direo nica: aquela trilhada pelas sociedades ocidentais mais
avanadas. O xito da Revoluo socialista na Rssia czarista em 1917 contribuiu para
mostrar que nem todas as sociedades tinham que passar pelas mesmas etapas.
        Os conceitos-chave para a compreenso do materialismo histrico foram sintetizados por
Marx ao narrar sua prpria trajetria intelectual:

            O meu primeiro trabalho, que empreendi para esclarecer as dvidas que me assaltavam, foi uma reviso
            crtica da Filosofia do Direito de Hegel (...) Nas minhas pesquisas cheguei  concluso de que as relaes
            jurdicas - assim como as formas de Estado - no podem ser compreendidas por si mesmas, nem pela dita
            evoluo geral do esprito humano, inserindo-se, pelo contrrio, nas condies materiais de existncia de que
            Hegel (...) compreende o conjunto pela designao de "sociedade civil"; por seu lado, a anatomia da
            sociedade civil deve ser procurada na economia poltica (...) A concluso geral a que cheguei e que, uma vez
            adquirida, serviu de fio condutor dos meus estudos pode formular-se resumidamente assim: na produo
            social de sua existncia, os homens estabelecem relaes determinadas, necessrias, independentes da sua
            vontade, relaes de produo que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das foras
            produtivas materiais. O conjunto dessas relaes de produo constitui a estrutura econmica da sociedade, a
            base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurdica e poltica e  qual correspondem determinadas
            formas de conscincia social. O modo de produo da vida material condiciona o desenvolvimento da vida
            social, poltica e intelectual em geral. No  a conscincia dos homens que determina o seu ser;  o seu ser
            social que, inversamente, determina a sua conscincia. Em certo estdio de desenvolvimento, as foras
            produtivas materiais da sociedade entram em contradio com as relaes de produo existentes, ou, o que 
            a sua expresso jurdica, com as relaes de propriedade no seio das quais tinham se movido at ento. De
            formas de desenvolvimento das foras produtivas, estas relaes transformam-se no seu entrave. Surge, ento,
            uma poca de revoluo social. A transformao da base econmica altera, mais ou menos rapidamente, toda
            a imensa superestrutura. 34
    p. 38

        Coube a Engels, numa longa carta, esclarecer alguns equvocos que j se anunciavam ento
a respeito da relao entre a estrutura e a superestrutura. 35

            Segundo a concepo materialista da histria, o fator que em ltima instncia determina a histria  a
            produo e a reproduo da vida real. Nem Marx nem eu nunca afirmamos mais do que isso. Se algum o
            tergiversa dizendo que o fator econmico  o nico determinante, converte aquela tese numa frase vazia,
            abstrata, absurda. A situao econmica  a base, mas os diversos fatores da superestrutura - as formas
            polticas da luta de classes e seus resultados, as Constituies que, uma vez ganha uma batalha, so redigidas
            pela classe vitoriosa etc., as formas jurdicas, e mesmo os reflexos de todas estas lutas reais no crebro dos
            participantes, as teorias polticas, jurdicas, filosficas, as idias religiosas e o seu desenvolvimento ulterior
            at serem convertidas em sistemas dogmticos - exercem igualmente a sua ao sobre o curso das lutas
            histricas e, em muitos casos, determinam predominantemente sua forma (...) Somos ns mesmos que
            fazemos a histria, mas, ns a fazemos, em primeiro lugar, segundo premissas e condies muito concretas.
            Entre elas, so as econmicas as que, em ltima instncia, decidem. Mas tambm desempenham um papel,
            ainda que no seja decisivo, as condies polticas e at as tradies que rondam como um duende nas
            cabeas dos homens... O fato de que os discpulos destaquem mais que o devido o aspecto econmico  coisa
            que, em parte, temos a culpa Marx e eu mesmo. Frente aos adversrios, tnhamos que sublinhar este princpio
            cardinal que era negado, e nem sempre dispnhamos de tempo, espao e ocasio para dar a devida
            importncia aos demais fatores que intervm no jogo das aes e reaes. Infelizmente, ocorre com
            freqncia que se cr haver entendido totalmente e que se pode manusear sem dificuldades uma nova teoria
            pelo simples fato de se haver assimilado, e nem sempre exatamente, suas teses fundamentais. Desta crtica
            no esto isentos muitos dos novos "marxistas" e assim se explicam muitas das coisas inexpressivas com que
            contriburam. 36

        De toda maneira, a complexidade da relao estrutura e superestrutura continuou levando a
interpretaes contraditrias do marxismo. As chamadas leituras economicistas do
pensamento de Marx enfatizam o determinismo da vida econmica sobre as formas
superestruturais, excluindo qualquer possibilidade de que as ideologias, as cincias, a arte,
as crenas religiosas, as formas de conscincia coletiva, tanto de classes como de outros
modos de associao, sistemas jurdicos ou de governo tenham exercido sobre a histria de
um povo um papel, se no determinante, pelo menos com peso semelhante ao da estrutura.
Tais perspectivas foram com freqncia utilizadas com a finalidade de impor concepes
polticas autoritrias, mesmo que anticapitalistas, algumas das quais se propuseram a
promover uma "revoluo" no nvel superestrutural de
    p. 39

modo a adequ-lo s chamadas "necessidades da produo". com isso, tradies
culturais, valores, crenas e costumes sofreram intervenes por parte de interesses
polticos organizados. 37 Em muitos casos, manifestaes artsticas como a poesia, a
escultura, a pintura e o teatro servem at hoje de testemunho das exigncias que lhes
foram colocadas por vanguardas partidrias.

CLASSES SOCIAIS E ESTRUTURA SOCIAL

        Marx no deixou uma teoria sistematizada sobre as classes sociais, embora este seja
um tema obrigatrio para que suas interpretaes a respeito das desigualdades
sociais, da explorao, do Estado e da revoluo sejam compreendidas. Tal teoria
acabou por ser constituda a partir dos elementos disseminados em seus distintos
trabalhos. 38. O ponto de partida  que a produo  "a atividade vital do trabalhador,
a manifestao de sua prpria vida", e atravs dela o homem se humaniza. No
processo de produo os homens estabelecem entre si determinadas relaes sociais
atravs das quais extraem da natureza o que necessitam. Desde a, Marx reflete
sobre o significado - para o indivduo e a sociedade - da apropriao por
noprodutores (pessoas, empresas ou o Estado) de uma parcela do que  produzido
socialmente, e desenvolve sua concepo de classe, explorao, opresso e
alienao.
        Enquanto as sociedades estiveram limitadas por uma capacidade produtiva exgua, a
sobrevivncia de seus membros s era garantida por meio de uma luta constante
para obter da natureza o indispensvel. A organizao social era simples e existia
apenas uma diviso natural do trabalho segundo a idade, a fora fsica e o gnero.
Ou seja, "numa poca em que duas mos no podem produzir mais do que o que
uma boca consome, no existem bases econmicas" 39 que possibilitem que uns
vivam do trabalho de outros, seja na forma de trabalho escravo ou de qualquer outro
modo de explorao.  o surgimento de um excedente da produo que permite a
diviso social do trabalho, assim como a apropriao das condies de produo por
parte de alguns membros da comunidade os quais passam, ento, a estabelecer
algum tipo de direito sobre o produto ou sobre os prprios trabalhadores. V-se,
portanto, que a existncia das classes sociais vincula-se a circunstncias histricas
especficas, quais sejam, aquelas em que a criao de um excedente possibilita a
apropriao privada das condies de produo. Dessa forma, o materialismo
histrico descarta as interpretaes que atribuem um carter natural, inexorvel, a
esse tipo particular de desigualdade
    p. 40

E ainda afasta definitivamente a idia segundo a qual as classes se definiriam a partir do
nvel de renda ou da origem dos rendimentos: isso no s resultaria numa infinidade de
situaes como, tambm, tornaria a distribuio da riqueza produzida socialmente a prpria
causa da desigualdade. A renda no  um fator independente da produo: , antes, uma
expresso da parcela maior ou menor do produto a que um grupo de indivduos pode ter
direito em decorrncia de sua posio na estrutura de classes.
        A configurao bsica de classes nos termos expostos acima expressa-se, de maneira
simplificada, num modelo dicotmico: de um lado, os proprietrios ou possuidores dos
meios de produo, de outro, os que no os possuem. Historicamente, essa polaridade
apresenta-se de diferentes maneiras conforme as relaes sociais e econmicas de cada
formao social. Da os escravos e patrcios, servos e senhores feudais, aprendizes e
mestres, trabalhadores livres e capitalistas... Esse , sem dvida, um esquema terico
insuficiente para apreender a complexidade e variaes presentes em sociedades concretas.
Nem mesmo no caso da Inglaterra, a sociedade capitalista mais desenvolvida da poca, a
diviso de classes aparecia em sua forma pura, e as conseqncias da convivncia entre
elementos de distintos modos de produo podem ser observadas na Europa, onde

             parte dos males da poca atual, temos que suportar uma larga srie de males hereditrios provenientes da
            sobrevivncia de modos de produo superados, com as conseqncias das relaes polticas e sociais
            anacrnicas que engendra. No s temos que sofrer com os vivos mas, alm disso, com os mortos. 40

        A utilidade do esquema dicotmico reside na possibilidade de identificar a configurao
bsica das classes de cada modo de produo, aquelas que respondero pela dinmica
essencial de uma dada sociedade, definindo inclusive as relaes com as demais classes.

            Em todas as formas de sociedade,  uma produo determinada e as relaes por ela produzidas que
            estabelecem todas as outras produes e as relaes a que elas do origem, a sua categoria e a sua
            importncia.  como uma iluminao geral que modifica as tonalidades particulares de todas as cores. 41

        Mesmo assim, Marx acredita que a tendncia do modo capitalista de produo  separar
cada vez mais o trabalho e os meios de produo, concentrando e transformando estes
ltimos em capital e quele em trabalho assalariado e, com isso, eliminar as demais
divises intermedirias das classes. No obstante, as sociedades comportam tambm
critrios e
    p. 41

modos de apropriao e de estabelecimento de privilgios que geram ou mantm outras
divises e classes alm daquelas cujas relaes so as que, em definitivo, modelam a
produo e a formao socio-econmica. O estabelecimento de novas relaes sociais de
produo com a organizao jurdica e poltica correspondente e, com elas, de novas
classes, quase nunca representa uma completa extino dos modos de produo anteriores,
cujos traos s vezes s gradualmente vo desaparecendo.
        O desenvolvimento do modo de produo capitalista tomou rumos imprevisveis para um
analista situado, como Marx, em meados do sculo
19. A organizao econmica e poltica ancorou-se cada vez mais firmemente em nveis
internacionais e, no interior de cada sociedade, esses processos adquiriram feies muito
singulares, referidas  diversidade de elementos que conformaram suas experincias
histricas. Tudo isso teve como resultado novas subdivises no interior das classes sociais,
como ocorre com o crescimento das chamadas "classes mdias" e dos setores
tecnoburocrticos. Em outros casos, consolidou a existncia de antigas relaes de
produo, s vezes sob novas roupagens, tanto no campo como nas cidades. Em suma,
formaram-se historicamente estruturas econmicas e sociais complexas, conjugando
relaes entre as novas classes e fraes 42 de classe tpicas das sociedades capitalistas
tradicionais.
        A crtica feita pelo marxismo  propriedade privada dos meios de produo da vida humana
dirige-se, antes de tudo, s suas conseqncias: a explorao da classe de produtores no-
possuidores por parte de uma classe de proprietrios, a limitao  liberdade e s
potencialidades dos primeiros e a desumanizao de que ambos so vtimas. Mas o domnio
dos possuidores dos meios de produo no se restringe  esfera produtiva: a classe que
detm o poder material numa dada sociedade  tambm a potncia poltica e espiritual
dominante.

            Os indivduos que constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, uma conscincia, e  em
            conseqncia disso que pensam; na medida em que dominam enquanto classe e determinam uma poca
            histrica em toda sua extenso,  lgico que esses indivduos dominem em todos os sentidos, que tenham,
            entre outras, uma posio dominante como seres pensantes, como produtores de idias, que regulamentem a
            produo e a distribuio dos pensamentos de sua poca; as suas idias so, portanto, as idias dominantes de
            sua poca. 43
    p. 42

LUTAS DE CLASSES

        No trecho a seguir esto sintetizados aspectos importantes da teoria marxiana sobre as
classes e a relao conflituosa que mantm:

            Pelo que me diz respeito, no me cabe o mrito de ter descoberto a existncia das classes na sociedade
            moderna, nem a luta entre elas. Muito antes de mim, alguns historiadores burgueses tinham exposto o
            desenvolvimento histrico desta luta de classes, e alguns economistas burgueses, a sua anatomia. O que
            acrescentei de novo foi demonstrar: 1) que a existncia das classes est unida apenas a determinadas fases
            histricas do desenvolvimento da produo; 2) que a luta de classes conduz, necessariamente,  ditadura do
            proletariado; 3) que esta mesma ditadura no  mais que a transio para a abolio de todas as classes e
            para uma sociedade sem classes. 44

        O Manifesto comunista inicia-se com a afirmativa de que as classes sociais sempre se
enfrentaram e "mantiveram uma luta constante, velada umas vezes e noutras franca e
aberta; luta que terminou sempre com a transformao revolucionria de toda a sociedade
ou pelo colapso das classes em luta". 45 Portanto, a histria das sociedades cuja estrutura
produtiva baseia-se na apropriao privada dos meios de produo pode ser descrita como a
histria das lutas de classes. Essa expresso, antes de significar uma situao de confronto
explcito - que de fato pode ocorrer em certas circunstncias histricas - expressa a
existncia de contradies numa estrutura classista, o antagonismo de interesses que
caracteriza necessariamente uma relao entre classes, devido ao carter dialtico da
realidade. Dado que as classes dominantes sustentam-se na explorao do trabalho daqueles
que no so proprietrios nem possuidores dos meios de produo - assim como em
diversas formas de opresso social, poltica, intelectual, religiosa etc. - a relao entre elas
no pode ser outra seno conflitiva, ainda que apenas potencialmente. Para o materialismo
histrico, a luta de classes relaciona-se diretamente  mudana social,  superao dialtica
das contradies existentes.  por meio da luta de classes que as principais transformaes
estruturais so impulsionadas, por isso ela  dita o "motor da histria". A classe explorada
constitui-se assim no mais potente agente da mudana.
        Para fins analticos, Marx distingue conceitualmente as classes em si, conjunto dos
membros de uma sociedade que so identificados por compartilhar determinadas condies
objetivas, ou a mesma situao no que se refere  propriedade dos meios de produo, das
classes para si,
    p. 43

classes que se organizam politicamente para a defesa consciente de seus interesses, cuja
identidade  construda tambm do ponto de vista subjetivo. 46. Essa distino tornou-se
clssica pela referncia que Marx faz, num texto muito conhecido, aos camponeses
pequenos proprietrios da Frana. Estes so apresentados como uma massa de famlias
pobres que, dado seu modo de produzir, eram auto-suficientes e viviam isolados. Umas
quantas famlias constituem uma aldeia, umas quantas aldeias, um departamento, e

            assim se forma a grande massa da nao francesa, pela simples soma de unidades do mesmo nome, do
            mesmo modo como as batatas de um saco formam um saco de batatas. Na medida em que milhes de
            famlias vivem sob condies econmicas de existncia que as distinguem por sua maneira de viver,
            seus interesses e sua cultura de outras classes e se opem a elas de modo hostil, aquelas formam
            uma classe. Dado que existe entre os pequenos proprietrios camponeses uma articulao puramente local, e
            a identidade de interesses no engendra entre eles nenhuma comunidade, nenhuma unio nacional e nenhuma
            organizao poltica, no formam uma classe. So, portanto, incapazes de fazer valer seu interesse de classe
            em seu prprio nome (...) no podem representar-se, mas tm que ser representados. Seu representante tem
            que aparecer ao mesmo tempo como seu senhor, como uma autoridade acima deles, como um poder ilimitado
            de governo que o proteja das demais classes e que lhes envie desde o alto a chuva e o sol. 47

        A conscincia de classe conduz, na sociedade capitalista,  formao de associaes
polticas (sindicatos, partidos) que buscam a unio solidria entre os membros da classe
oprimida com vistas  defesa de seus interesses e ao combate aos opressores. Por isso  que

            a coalizo persegue sempre uma dupla finalidade: acabar com a concorrncia entre
            os operrios para poder fazer uma concorrncia geral aos capitalistas. Se a primeira finalidade da
            resistncia se reduzia  defesa do f salrio, depois,  medida que os capitalistas se associam, movidos, por sua
            vez, pela idia de represso, as coalizes, a princpio isoladas, formam grupos, e a defesa das associaes por
            parte dos trabalhadores frente ao capital, sempre unido, acaba sendo para eles mais necessrio que a defesa do
            salrio. (...) As condies econmicas transformam primeiro a massa da populao do pas em trabalhadores.
            A dominao do capital criou para esta massa uma situao comum, interesses comuns. Assim, pois, esta
            massa j  uma classe com respeito ao capital, mas ainda no  uma classe para si Na
            luta (...) esta massa se une, se constitui como classe para si. 48

        Um exemplo histrico do papel revolucionrio exercido por uma classe social foi dado pela
burguesia durante as revolues ocidentais no
    p. 44

incio da Idade Moderna. Durante aquele processo, ela representava uma nova fora
produtiva, dotada de possibilidades gigantescas de transformao nas relaes sociais.

A ECONOMIA CAPITALISTA

        O foco de Marx em O capital, sua obra madura,  a sociedade capitalista, a forma de
organizao social mais desenvolvida e mais variada de todas j existentes. Ao analis-la,
compreendem-se tambm outras formaes socioeconmicas anteriores e desaparecidas -
como as sociedades primitivas, as escravistas, as asiticas e as feudais - "sob cujas runas
e elementos ela se edificou, das quais certos vestgios ainda no apagados, que continuam a
existir nela, se enriquecem de toda a sua significao". 49
        A unidade analtica mais simples dessa sociedade e a expresso elementar de sua riqueza 
a mercadoria, forma assumida pelos produtos e pela prpria fora de trabalho, e composta
por dois fatores: valor de uso e valor de troca. Por um lado, a mercadoria tem a
propriedade de satisfazer as necessidades humanas, sejam as do estmago ou as da fantasia,
servindo como meio de subsistncia ou de produo. Por ser til, ela tem um valor de uso
que se realiza ou se efetiva no consumo, enquanto o que no se consome nunca se torna
mercadoria. Coisas teis, porm, podem no ser mercadorias, desde que no sejam produtos
do trabalho ou no se destinem  troca (como a produo para uso prprio).

            Para calcular o valor de troca de uma mercadoria, mede-se a quantidade da "substncia"
            que ela contm, o trabalho, embora para isso no se levem em conta as diferenas entre
            habilidades e capacidades de seus produtores individualmente e, sim, a fora social mdia,
            o tempo de trabalho socialmente necessrio, isto , "todo trabalho executado com grau
            mdio de habilidade e intensidade em condies normais relativas ao meio social dado". Ou
            seja, o clculo do valor de troca  feito segundo o tempo de trabalho gasto na sua produo
            em uma sociedade e em um perodo dados. Distintas mercadorias podem ter valores
            diferentes e, para que seus possveis consumidores realizem entre si os intercmbios que
            pretendem,  preciso haver um meio de quantificar tais valores, que variam segundo o lugar
            e a poca, a disponibilidade de materiais, as tcnicas para obt-los e transform-los etc. No
            momento da permuta, faz-se a abstrao da forma concreta assumida pela mercadoria (um
            prato feito ou um ramo de flores) e do seu valor de uso, e ento "s lhe resta uma
            qualidade: a de ser produto do trabalho (...) uma inverso de fora humana de trabalho, sem
            referncia  forma particular em que foi invertida". 50
    p. 45

        A existncia de produtores que realizam trabalhos distintos e que, por isso, precisam obter o
produto da atividade de outros para seu prprio consumo,  resultado da diviso do
trabalho.

            com efeito, as mercadorias a trocar umas pelas outras so simplesmente
            trabalho materializado em diferentes valores de uso, portanto materializado de diversas formas - so apenas
            o modo de existncia materializado da diviso do trabalho ou a materializao de trabalhos quantitativamente
            diferentes, correspondendo a sistemas de necessidades diferentes. 51

        Em troca do que necessita, cada um oferece o fruto de seu prprio labor, ainda que
metamorfoseado na forma de moeda. 52. O marceneiro veste roupas, a arquiteta come po, o
pedreiro vai ao cinema, o agricultor toma remdios, a enfermeira l jornal, o banqueiro
escova os dentes. Qual deles produz tudo aquilo de que precisa?

            O sistema capitalista  aquele no qual se aboliu da maneira mais completa possvel a produo com vistas 
            criao de valores de uso imediato, para o consumo do produtor: a riqueza s existe agora como processo
            social que se expressa no entrelaamento da produo e da circulao. 53

        As relaes de produo capitalistas implicam na existncia do mercado, onde tambm a
fora de trabalho  negociada por um certo valor entre o trabalhador livre e o capital. A
fora de trabalho  uma mercadoria que tem caractersticas peculiares:  a nica que pode
produzir mais riqueza do que seu prprio valor de troca. No entanto,

            a fora de trabalho no foi sempre uma mercadoria, o trabalho no foi sempre trabalho assalariado, isto ,
            trabalho livre. O escravo no vendia sua fora de trabalho ao escravista, do mesmo modo que o boi no vende
            seu trabalho ao lavrador. O escravo  vendido de uma vez para sempre, com sua fora de trabalho, a seu amo.
             uma mercadoria que pode passar das mos de um dono s mos de outro. Ele  uma mercadoria, mas sua
            fora de trabalho no  uma mercadoria que lhe pertena. O servo da gleba s vende uma parte de sua fora
            de trabalho. No  ele que obtm um salrio do proprietrio do solo, pelo contrrio,  o proprietrio do solo
            que recebe dele um tributo. Mas o trabalhador livre se vende a si mesmo e, ademais, vende-se em partes.
            Leiloa 8, 10, 12, 15 horas de sua vida, dia aps dia (...) ao proprietrio de matrias-primas, instrumentos de
            trabalho e meios de vida, isto , ao capitalista. 54

        E como se determina o valor da fora de trabalho no mercado? Atravs do "valor dos meios
de subsistncia requeridos para produzir, desenvolver, manter e perpetuar a fora de
trabalho", ou seja, tudo o que  necessrio
    p. 46

para que o trabalhador se reproduza de acordo com suas habilidades, capacitao e nvel de
vida, o qual varia historicamente entre pocas, regies e ocupaes. Isso tambm significa
que o produtor reproduz a si mesmo enquanto categoria "trabalhador" e  sua famlia para
que, como diz Marx, "essa singular raa de possuidores dessa mercadoria se perpetue no
mercado". O capital- para quem ela  til e que compra essa mercadoria - no 
simplesmente uma soma de meios de produo. Esses, sim,  que foram transformados em
capital ao serem apropriados pela burguesia. O capital, assim como o trabalho assalariado, 
uma relao social de produo,  uma forma histrica de distribuio das condies de
produo, resultante de um processo de expropriao e concentrao da propriedade.

            A sociedade capitalista baseia-se na ideologia da igualdade, cujo parmetro  o mercado.
            De um lado, est o trabalhador que oferece no mercado sua fora de trabalho, de outro, o
            empregador que a adquire por um salrio. 55 A idia de equivalncia na troca  crucial para
            a estabilidade da sociedade capitalista. Os homens aparecem como iguais diante da lei, do
            Estado, no mercado etc., e assim eles vem-se a si mesmos. Mas, embora o processo de
            venda da fora de trabalho por um salrio aparea como um intercmbio entre
            equivalentes, o valor que o trabalhador pode produzir durante o tempo em que trabalha para
            aquele que o contrata  superior quele pelo qual vende suas capacidades. Marx distingue o
            tempo de trabalho necessrio, durante o qual se d a reproduo do trabalhador e no qual
            gera o equivalente a seu salrio, do tempo de trabalho excedente, perodo em que a
            atividade produtiva no cria valor para o trabalhador mas para o proprietrio do capital. Em
            funo das relaes sociais de produo capitalistas, o valor que  produzido durante o
            tempo de trabalho excedente ou no-pago  apropriado pela burguesia. Parte desse valor
            extrado gratuitamente durante o processo de produo passa a integrar o prprio capital,
            possibilitando a acumulao crescente. 56. O valor que ultrapassa o dos fatores consumidos
            no processo produtivo (meios de produo e fora de trabalho), e que se acrescenta ao
            capital empregado inicialmente na produo,  a mais-valia. Ela se transforma, assim, em
            uma riqueza que se ope  classe dos trabalhadores. A taxa de mais-valia, a razo entre
            trabalho excedente e trabalho necessrio, expressa o grau de explorao da fora de
            trabalho pelo capital. O que impede o trabalhador de perceber como se d efetivamente
            todo esse processo  sua situao alienada. Em sntese, o trabalho apropriado pelo capital "
            trabalho forado, ainda que possa parecer o resultado de uma conveno contratual
            livremente aceita". 57
    p. 47

O PAPEL REVOLUCIONRIO DA BURGUESIA

        Marx concentra boa parte de sua obra na anlise do surgimento, evoluo e superao do
capitalismo e no modo pelo qual ele se originou da destruio da sociedade feudal que o
antecede. Segundo ele, a organizao produtiva feudal, com sua forma de propriedade dos
meios de produo urbana e rural, processos de trabalho e tcnicas, j tinha se esgotado, e
novas foras produtivas muito mais poderosas vinham se desenvolvendo. Conquanto a
proteo das guildas e corporaes da Idade Mdia tivesse possibilitado a acumulao do
capital, o desenvolvimento do comrcio martimo e a fundao das colnias, a manuteno
das velhas estruturas feudais constituir-se-iam num entrave  continuidade daquela
expanso. 58

            Vimos, pois, que os meios de produo e de troca, sobre cuja base a burguesia se formou, foram criados na
            sociedade feudal Ao alcanar um certo grau de desenvolvimento, esses meios de produo e de troca, as
            condies em que a sociedade feudal produzia e trocava, toda a organizao feudal da agricultura e da
            indstria, em uma palavra, as relaes feudais de propriedade, deixaram de corresponder s foras produtivas
            j desenvolvidas. Freavam a produo em lugar de impulsion-la... Era preciso romper essas travas, e foram
            rompidas. Em seu lugar estabeleceu-se a livre concorrncia, com uma constituio social e poltica adequada
            a ela e com a dominao econmica e poltica da classe burguesa. 59

        Os regulamentos das corporaes medievais opunham forte resistncia " transformao do
mestre em capitalista, ao limitar, por meio de rigorosos editos, o nmero mximo de
oficiais e aprendizes que tinha o direito de empregar, e ao proibir-lhe a utilizao de oficiais
em qualquer outro ofcio que no fosse o seu". 60. Alm disso, era permitido aos
comerciantes comprar qualquer tipo de mercadorias... menos a fora de trabalho uma vez
que, para transform-la em capital, o possuidor de dinheiro precisava encontrar no mercado
o trabalhador livre

            desde um duplo ponto de vista. Primeiro, o trabalhador tem que ser uma pessoa livre, que disponha a seu
            arbtrio de sua fora de trabalho como de sua prpria mercadoria; segundo, no deve ter outra mercadoria para
            vender. Por assim dizer, tem que estar livre de todo, por completo desprovido das coisas necessrias para a
            realizao de sua capacidade de trabalho. 61

        Deve ficar claro que no se tratava apenas de uma mudana nos processos produtivos, mas
tambm no que se refere  organizao poltica
    p. 48

do Estado, s foras sociais em que este se sustentava e a outras instituies, tais como o
sistema jurdico e tributrio, a moral, religio, cultura e ideologia antes dominantes. A
burguesia cumpriu, ento, um papel revolucionrio. Sua ao destruiu os modos de
organizao do trabalho, as formas da propriedade no campo e na cidade; debilitou as
antigas classes dominantes - como a aristocracia feudal e o clero, substituiu a legislao
feudal, e eliminou os impostos e obrigaes feudais, as corporaes de ofcio, o sistema de
vassalagem que impedia que os servos se transformassem nos trabalhadores livres e mesmo
o regime poltico monrquico nos casos em que sua existncia representava um obstculo
ao pleno desenvolvimento das potencialidades da produo capitalista. Essa dimenso
revolucionria da ao burguesa no se esgota com a extino daquelas antigas formas,
porque, alm disso,

            a burguesia no pode existir seno sob a condio de revolucionar incessantemente os instrumentos de
            produo e, com isso, todas as relaes sociais (...) Uma revoluo contnua na produo, um abalo constante
            de todas as condies sociais, uma inquietude e um movimento constantes distinguem a poca burguesa de
            todas as precedentes. Rompem-se todas as relaes sociais estancadas e deterioradas, com seu cortejo de
            crenas e de idias veneradas durante sculos; as novas tornam-se velhas antes de terem podido se ossificar. 62

        A burguesia "cria um mundo  sua imagem e semelhana". Ela "foi a primeira a provar o
que pode realizar a atividade humana: criou maravilhas maiores do que as pirmides do
Egito, os aquedutos romanos, as catedrais gticas; conduziu expedies que empanaram
mesmo as antigas invases e as cruzadas". Enfim, perguntam-se Marx e Engels, fascinados
com a potncia revolucionria dessa classe, "que sculo anterior teria suspeitado que
semelhantes foras produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?" A
burguesia foi, naquele momento, a mais ntida expresso da modernidade e do processo de
racionalizao.
        Assim, tal como j ocorrera na transio do feudalismo para o capitalismo, o pleno
desenvolvimento do novo modo de produo implica necessariamente na criao e
desenvolvimento de foras materiais cruciais  construo ou constituio de uma nova
sociedade no sendo

            possvel levar a cabo uma libertao real sem ser no mundo real e atravs de meios reais; que no  possvel
            abolir a escravatura sem a mquina a vapor e a mule-Jenny, nem a servido sem aperfeioar a agricultura;
            que, mais genericamente, no  possvel libertar os homens enquanto eles no estiverem completamente aptos
            a fornecerem-se de comida e bebida, a satisfazerem as suas necessidades de alojamento e vesturio em
            qualidade e quantidade perfeitas. 63
    p. 49

        Segundo Marx e Engels, o modo de produo capitalista estende-se a todas as naes,
constrangidas a abraar o que a burguesia chama de "civilizao". A premncia de
encontrar novos mercados e matrias-primas e de gerar novas necessidades leva-a a
estabelecer-se em todas as partes.

A TRANSITORIEDADE DO MODO DE PRODUO CAPITALISTA

        Mas a nova sociedade "que saiu das runas da sociedade feudal no aboliu as contradies
entre as classes. Unicamente substituiu as velhas classes, as velhas condies de opresso,
as velhas formas de luta por outras novas." Cada vez mais nitidamente dividida

            em dois vastos campos inimigos, em duas grandes classes que se enfrentam diretamente, a burguesia e o
            proletariado A burguesia despojou de sua aurola todas as profisses que at ento eram tidas como
            venerveis e dignas de piedoso respeito. Do mdico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sbio fez seus
            servidores assalariados. 64

        Mantiveram-se, dessa forma, as condies da luta de classes. Sendo as sociedades classistas
fundadas em uma contradio que lhes  inerente, tambm o capitalismo estaria condenado
a extinguir-se com a ecloso de um processo de revoluo social.

            As relaes burguesas de produo e troca, as relaes burguesas de propriedade, toda essa sociedade
            burguesa moderna, que fez surgir to potentes meios de produo e de troca, assemelha-se ao feiticeiro que j
            no  capaz de dominar as potncias infernais que desencadeou com seus conjuros (...) As armas de que a
            burguesia se serviu para derrubar o feudalismo voltam-se hoje contra a prpria burguesia. Porm a burguesia
            no forjou somente as armas que lhe daro a morte; produziu tambm os homens que empunharo essas
            armas - os operrios modernos, os proletrios. 65

        Ao mesmo tempo que cresce essa "massa" da humanidade absolutamente despossuda
aumenta tambm sua concentrao em grandes centros industriais, sua capacidade de
organizao e de luta e a conscincia de sua  situao social.  ao proletariado que Marx e
Engels atribuem o papel de agente transformador da sociedade capitalista. 66
    p. 50

            De todas as classes que hoje enfrentam a burguesia, s o proletariado  uma classe verdadeiramente revolucionria... As camadas mdias - o
            pequeno comerciante, o pequeno industrial, o arteso, o campons - todas elas lutam contra a burguesia para salvar sua existncia, enquanto
            camadas mdias, da runa No so, pois, revolucionrias, mas conservadoras. Mais ainda, so reacionrias, j que pretendem voltar
            atrs a roda da Histria. So revolucionrias somente quando tm diante de si a perspectiva de sua passagem iminente ao proletariado (...) O
            lumpemproletariado, esse produto passivo da putrefao das camadas mais baixas da velha sociedade, pode, s vezes, ser arrastado ao movimento
            por uma revoluo proletria; todavia, em virtude de suas condies de vida est mais predisposto a vender-se  reao para servir s suas
            manobras. 67

        Por meio de um processo revolucionrio, as condies de apropriao e concentrao dos meios de produo existentes em mos de
uma classe desaparecem e, a partir de ento, inicia-se um processo de fundao da sociedade sobre novas bases. No caso de uma revoluo
proletria, na medida em que desaparecessem as garantias da propriedade privada dos meios de produo, o mesmo aconteceria com a burguesia como
classe e com o modo capitalista de produo. Instalar-se-ia, ento, uma nova forma de organizao social que, numa fase transitria, seria uma
ditadura do proletariado mas, ao realizar todas as condies a que se props, tornar-se-ia uma sociedade comunista. A antiga sociedade civil
ser ento substituda "por uma associao que exclua as classes e seu antagonismo; j no existir um poder poltico propriamente dito, pois o
poder poltico  precisamente a expresso oficial do antagonismo de classe dentro da sociedade civil". 68 Uma das premissas para a existncia
dessa sociedade seria o grande desenvolvimento das foras produtivas promovido pela produo capitalista "pois, sem ele, apenas se
generalizar a penria e, com a pobreza, comear paralelamente a luta pelo indispensvel e cair-se- fatalmente na imundcie anterior..."69 Em
outras palavras, "a libertao  um fato histrico e no um fato intelectual, e  provocado por condies histricas, pelo progresso da
indstria, do comrcio, da agricultura". 70

TRABALHO, ALIENAO E SOCIEDADE CAPITALISTA

        O fundamento da alienao, para Marx, encontra-se na atividade humana prtica: o trabalho. Marx faz referncia principalmente s manifestaes da alienao
na sociedade capitalista. Segundo ele, o fato econmico  "o estranhamento entre o trabalhador e sua produo" e seu resultado  o
    p. 51

"trabalho alienado, cindido" que se torna independente do produtor, hostil a ele, estranho,
poderoso e que, ademais, pertence a outro homem que o subjuga - o que caracteriza uma
relao social. Marx sublinha trs aspectos da alienao: 1) o trabalhador relaciona-se com
o produto do seu trabalho como com algo alheio a ele, que o domina e lhe  adverso, e
relaciona-se da mesma forma com os objetos naturais do mundo externo; o trabalhador 
alienado em relao s coisas; 2) a atividade do trabalhador tampouco est sob seu
domnio, ele a percebe como estranha a si prprio, assim como sua vida pessoal e sua
energia fsica e espiritual, sentidas como atividades que no lhe pertencem; o trabalhador 
alienado em relao a si mesmo; 3) a vida genrica ou produtiva do ser humano torna-se
apenas meio de vida para o trabalhador, ou seja, seu trabalho - que  sua atividade vital
consciente e que o distingue dos animais - deixa de ser livre e passa a ser unicamente
meio para que sobreviva. Portanto, "do mesmo modo como o operrio se v rebaixado no
espiritual e no corporal  condio de mquina, fica reduzido de homem a uma atividade
abstrata e a um estmago". 71. Por outro lado, o trabalho produtivo acaba por tornar-se uma
obrigao para o proletrio, o qual, no sendo possuidor dos meios de produo, 
compelido a vender sua atividade vital, que

            no  para ele mais do que um meio para poder existir. Ele trabalha para viver. O operrio nem sequer
            considera o trabalho como parte de sua vida, para ele , antes, um sacrifcio de sua vida.  uma mercadoria
            por ele transferida a um terceiro. Por isso o produto de sua atividade no  tampouco o objetivo dessa
            atividade. O que o trabalhador produz para si mesmo no  a seda que tece, nem o ouro que extrai da mina,
            nem o palcio que constri. O que produz para si mesmo  o salrio, e a seda, o ouro e o palcio reduzem-se
            para ele a uma determinada quantidade de meios de vida, talvez a um casaco de algodo, umas moedas de
            cobre e um quarto num poro. E o trabalhador que tece, fia, perfura, torneia, cava, quebra pedras, carrega etc.
            durante doze horas por dia - so essas doze horas de tecer, fiar, tornear, construir, cavar e quebrar pedras a
            manifestao de sua vida, de sua prpria vida? Pelo contrrio. Para ele a vida comea quando terminam essas
            atividades,  mesa de sua casa, no banco do bar, na cama. As doze horas de trabalho no tm para ele sentido
            algum enquanto tecelagem, fiao, perfurao etc., mas somente como meio para ganhar o dinheiro que lhe
            permite sentar-se  mesa, ao banco no bar e deitar-se na cama. Se o bicho-da-seda fiasse para ganhar seu
            sustento como lagarta, seria o autntico trabalhador assalariado. 72

        Dito de outra maneira, o trabalhador e suas propriedades humanas s existem para o capital.  Se ele
no tem trabalho, no tem salrio, no tem existncia. S existe quando se relaciona
com o capital e, como este lhe  estranho, a vida do trabalhador  tambm estranha para ele
prprio. Diz Marx que o malandro, o sem-vergonha, o mendigo, o faminto,
    p. 52

miservel, o delinqente no existem para a economia poltica, so fantasmas fora de seu
reino, j que ela somente leva em conta as necessidades do trabalhador cujo atendimento
permite manter vivo a ele e a categoria dos trabalhadores. O salrio serve para conservar o
trabalhador como qualquer outro instrumento produtivo. Esta  uma viso estreita do que
so as necessidades humanas que contemplam tambm a beleza, a paixo, o esprito e a
sociedade mesma, os demais seres humanos. Mas enquanto existir a propriedade privada
dos meios de produo, as necessidades dos homens resumem-se ao dinheiro, e as novas
necessidades criadas serviro para obrig-los a maiores sacrifcios e dependncia.

            com a massa de objetos cresce, portanto, o reino dos seres alheios aos quais o homem est submetido, e cada
            novo produto  uma nova potncia do recproco engano e da recproca explorao. O homem, enquanto
            homem, faz-se mais pobre, necessita mais do dinheiro para apoderar-se do ser inimigo... 73

        Em suma, o operrio no se reconhece no produto que criou, em condies que escapam a
seu arbtrio e s vezes at  sua compreenso, nem v no trabalho qualquer finalidade que
no seja a de garantir sua sobrevivncia. E a prpria "fora de produo multiplicada que
nasce por obra da cooperao dos diferentes indivduos sob a ao da diviso do trabalho"
aparece aos produtores como um poder alheio, sobre o qual no tm controle, no sabem de
onde procede e sentem como se estivesse situado  margem deles, independente de sua
vontade e de seus atos e que "at mesmo dirige esta vontade e estes atos". Mas o prprio
capitalista, senhor da riqueza, dela  escravo e se desumaniza. A produo coletiva 
organizada e dirigida segundo os interesses de uma camada da sociedade: a burguesia,
desconsiderando-se todas as necessidades de realizao pessoal e de bem-estar dos
proletrios que no estejam diretamente ligadas  criao de riqueza. Na medida em que a
produo capitalista carece, para sustentar-se e aumentar a produtividade, do incessante
aperfeioamento tcnico, a diviso do trabalho  uma condio essencial. Mas a tarefa
individual do trabalhador torna-se, de seu ponto de vista, um ato abstrato e sem relao
com o produto final. "O que caracteriza a diviso do trabalho no seio da sociedade
[capitalista]  ela que engendra as especialidades, as distintas profisses e, com elas, o
idiotismo do ofcio."74 A diviso capitalista do trabalho e mesmo a atividade profissional
exercida atendem aos interesses particulares dos grupos dominantes e s eventualmente aos
dos produtores. As decises a respeito do qu, do quanto, de como, em que ritmo e por
meio de quais mtodos se produz escapam quase inteiramente da razo do produtor direto,
"retiram ao trabalho do proletrio todo o carter substantivo e fazem com que perca todo
atrativo para ele. O produtor converte-se num simples apndice da mquina e s se exigem
    p. 53

dele as operaes mais simples, mais montonas e de mais fcil aprendizagem."75 Sendo
assim, ele  mais facilmente substituvel por outro trabalhador, "especializado" em atos
abstratos e com precria capacidade de negociar melhores condies de vida e trabalho.
Desse modo,

            hoje em dia o custo do operrio se reduz, mais ou menos, aos meios de subsistncia indispensveis para viver
            e perpetuar sua linhagem. Mas o preo do trabalho, como de toda mercadoria,  igual ao custo de sua
            produo. Portanto, quanto mais enfadonho  o trabalho, mais baixam os salrios. (...) Quanto menos o
            trabalho exige habilidade e fora, isto , quanto maior  o desenvolvimento da indstria moderna, maior  a
            proporo em que o trabalho dos homens  suplantado pelo das mulheres e crianas. As diferenas de idade e
            sexo perdem toda significao social no que se refere  classe operria. No h seno instrumentos de
            trabalho cujo custo varia segundo a idade e o sexo. 76

        Em condies de alienao, o trabalho faz com que o crescimento da riqueza objetiva se
anteponha  humanizao (do homem e da natureza) 77, sirva crescentemente como meio
de explorao (ao transformar-se em capital), e s se realize como meio de vida. Por isso,
ele "no  a satisfao de uma necessidade seno, somente, um meio para satisfazer as
necessidades fora do trabalho". 78 Marx considera que o trabalhador no se sente feliz,
mortifica seu corpo e arruina seu esprito no trabalho que  obrigado a fazer, que  externo
a ele. E se no existisse coao ele fugiria do trabalho como da peste... Ele s se sente de
fato livre em suas funes animais e em suas funes humanas sente-se como um animal:
"O animal se converte no humano, o humano no animal." At mesmo necessidades como a
de ar livre deixam de existir "e o homem retorna  caverna, envenenada agora por uma
meftica pestilncia da civilizao, onde habita precariamente, como um poder alheio que
pode fugir-lhe qualquer dia, do qual pode ser expulso qualquer dia se no paga. Tem que
pagar por esta casa morturia." 79 No sistema capitalista, a fora de trabalho  regulada
como qualquer mercadoria. Assim, "se a oferta  muito maior do que a demanda, uma parte
dos operrios mergulha na mendicncia ou morre de inanio". 80

        Enquanto os trabalhadores tm que atender s suas necessidades por meio de uma
organizao da produo que no obedece ao controle coletivo, no participam de maneira
consciente no processo produtivo. O poder social  percebido como uma fora alheia.

            Todos os meios para desenvolver a produo transformam-se em meios para dominar e explorar o produtor:
            fazem dele um homem truncado, fragmentrio, ou o apndice de uma mquina. Opem-se a ele, como outras
            tantas potncias hostis, as foras cientficas da produo. Substituem
                p. 54

            o trabalho atrativo por trabalho forado. Fazem com que as condies em
            que se desenvolve o trabalho sejam cada vez mais anormais, e submetem
            o trabalhador, durante seu servio, a um despotismo to ilimitado como
            mesquinho. Convertem toda sua vida em tempo de trabalho... 81

        A quantificao dos produtos do trabalho humano permite o clculo de sua equivalncia.
Troca-se uma certa quantidade de moeda por um saco de cimento. Mas essa relao parece
ocorrer entre coisas. Conquanto seja "uma relao social determinada dos homens entre si
(...) adquire para eles a forma fantstica de uma relao de coisas entre si". 82. Este  o que
Marx chama de carter fetichista da mercadoria, dado pela incapacidade dos produtores de
perceber que, atravs da troca dos frutos de seus trabalhos no mercado, so eles prprios
que estabelecem uma relao social. Em outras palavras, o fetichismo do mundo das
mercadorias deve-se a que os atributos sociais do trabalho so ocultos detrs de sua
aparncia material j que

            o que interessa na prtica aos que intercambiam produtos  saber quanto obtero em troca deles, isto , a
            proporo em que se intercambiam entre si. Quando esta proporo adquire certa estabilidade habitual,
            parece-lhes proveniente da natureza mesma dos produtos do trabalho. Parece existir nas coisas uma
            propriedade de intercambiar-se em propores determinadas, como as substncias qumicas combinam-se em
            propores fixas. 83

        Isso quer dizer que as relaes sociais aparecem aos olhos dos homens encantadas sob a
forma de valor, como se este fosse uma propriedade natural das coisas. Atravs da forma
fixa em valor-dinheiro, o carter social dos trabalhos privados e as relaes sociais entre os
produtores se obscurecem.  como se um vu nublasse a percepo da vida social
materializada na forma dos objetos, dos produtos do trabalho e de seu valor. Assim,

            o duplo carter social dos trabalhos particulares reflete-se no crebro dos produtores com a forma que lhes
            imprime o comrcio prtico, o intercmbio dos produtos. Quando os produtores colocam frente a frente e
            relacionam entre si os produtos de seu trabalho como valores, no  porque vem neles uma simples envoltura
            sob a qual se oculta um trabalho humano idntico. Muito pelo contrrio. Ao considerar iguais na troca seus
            produtos diferentes, estabelecem que seus distintos trabalhos so iguais. E fazem-no sem saber. Em
            conseqncia, o valor no traz escrito na testa o que . Ao contrrio, de cada produto do trabalho faz um
            hierglifo. Somente com o tempo o homem trata de decifrar seu sentido, de penetrar nos segredos da obra
            social para a qual contribui, e a transformao dos objetos teis em valores  um produto da sociedade, da
            mesma maneira que a linguagem. 84
    p. 55

        Mas, a necessidade permanente de renovao e avano tcnico  tambm uma das
oposies dialticas que constituem a sociedade capitalista e a levam  sua superao como
derradeira sociedade de classes. "As relaes de produo burguesas so a ltima forma
contraditria do processo de produo social..." 85. Logo, "a condio da emancipao da
classe operria  a abolio de todas as classes". 86
        O propsito ltimo da crtica-prtica  mostrar o caminho da humanizao, a fim de que os
homens possam assumir a direo da produo, orientando-a segundo sua vontade
consciente e suas necessidades e, no, de acordo com um poder "externo" que regule a
atividade que caracteriza a espcie. A extino das diversas formas de alienao exige que
"as condies de trabalho e da vida prtica apresentem ao homem relaes transparentes e
racionais com seus semelhantes e com a natureza", 87 reclama, ento, uma sociedade onde
o conflito entre homem e natureza e entre homem e homem se resolva: a sociedade
comunista.

REVOLUO

        Prolongando a tradio iluminista, a teoria marxiana volta-se  temtica do progresso, e
procura estabelecer as leis de desenvolvimento das sociedades.

            Uma organizao social nunca desaparece antes que se desenvolvam todas as foras produtivas que ela 
            capaz de conter, nunca relaes de produo novas e superiores se lhe substituem antes que as condies
            materiais de existncia dessas relaes se produzam no prprio seio da velha sociedade.  por isso que a
            humanidade s levanta os problemas que  capaz de resolver e, assim, numa observao atenta, descobrir-se-
            que o prprio problema s surgiu quando as condies materiais para resolv-lo j existiam ou estavam, pelo
            menos, em vias de aparecer. 88

        Quando a necessidade de expanso das foras produtivas de uma dada formao social
choca-se com as estruturas econmicas, sociais e polticas vigentes, estas comeam a se
desintegrar, para dar lugar a uma nova estrutura, j anunciada nos elementos contraditrios
da sociedade que se extingue. Abre-se ento uma poca revolucionria, de ecloso dos
conflitos sociais amadurecidos sob a aparente harmonia anterior. O progresso  o resultado
dialtico dessa ruptura. As relaes sociais de produo tornam-se um entrave ao
desenvolvimento. No perodo medieval, as foras produtivas anunciadas pela burguesia
nascente foram de encontro
    p. 56

aos interesses representados nas corporaes de ofcios e nas guildas. Por isso  que as
revolues burguesas vieram representar o processo de liberao daquelas foras,
paralisadas por relaes sociais ultrapassadas. Essa no-correspondncia entre relaes
sociais e foras produtivas cerceia o potencial de avano da produo, fornece as condies
materiais para que as classes atuem e exeram seu papel revolucionrio. O progresso das
foras produtivas, os cmbios nas relaes sociais de produo e, conseqentemente, nas
instituies polticas, jurdicas, religiosas etc. permitem compreender como se d
historicamente a passagem de uma organizao social a outra mais avanada, ou a um novo
modo de produo. Quando uma classe consegue impor-se sobre outras classes debilitadas
ou historicamente ultrapassadas, ela destri as formas econmicas, as relaes sociais, civis
e jurdicas, as vises de mundo e o regime poltico, substituindo-os por outros, condizentes
com seus interesses e seu domnio. O fundamento desse processo de negao e de transio
 a vida material, sendo as classes socialmente oprimidas os agentes de tais transformaes
e da mudana social. Embora a organizao dos grupos explorados e a intensificao da
luta poltica venham a desembocar na conquista do poder, no se trata de uma mera troca
de posies - de modo que os que eram anteriormente oprimidos passem a ocupar o lugar
dos opressores - mas da construo de uma nova sociedade sobre outras bases. Para Marx,
"de todos os instrumentos de produo, a maior fora produtiva  a prpria classe
revolucionria", 89  ela que faz evoluir mais rpida e eficientemente toda a sociedade,
liberando os elementos de progresso contidos no interior das velhas e enrijecidas estruturas
sociais. Enquanto essa classe ocupa uma posio subordinada desde o ponto de vista
econmico, social e poltico, suas idias e interesses encontram-se tambm numa situao
dominada, e so combatidos e reprimidos pelos grupos dominantes, organizados na forma
de ideologias, cincia, religio, leis, aparatos repressivos e estatais em geral, modos de
pensar, valores etc. Segundo Marx, somente quando "j no existam classes e antagonismos
de classes  que as evolues sociais deixaro de ser revolues polticas". 90. Na medida
em que a vida humana alienada se manifesta, no capitalismo, atravs da propriedade
privada,  a superao desta a apropriao da vida. Enquanto a alienao religiosa ocorre
"no domnio da conscincia,  a alienao econmica pertence  vida real, por isso sua
superao abarca ambos aspectos" e possibilita a volta dos homens  sua vida humana, ou
seja, social. 91
    p. 57

COMUNISMO

        O modo de produo capitalista j representou um passo evolutivo em relao ao feudalismo, dado que a maneira como passa a ser extrado o
trabalho excedente e as condies em que isso se d "so mais favorveis para o desenvolvimento das foras produtivas, das relaes sociais de
produo e para a criao de uma estrutura nova e superior" que resultar de um processo revolucionrio, "uma etapa na qual
desaparecero a coero e a monopolizao, por uma frao da sociedade em detrimento da outra, do progresso social". 92 As referncias 
sociedade comunista no pretendem ser profecias, como pretendem alguns, mas reflexes orientadas por princpios como a liberdade e a
no-alienao.  Marx quem afirma que "o comunismo  a forma necessria e o princpio dinmico do futuro imediato, mas o comunismo em si no  a
finalidade do desenvolvimento humano, a forma da sociedade humana". 93. O que o comunismo possibilita  submeter a criao dos homens" ao poder
dos indivduos associados" 94 e que a diviso do trabalho passe a obedecer aos interesses de toda a sociedade. Garantida a apropriao
social das condies da existncia, extinguir-se-ia a contradio entre o indivduo privado e o ser coletivo, sendo geradas as condies para a
liberao das capacidades criadoras humanas, promovendo a instalao do reino da liberdade o qual "s comea quando se deixa de trabalhar por
necessidade e condies impostas desde o exterior". 95. No texto a seguir, a sociedade comunista  descrita de maneira alegrica.

            com efeito, desde o momento em que o trabalho comea a ser repartido,
            cada indivduo tem uma esfera de atividade exclusiva que lhe  imposta e
            da qual no pode sair;  caador, pescador, pastor ou crtico e no pode
            deixar de o ser se no quiser perder seus meios de subsistncia. Na
            sociedade comunista, porm, onde cada indivduo pode aperfeioar-se no
            campo que lhe aprouver, no tendo por isso uma esfera de atividades
            exclusiva,  a sociedade que regula a produo geral e me possibilita
            fazer hoje uma coisa, amanh outra, caar de manh, pescar  tarde,
            pastorear  noite, fazer crtica depois da refeio, e tudo isso a meu
            bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caador, pescador ou
            crtico. 96

        Nela se antevem as possibilidades de um sistema social regulado de acordo com as necessidades humanas, voltado para as potencialidades
criativas que os indivduos livres abrigam em seu esprito. E como a verdadeira riqueza intelectual do indivduo depende apenas da riqueza de
suas relaes reais, s desta forma se poder libertar cada indivduo dos seus diversos limites nacionais e locais depois de entabular relaes
    p. 58

prticas com a produo do mundo inteiro (incluindo a produo intelectual) e de se encontrar em estado de
poder beneficiar da produo do

            mundo inteiro em todos os domnios (criao dos homens). A dependncia universal., ser transformada pela
            revoluo comunista em controle e domnio consciente desses poderes que, engendrados pela ao recproca
            dos homens uns sobre outros, se lhes impuseram e os dominaram at agora, como se se tratasse de poderes
            absolutamente estranhos. 97

        A sociedade comunista seria o resultado de uma "reconstruo consciente da
sociedade humana", pondo fim  "pr-histria da humanidade" e dando incio a uma
nova vida social.

CONCLUSES

        A complexidade do objeto que o marxismo procura analisar - a gnese das
sociedades humanas, suas estruturas econmicas, sociais, polticas, ideolgicas e os
vnculos que mantm entre si, suas contradies internas e o que as sociedades
contemporneas podem anunciar - resultou num rico manancial tanto de idias
como de equvocos.  impossvel catalogar todos os trabalhos que se propuseram a
interpret-lo, a condens-lo e a rastrear conceitos que se disseminaram por toda a
obra marxista em que tomaram formas distintas. O prprio pensamento marxiano
evoluiu internamente, sendo aceita por alguns a diviso entre a produo da
juventude e a da maturidade. Alm disso, ainda que Marx fosse explicitamente
contrrio s subdivises dentro das cincias humanas, posteriormente, distintas reas
do conhecimento - como a filosofia, a histria, a economia, a antropologia, a
lingstica e a sociologia - apropriaram-se de certos temas e textos com vistas a
aplicar o mtodo histrico materialista  anlise de questes contemporneas,
segundo a perspectiva particular de cada uma delas. Movimentos polticos e sociais
- tais como grupos feministas, ambientalistas, partidos, sindicatos, movimentos
libertrios e estticos vinculados ao teatro revolucionrio e popular, ao cinema, s
correntes psicanalticas - encarregaram-se tambm de examinar as proposies
marxianas. Da mesma forma, algumas correntes das cincias sociais retomaram o
materialismo na interpretao de temas presentes na sociedade contempornea, tais
como as conseqncias da atuao direta do Estado sobre a economia ou a vida
privada, o crescimento dos grupos mdios ligados ao setor de servios, a reduo do
setor produtivo, o acesso do proletariado aos bens da sociedade de consumo, a
utilizao eficiente dos recursos de comunicao de massas por grupos que
sustentam o status quo, as formas de organizao econmica, poltica e militar das
grandes
    p. 59

potncias imperialistas e dos setores em que se experimentam relaes sociais livres de
represso. Estudam-se tambm as causas da misria, da violncia, da injustia social, as
novas instituies familiares e religiosas, o aparecimento de contradies sociais
no-classistas, conflitos tnicos, a desintegrao poltica e social do proletariado no sentido
clssico e, finalmente, de que modo se pode contribuir na escolha dos caminhos mais
compatveis com os anseios de liberdade e de felicidade humana apontados desde a
sociedade grega antiga.

BIBLIOGRAfIA

ENGELS, F. Carta a Bloch, 21/9/1890. In: MARX, K.; ENGELS, F. Obras escogidas de
Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V.
ENGELS, F. Ludwig Feuerbach y ei fin de la filosofia clsica alemana. In: MARX, K.;
ENGELS, F. Obras escogidas de Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V.
HEGEL, Georg W. Friedrich. Afenomenologia do esprito. 2. ed. Traduo de Henrique
Lima Vaz. So Paulo: Abril Cultural, 1980.
MANOEL, Ernest. Tratado de economia marxista. Traduo de Francisco Dez. Mxico:
Era, 1969- v. I.
MARX, K. Carta a Annenkov, 28/12/1846. In: MARX, K.; ENGELS, F. Obras escogidas
de Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V.
MARX, K. In: Carta a Weidemeyer, 5/3/1846. MARX, K.; ENGELS, F. Obras escogidas
de Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V.
MARX, K.; ENGELS, F. Obras escogidas de Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975.
2 V.
MARX, K. Crtica  economia poltica. In: . Contribuio para a crtica
da economia poltica. Lisboa: Estampa, 1973.
MARX, K. Discurso no People's Paper. In: MARX, K.; ENGELS, F. Obras escogidas de
Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V.
MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alem. Traduo de Conceio Jardim e Eduardo
Nogueira. Lisboa: Presena/Martins Fontes, 1976. 2 V.
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. In:  . Obras
escogidas de Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V.
MARX, K; ENGELS, F. Teses contra Feuerbach. In: . A ideologia alem.
Traduo de Conceio Jardim e Eduardo Nogueira. Lisboa: Presena/ Martins Fontes,
1976. 2 V
    p. 60

MARX, K. El capital. Crtica de la economia poltica. Traduo de Floreal Maza. Buenos
Aires: Cartago, 1973- 3 V.
MARX, Carlos. Introduo  crtica da economia poltica. In:  . Contribuio para a crtica
da economia poltica. Lisboa: Estampa, 1973.
MARX, K. Manuscritos: economia y filosofia. Traduo de Francisco Rubio Llorente.
Madrid: Alianza Editorial, 1974.
MARX, K. Misria de la filosofia. Respuesta a la filosofia de la misria dei senor
Proudhon. Buenos Aires: Siglo XXI, 1974.
MARX, K. El clieciocho brumario de Luis Bonaparte. In: MARX, K.; ENGELS, F. Obras
escogidas de Marxy Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V.
MARX, K. Prefcio. In:  . Contribuio para a crtica da economia
poltica. Lisboa: Estampa, 1973.
MARX, K. Trabalho assalariado e capital. In: MARX, K.; ENGELS, F. Obras escogidas de
Marx y Engels. Madrid: Fundamentos, 1975. 2 V. " r
MARX, K. O capital, [s.n.t.]. '  '

NOTAS

1 HEGEL. A fenomenologia do esprito, p. 6   O pensamento de Hegel continua a ser pouco
assimilvel pela mentalidade ocidental, especialmente suas reflexes sobre o ser e o no-ser,
que ultrapassam os princpios da identidade e da no-contradio da lgica clssica.
Hegel procura mostrar que o sensvel, o que vemos, , logo a seguir, o que no . Se o
"aqui"  uma rvore, quando lhe voltamos as costas, essa verdade desaparece e se
transforma no seu contrrio, o "aqui" passa ento a ser uma casa. O "aqui" permanece e lhe
 indiferente ser casa ou rvore. Da mesma maneira, o "agora" que  noite transforma-se
depois em um no-existente quando o dia amanhece. "Aqui" e "agora" so universais e o
objeto  inessencial.
2 Isto : o acontecimento singular, a acidentalidade, o fato, o fenmeno contingente, o
imediato, o particular ou a parte.
3 "O verdadeiro  o todo. Mas o todo  somente a essncia que atinge a completude por
meio do seu desenvolvimento", diz Hegel, assim, "o fruto surge em lugar da flor como
verdade da planta". HEGEL. A fenomenologia do esprito, p. 13 e 6
    p. 61

4 Marx considera que a propriedade privada fez dos homens seres to estpidos e
unilaterais que um objeto s  seu quando lhes pertence, quando existe "como capital, ou
quando  imediatamente possudo, comido, bebido, vestido, habitado, em resumo,
utilizado". Os sentidos fsicos e espirituais foram substitudos pelo de possuir.
5 Friedrich Engels (1820-1895) foi o grande colaborador de Marx. Juntos escreveram A
sagrada famlia, A ideologia alem e Manifesto do Partido Comunista, importantes
referncias na produo marxista, e assumiram compromissos polticos condizentes com
suas propostas. Alm de diversos artigos, Engels publicou Do socialismo utpico ao
cientfico, A origem da famlia, da propriedade privada e do Estado e Contribuio ao
problema da moradia. Aps a morte de Marx, tomou para si a tarefa de organizar os
manuscritos deixados por aquele, bem como interpret-los e divulg-los. Optamos por no
lhe dar aqui o mesmo tratamento dado a Marx, que de fato elaborou os principais
fundamentos tericos que do coerncia ao sistema marxista de interpretao.
6 Como disse Engels a respeito das colocaes feitas em A essncia do cristianismo, de
Feuerbarch, "fora da natureza e dos homens, no existe nada, e os seres superiores que
nossa imaginao religiosa forjou no so mais do que outros tantos reflexos fantsticos de
nosso prprio ser". ENGELS. Ludwig Feuerbach y el fin de la filosofia clsica alemana, p.
387.
7 Segundo Feuerbach "quanto mais vazia  a vida, tanto mais pleno, tanto mais concreto 
Deus. O mundo real se esvazia quando a divindade aumenta. Somente o homem pobre tem
um Deus rico." Citado em MARX. Manuscritos- economia y filosofia, p. 216.
8 O rompimento de Marx e Engels com os jovens hegelianos consuma-se com a redao de
A ideologia alem, em 1846, com o que dizem ter feito um ajuste de contas com sua
"conscincia filosfica anterior". Esta obra s  publicada em 1932.
9 O termo alienao  a traduo mais divulgada das trs principais palavras alems
empregadas por Marx para expressar a idia de tornar-se estranho a si mesmo, no
reconhecer-se em suas obras, desprender-se, distanciar-se, perder o controle.
10 MARX; ENGELS. Teses contra Feuerbach, p. 53.
11 MARX. Discurso no People's Paper, p. 369.
12 MARX. O capital, v. I, p. 32.
13 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 18.
14 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 19.    ' -~
15 MARX. Carta a Annenkov, p. 472-475.
    p. 62

16 MARX. Misria de la filosofia, p. 104.
17 MARX. Introduo  crtica da economia poltica; Crtica  economia poltica, p. 239-
240.
18 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 33.
19 MARX. Manuscritos: economia y filosofia, p. 112.
20 Isto nem sempre se d de maneira adequada, ou tendo em vista os interesses coletivos ou
da espcie, podendo haver destruio dos recursos naturais.
21 MARX. Introduo  crtica da economia poltica, p. 220.
22 MARX. O capital, v. I, p. 178.
" MARX. Carta a Annenkov, p. 470-471. -    '
24 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 35.
25 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 20.
26 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 20.
27 MARX. O capital, v. I, p. 92.
28 MARX. Misria de la filosofia, p. 91. '
29 O marxismo adotou e difundiu o termo infra-estrutura.
30 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 24.
31 MARX. El dieciocho brumario de Luis Bonaparte, p. 276.
32 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 25.
33 MARX. O capital, v. in, p. 775-776.
34 MARX. Prefcio, p. 28.
35 Uma publicao da poca observou que o que fora dito por Marx acerca da relevncia da
base material numa dada organizao social s seria justo "no que se refere ao mundo
moderno, dominado pelos interesses materiais, mas no para a Idade Mdia, na qual reinava
o catolicismo, nem para Atenas e Roma, nas quais reinava a poltica". Marx, que se utiliza
de seu habitual estilo irnico, replica: "Antes de tudo,  estranho que a certas pessoas
agrade supor que algum desconhea estas maneiras de falar, antiquadas e muito comuns,
sobre a Idade Mdia e a Antigidade. Est claro que nem a primeira podia viver do
catolicismo, nem a segunda da poltica. Pelo contrrio, as condies econmicas de ento
explicam por que o catolicismo, no primeiro caso, e a poltica, no segundo, representavam o
papel principal. Por outro lado, ningum ignora que at D. Quixote teve que se arrepender
por ter acreditado que a cavalaria errante era compatvel com todas as formas econmicas
da sociedade." O capital, v. I, p. 94-95).
    p. 63

36 ENGELS. Carta a Bloch, p. 520-522.        ''*'*"'    '' '  ''
37 Nos pases onde ocorreram revolues socialistas, assiste-se ao esforo de definir uma arte do
proletariado que seria colocada a servio da revoluo.
38 O captulo de O capital intitulado "As classes contm duas pginas inacabadas". Nele, Marx
refere-se s trs grandes classes da sociedade moderna baseada no sistema de produo capitalista:
os proprietrios de fora de trabalho, de capital e de terra.
39 Malinovski citado por MANDEI. Tratado de economia marxista, p. 38.
40 MARX. O capital, v. I, p. 22.
41 MARX  Crtica  economia poltica, p. 235-
42 Exemplos de fraes de classe: a burguesia financeira ou comercial, o proletariado do setor
extrativo etc.
43 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 56.
44 MARX. Carta a Weidemeyer, p. 481. ,
45 MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, p. 26.
46 Essa denominao (classe em si, para si) s chegou a ser utilizada nos escritos de juventude, mas
a idia de que a produo da vida material constitui formas de conscincia continuou a ser
desenvolvida, assim como a de que o proletariado seria a nica classe capaz de liberar toda a
humanidade da situao de opresso e de injustia que caracteriza as sociedades classistas.
47 MARX. El dieciocho brumario de Lus Bonaparte, p. 341.
48 MARX. Misria de la filosofia, p. 157-158.
49 MARX Introduo  crtica da economia poltica, p. 234.
50 MARX. O capital, v. I, p. 57.
51 MARX. Crtica  economia poltica, p. 282.
52 Os trabalhos humanos concretos, teis, convertem-se em trabalho abstrato que se manifesta
como dinheiro, a forma equivalente por meio da qual aqueles podem ser trocados.      "     *
" MARX. O capital, v. in, p. 573. ^ " /"
54 MARX. Trabalho assalariado e capital, p. 75.         *
55 O salrio  o preo da fora de trabalho e, em funo das variaes do mercado, pode estar
temporariamente acima ou abaixo do valor da fora de trabalho.
    p. 64

56 A taxa de mais-valia, que  a razo entre trabalho excedente e trabalho necessrio,  a
expresso do grau de explorao da fora de trabalho pelo capital.
57 MARX. O capital, v. in, p. 801.
58 Na Inglaterra, as revolues de 1640 e 1688 encarregaram-se de destruir as antigas
formas econmicas e as relaes sociais e polticas correspondentes.
59 MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, p. 26.
60 MARX. O capital, v. I, p. 352.
61 MARX. O capital, v. I, p. 176.
62 MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, p. 25.
61 MARX; ENGELS. ^4 ideologia alem, p. 28. A mule-Jenny foi a primeira mquina
automtica de fiar.
r>l MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, p. 27-28. (" MARX; ENGELS.
Manifesto do Partido Comunista, p. 27-28.
6(1 Numa frase muito conhecida, Marx e Engels dizem: "A burguesia produz, sobretudo,
seus prprios coveiros. Sua queda e a vitria do proletariado so igualmente inevitveis."
MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, p. 34.


67 MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, p. 32.      "       '    \
68 MARX. Misria de la filosofia, p. 159.
69 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 42.
70 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 28.
71 MARX. Manuscritos: economia y filosofia, p. 54.
72 MARX. Trabalho assalariado e capital, p. 75.
73 MARX. Manuscritos: economia y filosofia, p. 156.
74 MARX. Misria de la filosofia, p. 127.
75 MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, p. 28.
76 MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista,   p. 28-29.
77 com o comunismo seria solucionado o conflito entre o homem e a natureza, e o homem
voltaria a si mesmo enquanto homem social, isto , humano. "A sociedade , pois, a
unidade essencial do homem com a natureza" e deixar de ser uma abstrao frente ao
indivduo. MARX. Manuscritos economia y filosofia, p. 143-146.
78 MARX. Manuscritos: economia y filosofia, p. 109.
    p. 65

79 MARX. Manuscritos- economia y filosofia, p. 158.
80 MARX. Manuscritos- economia y filosofia, p. 52.
81 MARX. O capital, v. I, p. 619-
82 Marx faz analogia com o mundo religioso no qual "os produtos do crebro do homem
tm o aspecto de seres independentes, dotados de corpos particulares", como no caso dos
deuses.
83 MARX. O capital, v. I, p. 88-89.
84 MARX. O capital, v. I, p. 88.
85 MARX. Prefcio, p. 29.
86 MARX. Misria de la filosofia, p. 159.
87 MARX. O capital, v. I, p. 93. '     ,     ,
88 MARX. Prefcio, p. 29. ., -      -
89 MARX. Misria de la filosofia, p. 159. } ,(
90 MARX. Misria de la filosofia, p. 160.
91 MARX. Manuscritos: economia y filosofia, p. 144.       '            - _ .
92 MARX. O capital, v. II, p. 802.
93 MARX. Manuscritos: economia y filosofia, p. 156.
94 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 82.
95 MARX. O capital, v. in, p. 802.
96 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 40-41.
97 MARX; ENGELS. A ideologia alem, p. 46.
    p. 66

2 MILE DURKHEIM

                              Tnia Quintaneiro

                    As dificuldades prticas s podem ser definitivamente resolvidas atravs
                    da prtica e da experincia cotidianas. No ser um conselho de
                    socilogo, mas as prprias sociedades que encontraro a soluo.

                                        mile Durkheim

INTRODUO

        mile Durkheim foi um dos pensadores que mais contribuiu para a consolidao da Sociologia como cincia emprica e para sua instaurao no meio acadmico,
tornando-se o primeiro professor universitrio dessa disciplina. Pesquisador metdico e criativo, deixou um considervel nmero de herdeiros intelectuais. O socilogo
francs viveu numa Europa conturbada por guerras e em vias de modernizao, e sua produo reflete a tenso entre valores e instituies que estavam sendo corrodos
e formas emergentes cujo perfil ainda no se encontrava totalmente configurado.
        As referncias necessrias para situar seu pensamento so, por um lado, a Revoluo Francesa e a Revoluo Industrial e, por outro, o manancial de idias
que, sobre esses mesmos acontecimentos, vinha sendo formado por autores como Saint-Simon e Comte. Entre os pressupostos constitutivos da atmosfera intelectual da
qual se impregnaria a teoria sociolgica durkheimiana, cabe salientar a crena de que a humanidade avana no sentido de seu gradual aperfeioamento, governada por
uma fora
    p. 67

inexorvel: a lei do progresso. Esse princpio, herdado da filosofia iluminista, foi compartilhado por praticamente todos os autores do sculo 19, embora assumisse
conotaes particulares na obra de cada um deles. Aguava-se, ento, a conscincia de que o repertrio de idias e valores da velha ordem social, do qual ainda
sobreviviam alguns elementos, fora destrudo pelo vendaval revolucionrio de 1789 e que era, portanto, necessrio criar um novo sistema cientfico e moral que se
harmonizasse com a ordem industrial emergente. O industrialismo, com sua incontida fora de transformao, impunha-se a todos como a marca decisiva da sociedade
moderna. Por outro lado, difundia-se a concepo de que a vida coletiva no era apenas uma imagem ampliada da individual, mas um ser distinto, mais complexo, e
irredutvel s partes que o formam. Esse seria, precisamente, o objeto prprio das cincias sociais, e seu estudo demandava a utilizao do mtodo positivo, apoiado
na observao, induo e experimentao, tal como vinham fazendo os cientistas naturais. Desse modo, as cincias da sociedade deveriam aspirar  formulao de proposies
nomolgicas, isto , de leis que estabelecessem relaes constantes entre fenmenos.
        Durkheim recebe tambm a influncia da filosofia racionalista de Kant, do darwinismo, do organicismo alemo e do socialismo de ctedra.
Mas seu pensamento no apenas faz eco s idias recebidas, seno que as refunde num novo sistema, chegando com freqncia a contestar tendncias
intelectuais dominantes de seu tempo. Um dos alvos da crtica durkheimiana, em tal sentido, foi ao que chamou de individualismo
utilitarista representado por Herbert Spencer, para quem a cooperao  o resultado espontneo das aes que os indivduos executam visando
atender a seus interesses particulares. Durkheim via na cincia social uma expresso da conscincia racional das sociedades modernas, mas no
exclua o dilogo com a Histria, a Economia e a Psicologia, embora apontasse os limites de cada uma dessas disciplinas na explicao dos
fatos sociais.

A ESPECIFICIDADE DO OBJETO SOCIOLGICO

        A Sociologia pode ser definida, segundo Durkheim, como a cincia "das instituies, da sua gnese e do seu funcionamento", ou seja, de "toda crena, todo
comportamento institudo pela coletividade." 1. Na fase positivista que marca o incio de sua produo, considera que, para tornar-se uma cincia autnoma, essa
esfera do conhecimento precisava delimitar seu objeto prprio: os fatos sociais. Tais fenmenos compreendem "toda maneira de agir fixa ou no, suscetvel de exercer
sobre o indivduo uma coero exterior; ou ento ainda, que  geral na extenso de uma sociedade dada,
    p. 68

apresentando uma existncia prpria, independente das manifestaes individuais que possa ter" (2), as "maneiras de agir, de
pensar e de sentir exteriores ao indivduo, dotadas de um poder de coero em virtude do qual se lhe impem" (3), ou ainda "maneiras de
fazer ou de pensar, reconhecveis pela particularidade de serem suscetveis de exercer influncia coercitiva sobre as conscincias
particulares." 4. Assim, pois, o fato social  algo dotado de vida prpria, externo aos membros da sociedade e que exerce sobre seus
coraes e mentes uma autoridade que os leva a agir, a pensar e a sentir de determinadas maneiras.  por isto que o "reino social" est sujeito a
leis especficas e necessita de um mtodo prprio para ser conhecido, diferentemente do que acontece no "reino psicolgico" que pode ser
entendido atravs da introspeco. Da perspectiva do autor, a sociedade no  o resultado de um somatrio dos indivduos vivos que a compem ou
de uma mera justaposio de suas conscincias. Aes e sentimentos particulares, ao serem associados, combinados e fundidos, fazem nascer
algo novo e exterior quelas conscincias e s suas manifestaes. E ainda que o todo s se forme pelo agrupamento das partes, a associao
"d origem ao nascimento de fenmenos que no provm diretamente da natureza dos elementos associados" (5). A sociedade, ento, mais do que
uma soma,  uma sntese e, por isso, no se encontra em cada um desses elementos, assim como os diferentes aspectos da vida no se acham
decompostos nos tomos contidos na clula: a vida est no todo e no nas partes. As almas individuais agregadas geram um fenmeno sui generis,
uma "vida psquica de um novo gnero". Os sentimentos que caracterizam este ser tm uma fora e uma peculiaridade que aqueles puramente
individuais no possuem. Ele  a sociedade,

            o mais poderoso feixe de foras fsicas e morais cujo resultado a
            natureza nos oferece. Em nenhuma parte encontra-se tal riqueza de
            materiais diversos levado a tal grau de concentrao. No 
            surpreendente, pois, que uma vida mais alta se desprenda dela e que,
            reagindo sobre os elementos dos quais resulta, eleve-os a uma forma
            superior de existncia e os transforme (6).

        O grupo possui, portanto, uma mentalidade que no  idntica  dos indivduos, e os estados de conscincia coletiva so distintos dos estados de conscincia
individual.  Assim, "um pensamento encontrado em todas as conscincias particulares ou um movimento que todos repetem no so por isso fatos sociais" mas suas
encarnaes individuais. Os fenmenos que constituem a sociedade tm sua origem na coletividade e no em cada um dos seus participantes.  nela que se deve buscar
as explicaes para os fatos sociais e no nas unidades que a compem, porque

            as conscincias particulares, unindo-se, agindo e reagindo umas sobre as
            outras, fundindo-se, do origem a uma realidade nova que  a conscincia
    p. 69

            da sociedade. (...) Uma coletividade tem as suas formas especficas de
            pensar e de sentir, s quais os seus membros se sujeitam, mas que
            diferem daquelas que eles praticariam se fossem abandonados a si mesmos.
            Jamais o indivduo, por si s, poderia ter constitudo o que quer que
            fosse que se assemelhasse  idia dos deuses, aos mitos e aos dogmas das
            religies,  idia do dever e da disciplina moral etc 7.

        Os fatos sociais podem ser menos consolidados, mais fluidos, so as maneiras de agir.  o caso das correntes sociais, dos movimentos
coletivos, das correntes de opinio "que nos impelem com intensidade desigual, segundo as pocas e os pases, ao casamento, por exemplo, ao
suicdio, a uma natalidade mais ou menos forte etc."8
        Outros fatos tm uma forma j cristalizada na sociedade, constituem suas maneiras de ser. as regras jurdicas, morais, dogmas religiosos e sistemas financeiros,
o sentido das vias de comunicao, a maneira como se constrem as casas, as vestimentas de um povo e suas inmeras formas de expresso. Eles so, por exemplo, os
modos de circulao de pessoas e de mercadorias, de comunicar-se, vestir-se, danar, negociar, rir, cantar, conversar etc. que vo sendo estabelecidos pelas sucessivas
geraes. Apesar de seu carter ser mais ou menos cristalizado, tanto as maneiras de ser quanto de agir so igualmente imperativas, coagem os membros das sociedades
a adotar determinadas condutas e formas de sentir. Por encontrar-se fora dos indivduos e possuir ascendncia sobre eles, consistem em uma realidade objetiva, so
fatos sociais.
        Para tentar comprovar o carter externo desses modos de agir, de fpensar ou de sentir, Durkheim argumenta que eles tm que ser
internalizados por meio de um processo educativo. Desde muito pequenas, lembra, as crianas so constrangidas (ou educadas) a seguir horrios, a
desenvolver certos comportamentos e maneiras de ser e, mais tarde, a trabalhar. Elas passam por uma socializao metdica e " uma iluso
pensar que educamos nossos filhos como queremos. Somos forados a seguir regras estabelecidas no meio social em que vivemos." 9. com o tempo, as
crianas vo adquirindo os hbitos que lhes so ensinados e deixando de sentir-lhes a coao, aprendem comportamentos e modos de sentir dos
membros dos grupos dos quais participam. Por isso a educao "cria no homem um ser novo", insere-o em uma sociedade, leva-o a compartilhar com
outros de uma certa escala de valores, sentimentos, comportamentos. Mais do que isso, nasce da um ser superior quele puramente natural. E se as maneiras de agir
e sentir prprias de uma sociedade precisam ser
transmitidas por meio da aprendizagem  porque so externas ao indivduo.

            O devoto, ao nascer, encontra prontas as crenas e as prticas da vida
            religiosa, existindo antes dele,  porque existem fora dele. O sistema
            de sinais de que me sirvo para exprimir pensamentos, o sistema de moedas
            que emprego para pagar as dvidas, os instrumentos de crdito que utilizo
    p. 70

            nas minhas relaes comerciais, as prticas seguidas na profisso etc.
            funcionam independentemente do uso que delas fao. 10.

        As representaes coletivas so uma das expresses do fato social. Elas compreendem os modos "como a sociedade v a si mesma e ao
mundo que a rodeia" como, por exemplo, a massa de indivduos que a compem, as coisas de que se utilizam e o solo que ocupam,
representando-os atravs de suas lendas, mitos, concepes religiosas, ideais de bondade ou de beleza, crenas morais etc. Como se produzem as
representaes coletivas? Atravs de

            uma imensa cooperao que se estende no apenas no espao mas no tempo
            tambm; para constitu-las, espritos diversos associaram-se, misturaram
            e combinaram suas idias e sentimentos; longas sries de geraes
            acumularam nelas sua experincia e sabedoria. Uma intelectualidade muito
            particular, infinitamente mais rica e mais complexa do que a do
            indivduo est a concentrada. 11.

        Por serem mais estveis do que as representaes individuais, so a base em que se originam os conceitos, traduzidos nas palavras do vocabulrio de uma
comunidade, de um grupo ou de uma nao.
        Outro componente fundamental do conjunto dos fatos sociais so os valores de uma sociedade. Eles tambm possuem uma realidade objetiva, independente do sentimento
ou da importncia que algum individualmente lhes d; no necessitam expressar-se por meio de uma pessoa em particular ou que esta esteja de acordo com eles. Como
demonstrao de que os fatos sociais so coercitivos e externos aos indivduos, e de que exercem sobre todos uma autoridade especfica, Durkheim refere-se aos obstculos
que dever enfrentar quem se aventura a no atender a uma conveno mundana, a resistir a uma lei, a violar uma regra moral, a no usar o idioma ou a moeda nacional.
Ele tropear com os demais membros da sociedade que tentaro impedi-lo, convenc-lo ou restringir sua ao, usaro de punies, da censura, do riso, do oprbrio
e de outras sanes, incluindo a violncia, advertindo-o de que est diante de algo que noj depende dele. Quando optamos pela no-submisso, "as foras morais
contra as quais nos insurgimos reagem contra ns e  difcil, em virtude de sua superioridade, que no sejamos vencidos. (...) Estamos mergulhados numa atmosfera
de idias e sentimentos coletivos que no podemos modificar  vontade." 12. Mas isso no significa que a nica alternativa para o indivduo seja prostrar-se impotente
diante das regras sociais ou viver permanentemente consciente da presso dos fatos sociais. Apesar da existncia de dificuldades impostas por um poder contrrio
de origem social, apresentam-se comportamentos inovadores, e as instituies so passveis de mudana desde que "vrios indivduos tenham, pelo menos, combinado
a sua ao e que desta combinao se tenha desprendido um produto novo"
    p. 71

que vem a constituir um fato social. 13. Assim, por exemplo, uma proposta pedaggica que esteja em conflito com a concepo de educao de seu tempo por conter "tendncias
do futuro, aspiraes de um novo ideal", pode vencer os obstculos e impor-se, tomando o lugar das idias aceitas. A ao transformadora  tanto mais difcil quanto
maior o peso ou a centralidade que a regra, a crena ou a prtica social que se quer modificar possuam para a coeso social. Enquanto nas sociedades modernas, at
mesmo os valores relativos  vida - o aborto, a clonagem humana, a pena de morte ou a eutansia - podem ser postos em questo, em sociedades tradicionais, os inovadores
enfrentam maiores e s vezes insuperveis resistncias. Por isso  que at mesmo "os atos qualificados de crimes no so os mesmos em toda parte", como se pode ver
no exemplo a seguir:

            Segundo o direito ateniense, Scrates era criminoso e sua condenao no
            deixou de ser justa. Todavia seu crime, isto , a independncia de seu
            pensamento, no foi til apenas  humanidade como tambm  sua ptria,
            pois servia para preparar uma moral e uma f novas de que os atenienses
            tinham necessidade ento, porque as tradies nas quais tinham vivido
            at aquela poca no estavam mais em harmonia com suas condies de
            existncia. Ora, o caso de Scrates no  isolado; reproduz-se
            periodicamente na histria. A liberdade de pensamento de que gozamos
            atualmente jamais teria podido ser proclamada se as regras que a
            proibiam no tivessem sido violadas antes de serem solenemente
            repudiadas. Naquele momento, porm, a violao constitua crime, pois
            tratava-se de ofensa contra sentimentos ainda muito vivos na
            generalidade das conscincias. (...) A liberdade filosfica teve por
            precursores toda espcie de herticos que o brao secular justamente
            castigou durante todo o curso da Idade Mdia, at a vspera dos tempos
            contemporneos. 14.

           O MTODO DE ESTUDO DA SOCIOLOGIA SEGUNDO DURKHEIM

        No estudo da vida social, uma das preocupaes de Durkheim era avaliar qual mtodo permitiria faz-lo de maneira cientfica, superando as deficincias do
senso comum. Conclui que ele deveria assemelhar-se ao adotado pelas cincias naturais, mas nem por isso ser o seu decalque, porque os fatos que a Sociologia examina
pertencem ao reino social e tm peculiaridades que os distinguem dos fenmenos da natureza. Tal mtodo
    p. 72

deveria ser estritamente sociolgico. com base nele, os cientistas sociais investigariam possveis relaes de causa e efeito e regularidades com vistas  descoberta
de leis e mesmo de "regras de ao para o futuro", observando fenmenos rigorosamente definidos.
        
            Primeiro, h que estudar a sociedade no seu aspecto exterior.
            Considerada sob esta perspectiva, ela surge como que constituda por uma
            massa de populao, de uma certa densidade, disposta de determinada
            maneira num territrio, dispersa nos campos ou concentrada nas cidades
            etc.: ocupa um territrio mais ou menos extenso, situado de determinada
            maneira em relao aos mares e aos territrios dos povos vizinhos, mais
            ou menos atravessado por cursos de gua e por diferentes vias de
            comunicao que estabelecem contato, mais ou menos ntimo, entre os
            habitantes. Este territrio, as suas dimenses, a sua configurao e a
            composio da populao que se movimenta na sua superfcie so
            naturalmente fatores importantes na vida social;  o seu substrato e,
            assim como no indivduo a vida psquica varia consoante a composio
            anatmica do crebro que lhe est na base, assim os fenmenos coletivos
            variam segundo a constituio do substrato social. 15.

        Durkheim estabelece regras que os socilogos devem seguir na observao dos fatos sociais. 16. A primeira delas e a mais fundamental 
consider-los como coisas. Da seguem-se alguns corolrios: afastar sistematicamente as prenoes; definir previamente os fenmenos tratados
a partir dos caracteres exteriores que lhes so comuns; e consider-los, independentemente de suas manifestaes individuais, da maneira mais
objetiva possvel. Ele coloca em questo a conduta do investigador que, mesmo encontrando-se diante de uma realidade externa desconhecida,
parece mover-se como se estivesse "entre coisas imediatamente transparentes ao esprito, to grande  a facilidade com que o vemos
resolver questes obscuras". 17. com isso, o estudioso no faz mais do que expressar suas prenoes, as quais acabam tornando-se como um vu
interposto entre as coisas e ele prprio. As proposies do autor, expostas em seu livro As regras do mtodo sociolgico acarretaram
acaloradas discusses na poca, obrigando-o a escrever um longo prefcio  segunda edio tendo em vista esclarecer sua posio inicial e em que
reafirma:

            A coisa se ope  idia. (...)  coisa todo objeto do conhecimento que a
            inteligncia no penetra de maneira natural (...) tudo o que o esprito
            no pode chegar a compreender seno sob a condio de sair de si mesmo,
            por meio da observao e da experimentao, passando progressivamente
            dos caracteres mais exteriores e mais imediatamente acessveis para os
            menos visveis e profundos. 18.
    p. 73

        A coisa pode ser reconhecida 

            pelo sintoma de no poder ser modificada por intermdio de um simples
            decreto da vontade. No que seja refratria a qualquer modificao. Mas
            no  suficiente exercer a vontade para produzir uma mudana,  preciso
            alm disso um esforo mais ou menos laborioso, devido  resistncia que
            nos ope e que, outrossim, nem sempre pode ser vencida. 19.

        O socilogo deve, portanto, ter a atitude mental e comportar-se diante dos fatos da mesma maneira que o faria qualquer cientista:
considerar que se acha diante de objetos ignorados porque "as representaes que podem ser formuladas no decorrer da vida, tendo sido
efetuadas sem mtodo nem crtica, esto destitudas de valor cientfico e devem ser afastadas". 20. Ele deve assumir que desconhece
completamente o que so os fatos sociais, j que

            os homens no esperaram o advento da cincia social para formular idias
            sobre o direito, a moral, a famlia, o Estado e a prpria sociedade;
            pois no podiam passar sem elas em sua existncia. Ora,  sobretudo na
            Sociologia que as prenoes, para retomar a expresso de Bacon, esto em
            estado de dominar os espritos e de se substituir s coisas. com efeito,
            as coisas sociais s se realizam atravs dos homens; so um produto da
            atividade humana. No parecem, pois, constituir outra coisa seno a
            realizao de idias, inatas ou no, que trazemos em ns; no passam da
            aplicao dessas idias s diversas circunstncias que acompanham as
            relaes dos homens entre si. A organizao da famlia, do contrato, da
            represso, do Estado, da sociedade aparecem assim como um simples
            desenvolvimento das idias que formulamos a respeito da sociedade, do
            Estado, da justia etc. Por conseguinte, tais fatos e outros anlogos
            parecem no ter realidade seno nas idias e pelas idias; e como estas
            parecem o germe dos fatos, elas  que se tornam, ento, a matria
            peculiar  Sociologia. 21.

        A dificuldade que o socilogo enfrenta para libertar-se das falsas evidncias, formadas fora do campo da cincia, deve-se a que influi sobre ele seu
sentimento, sua paixo pelos objetos morais que examina. Mas, mesmo que tenha preferncias, quando investiga, o sbio

            se desinteressa pelas conseqncias prticas. Ele diz o que ; verifica
            o que so as coisas e fica nessa verificao. No se preocupa em saber
            se as verdades que descubra so agradveis ou desconcertantes, se convm
            s relaes que estabelea fiquem como foram descobertas, ou se valeria
            a pena que fossem outras. Seu papel  o de exprimir a realidade, no o
            de julg-la. 22.

        Por isso  que uma das bases da objetividade de uma cincia da sociedade teria que ser, necessariamente, a disposio do cientista social a
    p. 74

colocar-se "num estado de esprito semelhante ao dos fsicos, qumicos e fisiologistas quando se aventuram numa regio ainda inexplorada de seu domnio cientfico"
assumindo, desse modo, sua ignorncia, livrando-se de suas prenoes ou noes vulgares (j combatidas por Bacon) e adotando, enfim, a prtica cartesiana da dvida
metdica. Essa atitude leva apenas  convico de que

            no estado atual dos nossos conhecimentos, no sabemos com certeza o que
            so Estado, soberania, liberdade poltica, democracia, socialismo,
            comunismo etc. e o mtodo estatuiria a interdio do uso destes
            conceitos enquanto no estivessem cientificamente constitudos. E
            todavia os termos que os exprimem figuram sem cessar nas discusses dos
            socilogos. So empregados correntemente e com segurana, como se
            correspondessem a coisas bem conhecidas e definidas, quando no
            despertam em ns seno misturas indistintas de impresses vagas, de
            preconceitos e de paixes. 23.

A DUALIDADE DOS fATOS MORAIS

        As regras morais so fatos sociais e apresentam, conseqentemente, as caractersticas j mencionadas. Inegavelmente coativas, elas, no entanto, mostram uma
outra face, ao se apresentarem como "coisas agradveis de que gostamos e que desejamos espontaneamente". Estamos ligados a elas "com todas as foras de nossa alma".
A sociedade  nossa protetora e "tudo o que aumenta sua vitalidade eleva a nossa", por isso apreciamos tudo o que ela preza. A coao deixa, ento, de ser sentida
graas ao respeito que os membros de uma sociedade experimentam pelos ideais coletivos. O prestgio de que esto investidas certas representaes deve-se a que

            somente uma sociedade constituda goza da supremacia moral e material
            indispensvel para fazer a lei para os indivduos; pois s a
            personalidade moral que esteja acima das personalidades particulares 
            que forma a coletividade. Somente assim ela tem a continuidade e mesmo a
            perenidade necessrias para manter a regra acima das relaes efmeras
            que a encarnam diariamente. 24.

        Em suma, as regras morais possuem uma autoridade que implica a noo de dever e, em segundo lugar, aparecem-nos como desejveis, embora seu cumprimento se
d com um esforo que nos arrasta para fora de ns mesmos, e que por isso mesmo eleva-nos acima de nossa prpria natureza, mesmo sob constrangimento. As "crenas
e prticas sociais agem
    p. 75

sobre ns a partir do exterior", por isso, sua ascendncia tambm  distinta daquela de que desfrutam nossos hbitos, os quais se encontram dentro de ns. O fato
moral apresenta, pois, a mesma dualidade do sagrado que , num sentido, "o ser proibido, que no se ousa violar; mas  tambm o ser bom, amado, procurado". Por isso,

            ao mesmo tempo que as instituies se impem a ns, aderimos a elas;
            elas comandam e ns as queremos; elas nos constrangem, e ns encontramos
            vantagem em seu funcionamento e no prprio constrangimento. (...) Talvez
            no existam prticas coletivas que deixem de exercer sobre ns esta ao
            dupla, a qual, alm do mais, no  contraditria seno na aparncia. 25.

        Embora a coao seja necessria para que o ser humano acrescente  sua natureza fsica, ultrapassando-a, uma outra e superior natureza -
isto , a social - ele tem tambm o prazer de partilhar interesses com outros membros da sociedade, de levar com eles uma mesma vida moral.
Nessas passagens, Durkheim faz lembrar as consideraes feitas por Rousseau no Contrato social sobre as vantagens que o ser humano obtm ao
sair do estado de natureza. Vemos que, ao explicitar sua concepo de sociedade, o socilogo francs mostra-nos uma realidade que tem vida
prpria,  como um ente superior, mais perfeito e que, afinal, antecede e sucede os indivduos; independe deles e possui sobre eles uma
autoridade que, embora constrangendo-os, eles amam. Enfim,  ela que lhes concede humanidade e "no poderamos pretender sair da sociedade
sem querermos deixar de ser homens". 26.
        Contudo, os ideais que congregam os membros dos grupos sociais devem ser periodicamente revificados a fim de que no se debilitem. Isso
acontece nas ocasies que aproximam as pessoas, tornando mais freqentes e intensas as relaes entre elas, como ocorre durante movimentos
coletivos, por meio do reforo exuberante da vida social, e tal 

            reconstituio moral no pode ser obtida seno por meio de reunies, de
            assemblias, de congregaes onde os indivduos, estreitamente prximos
            uns dos outros, reafirmam em comum seus sentimentos comuns, da as
            cerimnias que, por seu objeto, pelos resultados que produzem, pelos
            procedimentos que empregam, no diferem em natureza das cerimnias
            propriamente religiosas. Qual  a diferena essencial entre uma
            assemblia de cristos celebrando as datas principais da vida de Cristo,
            ou de judeus celebrando a sada do Egito ou a promulgao do declogo, e
            uma reunio de cidados comemorando a instituio de uma nova
            constituio moral ou algum grande acontecimento da vida nacional? 27.

        Durkheim refere-se a essa necessidade de revigorar os ideais coletivos como a razo de muitos dos ritos religiosos que voltam a reunir os
    p. 76

fiis, antes dispersos e isolados, para fazer renascer e alentar neles as crenas comuns. A sociedade refaz-se moralmente, reafirma os sentimentos e idias que
constituem sua unidade e personalidade. Isso garante a coeso, vitalidade e continuidade do grupo, e assegura energia a seus membros. A Frana instituiu "todo um
ciclo de festas para manter em estado de juventude perptua" os princpios nos quais se inspirara a Revoluo. 28. Mas o que faz com que os homens mantenham-se em
sociedade, ou seja, por que os agrupamentos humanos no costumam desfazer-se facilmente e, ao contrrio, desenvolvem mecanismos para lutar contra ameaas de desintegrao?

COESO, SOLIDARIEDADE E OS DOIS TIPOS DE CONSCINCIA

        Conquanto no tenha sido o primeiro a apresentar explicao para o problema, Durkheim elaborou o conceito de solidariedade social, procurou mostrar como
se constitui e se torna responsvel pela coeso entre os membros dos grupos, e de que maneira varia segundo o modelo de organizao social. Para tanto, levou em
conta a existncia de maior ou menor diviso do trabalho. Segundo o autor, possumos duas conscincias: "Uma  comum com todo o nosso grupo e, por conseguinte, no
representa a ns mesmos, mas a sociedade agindo e vivendo em ns. A outra, ao contrrio, s nos representa no que temos de pessoal e distinto, nisso  que faz de
ns um indivduo." 29.
        Em outras palavras, existem em ns dois seres: um, individual, "constitudo de todos os estados mentais que no se relacionam seno conosco mesmo e com os
acontecimentos de nossa vida pessoal", e outro que revela em ns a mais alta realidade, "um sistema de idias, sentimentos e de hbitos que exprimem em ns (...)
o grupo ou os grupos diferentes de que fazemos parte; tais so as crenas religiosas, as crenas e as prticas morais, as tradies nacionais ou profissionais, as
opinies coletivas de toda espcie. Seu conjunto forma o ser social." 30. E, na medida em que o indivduo participa da vida social, supera-se a si mesmo. O objetivo
da instruo pblica, por exemplo,  constituir a conscincia comum, formar cidados para a sociedade e no operrios para as fbricas ou contabilistas para o comrcio,
"o ensino deve portanto ser essencialmente moralizador; libertar os espritos das vises egostas e dos interesses materiais; substituir a piedade religiosa por
uma espcie de piedade social". 31.
    p. 77

        Essa conscincia comum ou coletiva corresponde ao "conjunto das crenas e dos sentimentos comuns  mdia dos membros de uma mesma sociedade [que] forma um
sistema determinado que tem vida prpria". 32. Ela produz "um mundo de sentimentos, de idias, de imagens" e independe das maneiras pelas quais cada um dos membros
dessa sociedade venha a manifest-la porque tem uma realidade prpria e de outra natureza. A conscincia comum recobre "reas" de distintas dimenses na conscincia
total das pessoas, o que depende de que seja ou segmentar ou organizado o tipo de sociedade na qual aquelas se inserem. Quanto mais extensa  a conscincia coletiva,
mais a coeso entre os participantes da sociedade examinada refere-se a uma "conformidade de todas as conscincias particulares a um tipo comum", o que faz com que
todas se assemelhem e, por isso, os membros do grupo sintam-se atrados pelas similitudes uns com os outros, ao mesmo tempo que a sua individualidade  menor. Ainda 
assim,

            a conscincia moral da sociedade no  encontrada por inteiro em todos
            os indivduos e com suficiente vitalidade para impedir qualquer ato que
            a ofendesse, fosse este uma falta puramente moral ou propriamente um
            crime. (...) Uma uniformidade to universal e to absoluta 
            radicalmente impossvel (...) mesmo entre os povos inferiores, em que a
            originalidade individual est muito pouco desenvolvida, esta no 
            todavia nula. Assim ento, uma vez que no pode existir sociedade em que
            os indivduos no divirjam mais ou menos do tipo coletivo,  inevitvel
            tambm que, entre estas divergncias, existam algumas que apresentem
            carter criminoso."

        Nas sociedades onde se desenvolve uma diviso do trabalho, a conscincia comum passa a ocupar uma reduzida parcela da conscincia total, permitindo o
desenvolvimento da personalidade.

            Quanto mais o meio social se amplia, menos o desenvolvimento das
            divergncias privadas  contido. Mas, entre as divergncias, existem
            aquelas que so especficas de cada indivduo, de cada membro da
            famlia, elas mesmas tornam-se sempre mais numerosas e mais importantes
             medida que o campo das relaes sociais se torna mais vasto. Ali,
            ento, onde elas encontram uma resistncia dbil,  inevitvel que elas
            se provenham de fora, se acentuem, se consolidem, e como elas so o
            mago da personalidade individual, esta vai necessariamente se
            desenvolver. Cada qual, com o passar do tempo, assume mais sua
            fisionomia prpria, sua maneira pessoal de sentir e pensar. 34.

        Mas a diferenciao social no diminui a coeso... Ao contrrio, faz com que "a unidade do organismo seja tanto maior quanto mais marcada a individualidade
das partes". Uma solidariedade ainda mais forte funda-se agora na interdependncia e na individuao dos membros que compem essas sociedades! Durkheim estabelece
a uma analogia com a atrao que
    p. 78

aproxima homem e mulher que, por serem dessemelhantes, completam-se e formam um todo atravs de sua unio. 35. Enquanto os "sentimentos de simpatia cuja fonte 
a semelhana" levam a uma aglutinao dos membros, nas sociedades com acentuada diviso do trabalho, o relacionamento social supe uma interdependncia baseada
na especializao de tarefas. Nesse caso, o equilbrio e a solidariedade originam-se na prpria diferenciao, constituindo fortes laos que unem s sociedades orgnicas
os seus membros.
        A diviso do trabalho no  especfica do mundo econmico: ela se encontra em outras reas da sociedade, como nas funes polticas, administrativas, judicirias,
artsticas, cientficas etc. Embora a educao exprima os elementos comuns que toda sociedade necessariamente possui - como as idias a respeito da natureza humana,
do dever e do progresso que formam a base do esprito nacional - ela tambm colabora nessa diferenciao, j que cada profisso "reclama aptides particulares e
conhecimentos especiais". Onde existe uma diviso do trabalho desenvolvida, a sociedade no tem como regulamentar todas as funes que engendra e, portanto, deixa
descoberta uma parcela da conscincia individual: a esfera de ao prpria de cada um dos membros.  medida que a comunidade ocupa um lugar menor, abre-se espao
para o desenvolvimento das dessemelhanas, da individualidade, da personalidade autnoma.

OS DOIS TIPOS DE SOLIDARIEDADE

        Os laos que unem os membros entre si e ao prprio grupo constituem a solidariedade, a qual pode ser orgnica ou mecnica, de acordo com o tipo de sociedade
cuja coeso procuram garantir. Quando tais vnculos assemelham-se aos que ligam um dspota aos seus sditos, a natureza destes  anloga  dos laos que unem um
proprietrio a seus bens: no so recprocos mas, sim, "mecnicos". O indivduo no se pertence,  "literalmente uma coisa de que a sociedade dispe". 36. A
solidariedade  chamada mecnica quando "liga diretamente o indivduo  sociedade, sem nenhum intermedirio", constituindo-se de "um conjunto mais ou menos organizado
de crenas e sentimentos comuns a todos os membros do grupo:  o chamado tipo coletivo". Isso significa que no encontramos ali aquelas caractersticas que diferenciam
to nitidamente uns dos outros os membros de uma sociedade, a ponto de podermos cham-los de indivduos. Suas conscincias se assemelham, eles so pouco ou quase
nada desiguais entre si e por isso a solidariedade entre eles deve-se s similitudes que compartilham. At mesmo a propriedade de bens no pode
    p. 79

ser individual, o que s vem a acontecer quando o indivduo desliga-se e distingue-se da massa. Nas sociedades onde essas ligaes predominam, a prpria educao
 difusa, no h mestres, e "as idias e as tendncias comuns a todos os membros da sociedade ultrapassam em nmero e intensidade aquelas que pertencem a cada um
deles pessoalmente". 37.
        A parcela de responsabilidade que a solidariedade mecnica tem na integrao social depende da extenso da vida social que ela abrange e que  regulamentada
pela conscincia comum. O estabelecimento de um poder absoluto - ou seja, a existncia de um chefe situado "muito acima do resto dos homens", que encarna a extraordinria
autoridade emanada da conscincia comum - embora j seja uma primeira diviso do trabalho no seio das sociedades primitivas no muda ainda a natureza de sua solidariedade,
porque o chefe no faz mais do que unir os membros  imagem do grupo que ele prprio representa. Esse tipo de sociedade, na qual a coeso resulta "exclusivamente
das semelhanas compe-se de uma massa absolutamente homognea, cujas partes no se distinguiriam umas das outras",  um agregado informe: a horda, um tipo de sociedade
simples ou no-organizada."
        Quando a sociedade passa a ser formada por um conjunto de hordas, que so seus segmentos,  sinal que se tornou mais complexa e
passa a chamar-se cl. Esse  um tipo de sociedade polissegmentar simples - agregado homogneo, de natureza familiar e poltica, fundado
numa forte solidariedade mecnica. A dissoluo das sociedades segmentares  concomitante  formao de sociedades parciais no seio da
sociedade global. Nesse processo, d-se uma aproximao entre os membros que a formam, "a vida social generaliza-se em lugar de concentrar-se
numa quantidade de pequenos lares distintos e semelhantes", reduzem-se os "vcuos morais" que separavam as pessoas e, com isso, as relaes
sociais tornam-se mais numerosas e se estendem. Esse  o resultado de um aumento da densidade moral e dinmica. com a intensificao das relaes
sociais, os participantes dessas sociedades passam a estar em contato suficiente entre si, e desse modo reagem aos demais desde o ponto de
vista moral, e "no apenas trocam servios ou fazem concorrncia uns aos outros, mas vivem uma vida comum". 38.
        Concomitantemente, desenvolve-se uma densidade material-concentra-se a populao, formam-se cidades, aumenta a natalidade e tambm as "vias de comunicao
e transmisso rpidas e em quantidade que, suprimindo ou diminuindo os vazios que separam os segmentos sociais, aumentam a densidade da sociedade". 39. A condensao
da sociedade, ao multiplicar as relaes intersociais, leva ao progresso da diviso do trabalho.  medida que se acentua a diviso do trabalho social, a solidariedade
mecnica se reduz e  gradualmente substituda por uma nova: a solidariedade orgnica ou derivada da diviso do trabalho. Institui-se ento um
    p. 80

processo de individualizao dos membros dessa sociedade que passam a ser solidrios por terem uma esfera prpria de ao. com isso ocorre uma
interdependncia entre todos e cada um dos demais membros que compem tal sociedade. A funo da diviso do trabalho , enfim, a de integrar o
corpo social, assegurar-lhe a unidade. , portanto, uma condio de existncia da sociedade organizada, uma necessidade. Sendo esta
sociedade "um sistema de funes diferentes e especiais", onde cada rgo tem um papel diferenciado, a funo que o indivduo desempenha  o
que marca seu lugar na sociedade, e os grupos formados por pessoas unidas por afinidades especiais tornam-se rgos, e "chegar o dia em
que toda organizao social e poltica ter uma base exclusivamente ou quase exclusivamente profissional" 40. Da deriva a idia de que a
individuao  um processo intimamente ligado ao desenvolvimento da diviso do trabalho social e a uma classe de conscincia que
gradativamente ocupa o lugar da conscincia comum e que s ocorre quando os membros das sociedades se diferenciam. E  esse mesmo processo que os
torna interdependentes. Segundo Durkheim, somente existem indivduos no sentido moderno da expresso quando se vive numa sociedade altamente
diferenciada, ou seja, onde a diviso do trabalho est presente, e na qual a conscincia coletiva ocupa um espao j muito reduzido em face da
conscincia individual.
        Essas duas formas de solidariedade evoluem em razo inversa: enquanto uma progride, a outra se retrai, mas cada uma delas, a seu modo, cumpre a funo de
assegurar a coeso social nas sociedades simples ou complexas. Onde a solidariedade social

             forte, inclina fortemente os homens entre si, coloca-os em freqente
            contato, multiplica as ocasies que tm de se relacionarem. (...) Quanto
            mais solidrios so os membros de uma sociedade, mais relaes diversas
            sustentam, seja entre si, seja com o grupo tomado coletivamente, porque
            se os seus encontros fossem raros eles no dependeriam uns dos outros
            seno de maneira frgil e intermitente. 41.

OS INDICADORES DOS TIPOS DE SOLIDARIEDADE

        Durkheim utiliza-se da predominncia de certas normas do Direito como indicador da presena de um ou do outro tipo de solidariedade, j que esta, por ser
um fenmeno moral, no pode ser diretamente observada. No obstante se sustente nos costumes difusos, o Direito  uma forma estvel e precisa, e serve, portanto,
de fator externo e objetivo que simboliza os elementos mais essenciais da solidariedade social. Por outro lado, as
    p. 81

sanes que so aplicadas aos preceitos do Direito mudam de acordo com a gravidade destes, sendo assim possvel estudar suas variaes. O papel do Direito seria,
nas sociedades complexas, anlogo ao do sistema nervoso: regular as funes do corpo. Por isso expressa tambm o grau de concentrao da sociedade devido  diviso
do trabalho social, tanto quanto o sistema nervoso exprime o estado de concentrao do organismo gerado pela diviso do trabalho fisiolgico, isto , sua complexidade
e desenvolvimento. Enquanto as sanes impostas pelo costume so difusas, as que se impem atravs do Direito so organizadas. Elas constituem duas classes: as repressivas
- que infligem ao culpado uma dor, uma diminuio, uma privao; e as restitutivas - que fazem com que as coisas e relaes perturbadas sejam restabelecidas  sua
situao anterior, levando o culpado a reparar o dano causado. A maior ou menor presena de regras repressivas pode ser atestada atravs da frao ocupada pelo Direito
Penal ou Repressivo no sistema jurdico da sociedade.
        Naquelas sociedades onde as similitudes entre seus componentes so o principal trao, um comportamento desviante  punido por meio de aes que tm profundas
razes nos costumes. Os membros dessas coletividades participam conjuntamente de uma espcie de vingana contra aqueles que violaram algum forte sentimento compartilhado
que tenha para a sociedade a funo central de assegurar sua unidade. Sendo a conscincia coletiva to significativa e disseminada, feri-la  uma violncia que atinge
a todos aqueles que se sentem parte dessa totalidade. O crime provoca uma ruptura dos elos de solidariedade, e sua incontestvel reprovao serve, do ponto de vista
da sociedade em questo, para confirmar e vivificar valores e sentimentos comuns e, desde uma perspectiva sociolgica, permite demonstrar que alguns valores possuem
a funo de assegurar a existncia da prpria associao. A vingana  exercida contra o agressor na mesma intensidade com que a violao por ele perpetrada atingiu
uma crena, uma tradio, uma prtica coletiva, um mito ou qualquer outro componente mais ou menos essencial para a garantia da continuidade daquela sociedade.
        Nas sociedades primitivas  a assemblia do povo que faz justia sem intermedirios. Os sentimentos coletivos esto profundamente gravados em todas as conscincias,
so enrgicos e incontestes, e assim tambm sua punio. Os crimes so, portanto, atos que ou

            manifestam diretamente uma dessemelhana demasiado violenta entre o
            agente que o executou e o tipo social, ou ento ofendem o rgo da
            conscincia comum. Tanto num caso como no outro, a fora atingida pelo
            crime e a que o repele  a mesma; ela  um produto das similitudes
            sociais mais essenciais e tem por efeito manter a coeso social que
            resulta dessas similitudes. 42.
    p. 82

        Aqueles que ameaam ou abalam a unidade do corpo social devem ser punidos a fim de que a coeso seja protegida. Assim a pena "no serve, ou s serve secundariamente,
para corrigir o culpado ou para intimidar seus possveis imitadores!" Ela existe para sustentar a vitalidade dos laos que ligam entre si os membros dessa sociedade,
evitando que se relaxem e debilitem, assim, a solidariedade que mantm unidos tais membros. E "todo estado forte de conscincia  uma fonte de vida,  um fator essencial
de nossa vitalidade geral". 43. Por conseguinte, embora parea paradoxal, "o castigo destina-se sobretudo a influir sobre as pessoas honestas". 44. Sendo o resultado
de reaes mecnicas, de movimentos passionais, e demonstrando a forte intolerncia em relao a determinados atos, a punio no , em si, uma mera crueldade, mas
visa principalmente evitar que a coeso social seja fragilizada. Ela  uma forma de proteo, e a clera que suscita  a mobilizao das reservas passionais que
asseguram o estado de paz. "Quando reclamamos a represso ao crime, no somos a ns que queremos pessoalmente vingar, mas a algo de sagrado que sentimos, mais ou
menos confusamente fora e acima de ns." 45.. A ofensa atinge uma autoridade que transcende o indivduo e, para Durkheim, no existe fora moral superior quele 
que no seja a fora coletiva. Mas o contedo das regras morais no deixa de variar historicamente. Por isso,

            o homicdio constitui um ato odioso em tempos normais e no o  em tempo
            de guerra, porque no h nesse caso um preceito que o proba. Isto , um
            ato, intrinsecamente o mesmo, que pode ser condenado hoje por um pas
            europeu, no t-lo sido na Grcia simplesmente porque no violava, pois,
            nenhuma norma preestabelecida. 46.

        s vezes a pena sobrepassa os culpados e atinge inocentes - como sua famlia - porque, sendo baseada na paixo, pode estender-se incontrolavelmente, de maneira
mecnica e irracional.  uma grosseira arma defensiva contra a ameaa,  obra da vingana, atua com mpeto passional.
        J numa sociedade onde se desenvolveu uma diviso do trabalho, as tarefas especficas a certos setores j no so comuns a todos, e tampouco poderiam s-lo
os sentimentos que seu descumprimento gera. Aquele que  acusado de no observar um contrato no  humilhado, nem aviltado, nem revolta a opinio pblica, a qual,
s vezes, at desconhece as razes para a condenao. Embora possa haver entre as regras especficas de cada um desses setores originados com a diviso do trabalho
algumas relaes sujeitas ao Direito Penal, elas em geral so estranhas ou atingem debilmente a conscincia comum. Elas constituem o Direito Civil, Comercial,
Processual, Administrativo e Constitucional. Este conjunto de regras  to especializado que  necessrio criar a cada vez novos rgos para execut-las. Ao contrrio
do Direito Penal ou Repressivo, que corresponde ao "corao" da sociedade, o Direito Cooperativo e as sanes restitutivas que dele derivam aplicam-se a crculos 
especiais nas sociedades onde impera
    p. 83

a diviso do trabalho social. Eles sobrepujam a conscincia coletiva. Diante da ocorrncia de uma perturbao nessas funes divididas, o Direito Cooperativo ou
Restitutivo  chamado a contribuir para o pronto restabelecimento do anterior estado de coisas.
        A sociedade , portanto, capaz de cobrar aes resolutas de seus membros tendo em vista a auto-preservao, por isso pode exigir que, em nome dessa coeso,
eles abdiquem da prpria vida.  a partir de consideraes como essa que Durkheim prope uma anlise do suicdio enquanto fato social. O que torna a discusso instigante
 que o fenmeno no  analisado com base em motivaes exclusivamente privadas, como em geral se faz. O autor parte da seguinte reflexo:

            Considerando que o suicdio  um ato da pessoa e que s a ela atinge,
            tudo indica que deva depender exclusivamente de fatores individuais e
            que sua explicao, por conseguinte, caiba to somente  psicologia. De
            fato, no  pelo temperamento do suicida, por seu carter, por seus
            antecedentes, pelos fatos da sua histria privada que em geral se
            explica a sua deciso? 47

        Da procurar demonstrar de que modo o conjunto desses fenmenos poder ser tomado como um fato novo e sui generis, resultante de fatores
de origem social que chama de "correntes suicidogneas", verdadeiros estmulos que atuariam sobre os indivduos, exortando-os, exigindo-lhes
ou possibilitando que eles procurem a prpria morte. Com base no exame de estatsticas europias, o autor argumenta que a evoluo do suicdio
se d por ondas de movimento que constituem taxas nacionais constantes durante longos perodos, embora variem de uma para outra sociedade. Como
propugna em seu mtodo, deve-se comear por uma definio objetiva de suicdio - "todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um
ato positivo ou negativo praticado pela prpria vtima, sabedora de que devia produzir esse resultado". 48. Delimitado o fato que se pretende
investigar, passa-se a consider-lo como um fenmeno coletivo, tomando dados relativos s sociedades onde ocorrem para encontrar regularidades
e construir uma taxa especfica para cada uma delas. 49. A partir de uma tipologia dos suicidas, Durkheim procurou, uma vez mais, distinguir a
Sociologia de outras cincias que tm o homem como objeto. Portanto, aqueles que buscam explicar o suicdio com base na considerao de casos
isolados no chegam  sua causa geradora que  exterior aos indivduos. Cada grupo social tem uma disposio coletiva para o suicdio, e desta
derivam as inclinaes individuais. Ela deriva de "correntes de egosmo, de altrusmo ou de anomia que afligem a sociedade... com as tendncias 
melancolia langorosa,  renncia ativa ou  fadiga exasperada que so as conseqncias das referidas correntes". 50. Em geral, essas trs
correntes compensam-se mutuamente e mantm os indivduos estveis. A ultrapassagem por parte de qualquer delas de seu grau normal de
intensidade pode expor alguns membros a formas de suicdio que dependem da configurao particular
    p. 84

desse desequilbrio. Certas condies sociais, profisses ou confisses religiosas  que estimulariam os indivduos a ir adiante ou ajudariam a cont-los. A influncia
das conjunturas particulares - que so, em geral, tomadas por causas imediatas do suicdio - no passam de "ressonncias do estado moral da sociedade". As causas
do suicdio so, portanto, objetivas, exteriores aos indivduos. Elas so tendncias coletivas, "foras to reais quanto as foras csmicas, embora de outra natureza". 
51.
        A maior coeso e vitalidade das instituies s quais a pessoa est ligada - a intensidade com que se manifesta a solidariedade em seu
grupo religioso, a solidez dos laos que a unem  sua famlia, ou a fora dos valores e sentimentos que a vinculam  sociedade poltica -
contribuem para preserv-la de cometer um ato dessa natureza. Sob tais condies, as sociedades religiosa, domstica e poltica podem exercer
sobre o suicdio uma influncia moderadora. Ao se constiturem em sociedades fortemente integradas, elas protegem seus membros. Durkheim
considera, por exemplo, que os grupos religiosos minoritrios, que precisam lutar contra a hostilidade e intolerncia de outros cultos,
acabam por exercer controle e disciplina mais severos e, portanto, submetem seus membros a uma maior moralidade, o que reduz a taxa de
suicdio entre eles. Caso uma sociedade venha sofrer um processo de desintegrao, o indivduo que dela faz parte pode sentir-se estimulado
a suicidar-se, j que 

            quanto mais se enfraqueam os grupos sociais a que ele pertence, menos
            ele depender deles e cada vez mais, por conseguinte, depender apenas
            de si mesmo para reconhecer como regras de conduta to somente as que se
            calquem nos seus interesses particulares. Se, pois, concordamos em
            chamar de egosmo a esta situao em que o ego individual se afirma com
            excesso diante do eu social e em detrimento deste ltimo, poderemos
            designar de egosta o tipo particular de suicdio que resulta de uma
            individuao descomedida. 52.

        A depresso, a melancolia, a sensao de desamparo moral provocadas pela desintegrao social tornam-se, ento, causas do suicdio egosta. Durkheim acreditava
que a lacuna gerada pela carncia de vida social era maior nos povos modernos do que entre os primitivos e afligia os homens mais do que as mulheres. Por isso, acredita
que uma mulher viva ou solteira suportaria melhor a solido, porque as necessidades femininas, mais rudimentares nos aspectos sociais, seriam satisfeitas nessa
rea com "poucos gastos" em relao s dos homens, socialmente mais complexos.
        Nas sociedades inferiores, os suicdios mais freqentes eram os altrustas, que compreendem os praticados por enfermos ou pessoas que chegaram ao limiar
da velhice, por vivas por ocasio da morte do marido, por fiis e servidores com o falecimento de seus chefes, ou os atos hericos durante guerras ou convulses
sociais. O suicdio  visto ento como um
    p. 85

dever que, se no for cumprido,  punido pela desonra, perda da estima pblica ou por castigos religiosos. Mais uma vez  a sociedade que intervm para a ocorrncia
do fenmeno analisado. Se no tipo egosta ela afrouxa seus laos a ponto de deixar o indivduo escapar, neste segundo o ego da pessoa no lhe pertence, situando-se
num dos grupos de que ela faz parte, como a famlia, o Estado ou a Igreja. Nas sociedades modernas, a ocorrncia do suicdio altrusta d-se entre mrtires religiosos
e, de maneira crnica, entre os militares, j que a sociedade militar expressa, em certos aspectos, uma sobrevivncia da moral primitiva e da estrutura das sociedades
inferiores, alm de promover uma fraca individuao, estimulando a impessoalidade e a abnegao.
        O terceiro tipo - o suicdio anmico -  aquele que se deve a uma situao de desregramento social devido ao qual as normas esto
ausentes ou perderam o respeito. A sociedade deixa de estar presente o suficiente para regular as paixes individuais, deixando-as correr
desenfreadas. Esta  a situao'caracterstica das sociedades modernas.

            De fato, h um sculo, o progresso econmico tem consistido
            principalmente em libertar as relaes industriais de toda e qualquer
            regulamentao. At recentemente, um sistema inteiro de poderes morais
            tinha por funo disciplin-las. Havia, em primeiro lugar, a religio,
            cuja influncia se fazia sentir igualmente entre operrios e patres,
            entre pobres e ricos. Consolava os primeiros e os ensinava a se
            conformarem com a sua sorte ao lhes pregar que a ordem social 
            providencial, que o quinho de cada classe foi determinado por Deus, e
            fazendo com que esperassem de um mundo futuro as justas compensaes
            pelas desigualdades existentes neste. Moderava os segundos,
            lembrando-lhes que os interesses terrestres no so a essncia do homem,
            logo devem estar subordinados a outros mais elevados e que, por
            conseguinte, no merecem ser buscados sem comedimento. 53.

        Sentia Durkheim a necessidade de uma nova moralidade que se desenvolvesse a uma velocidade semelhante quela em que se dava o crescimento industrial e econmico
de modo a controlar os afetos. Quando, numa sociedade organizada, acontece de os contatos entre os rgos sociais serem insuficientes ou pouco duradouros, surge
uma situao de desequilbrio: o sentimento de interdependncia se amortece, as relaes ficam precrias e as regras indefinidas, vagas. Este  o estado de anomia,
o qual,  "impossvel onde os rgos solidrios esto em contato suficiente e suficientemente prolongado" j que,

            ao ser contguos, a todo momento percebem a necessidade que tm uns dos
            outros e, por conseguinte, tm um sentimento vivo e contnuo de sua
            mtua dependncia. Pelo mesmo motivo, os intercmbios se do entre eles
            com facilidade; sendo regulares, so tambm freqentes, regularizam-se
            por si mesmos e o tempo termina pouco a pouco a obra de consolidao.
    p. 86

            Finalmente, como as menores reaes podem ser sentidas numa parte e na
            outra, as normas que assim se formam levam sua marca, isto , prevem
            e fixam at o detalhe as condies de equilbrio. 54.

        O estado de anomia ou de desregramento pode ser melhor compreendido quando referido s conseqncias do crescimento desordenado da indstria. Antes, o poder
temporal e as regulamentaes impostas pelas corporaes de ofcios diminuam o mpeto da industrializao e, embora fossem formas de organizao inadequadas para
a sociedade contempornea, nada veio a ocupar o seu lugar. Por isso  que a ocorrncia de uma crise econmica ou de mudanas sbitas nas crenas vigentes em uma
sociedade podem impedi-la de cumprir sua funo reguladora, disciplinar e, desse modo, a condio de anomia vir a tornar-se normal. Se algum  lanado por um
desastre econmico a uma situao inferior pode no ter tempo para aprender a conter suas necessidades, refazendo sua educao moral. Um brusco aumento de riqueza
ou de poder tende a levar ao mesmo desajuste, passando a no haver nada a que a pessoa no tenha pretenses: seus apetites no tm mais limites, seus fracassos
e crises multiplicam-se, e as restries parecem-lhe insuportveis. O divrcio, aliado ao afrouxamento do controle social, pode tambm levar  anomia, rompendo
o estado de equilbrio moral dos indivduos.
         entre as funes industriais e comerciais que se registram mais suicdios - dada a sua frgil e incipiente moralidade - e os patres so provavelmente
os mais atingidos pelo tipo chamado de anmico. Segundo Durkheim, os pases pobres desfrutam de uma singular imunidade a esse tipo de suicdio, j que a pobreza
constitui um freio ao que se quer ter e, assim, 

            menos se  levado a estender sem limites o crculo das necessidades. A
            impotncia, obrigando-nos  moderao, a ela nos habitua, alm do que,
            onde a mediocridade  geral, nada vem acicatar a cobia. A riqueza, pelo
            contrrio, pelos poderes que confere, nos d a iluso de que s
            dependemos de ns mesmos. Ora, quanto menos limitados nos sentimos,
            tanto mais toda limitao nos parece intolervel. 55.

MORALIDADE E ANOMIA

        Os equvocos identificados por Durkheim nas interpretaes utilitaristas a respeito das causas do estado doentio que se observava nas sociedades modernas
levaram-no a enfatizar, em sua tese A diviso do trabalho social, a importncia dos fatos morais na integrao dos homens  vida coletiva.
    p. 87

            Moral (...)  tudo o que  fonte de solidariedade, tudo o que fora o
            indivduo a contar com seu prximo, a regular seus movimentos com base
            em outra coisa que no os impulsos de seu egosmo, e a moralidade 
            tanto mais slida quanto mais numerosos e fortes so estes laos. 56.

        Ele acreditava que a Frana encontrava-se mergulhada numa crise devido ao vazio provocado pelo desaparecimento dos valores e das instituies "protetoras"
e envolventes do mundo feudal, como as corporaes de ofcios. Conflitos e desordens seriam os sintomas da anrma jurdica e moral presentes na vida econmica, cujo
progresso sem precedentes no tinha sido acompanhado pelo desenvolvimento de instituies dotadas de uma autoridade capacitada a regulamentar os interesses e estabelecer
limites. A prpria moral profissional encontrava-se ainda num nvel rudimentar. Quando a sociedade  perturbada por uma crise, torna-se momentaneamente incapaz de 
exercer
sobre seus membros o papel de freio moral, de uma conscincia superior  dos indivduos. Estes deixam, ento, de ser solidrios, e a prpria coeso social se v
ameaada porque

            as trguas impostas pela violncia so provisrias e no pacificam os
            espritos. As paixes humanas no se detm seno diante de um poder
            moral que respeitem. Se toda autoridade desse tipo faz falta,  a lei do
            mais forte que reina e, latente ou agudo, o estado de guerra 
            necessariamente crnico. 57.

        A referncia implcita aqui   idia de "estado de natureza", objeto das consideraes de Hobbes durante o sculo 17. Durkheim reconhece que a anarquia
 dolorosa, os indivduos sofrem com os conflitos e desordens, e com a sensao de hostilidade geral e de desconfiana mtua quando eles se tornam crnicos.
        O mundo moderno caracterizar-se-ia por uma reduo na eficcia de determinadas instituies integradoras como a religio e a famlia, j que as pessoas passam
a agrupar-se segundo suas atividades profissionais. A famlia no possui mais a antiga unidade e indivisibilidade, tendo diminudo a sua influncia sobre a vida
privada, o Estado mantm-se distante dos indivduos, tendo "com eles relaes muito exteriores e muito intermitentes para que lhe seja possvel penetrar profundamente
nas conscincias individuais e socializ-las interiormente". 58. Por outro lado, a diversidade de correntes de pensamento torna as religies pouco eficazes nesses
aspectos, na medida em que no mais subordinam completamente o fiel, subsumindo-o no sagrado. com isso, a profisso assume importncia cada vez maior na vida social,
tornando-se herdeira da famlia, substituindo-a e excedendo-a. Mas ela prpria somente  regulada no interior da esfera de suas prprias atividades. Por isso  que
Durkheim procurou no campo do trabalho, nos grupos profissionais, um lugar de reconstruo da solidariedade e da moralidade integradoras das quais lhe pareciam to
carentes as sociedades
    p. 88

industriais. Nesse caso, o grupo profissional ou corporao cumpriria as duas condies necessrias para a regulamentao da vida social, ento
anrquica, j que estaria interessado na vida econmica e tem uma perenidade ao menos igual  da famlia. Ao mesmo tempo, por ser mais
restrito do que o Estado ou a vida econmica e estar mais prximo da profisso ou dos agentes de uma mesma indstria, ele  competente para
"conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e seguir todas as suas variaes". 59. Enfim, ele exerceria sobre os
membros daquela sociedade profissional uma regulamentao moral apta a refrear-lhe certos impulsos e a pr fim aos estados anmicos quando eles
se manifestam, procurando 

            suceder a famlia nas funes econmicas e morais que ela se torna cada
            vez mais incapaz de preencher (...) ser preciso pouco a pouco vincular
            os homens s suas vidas profissionais, constituir fortemente os grupos
            desse gnero, ser preciso que o dever profissional assuma, dentro dos
            coraes, o mesmo papel que o dever domstico desempenhou at agora. 60.

        Como o socilogo francs o percebia, tal estado de anarquia no poderia ser atribudo somente a uma distribuio injusta da riqueza mas, principalmente,
 falta de regulamentao das atividades econmicas, cujo desenvolvimento havia sido to extraordinrio nos ltimos dois sculos que elas acabaram por deixar de
ocupar seu antigo lugar secundrio. Ao mesmo tempo, o autor conferiu s anormalidades provocadas por uma diviso anmica do trabalho uma parte da responsabilidade
nas desigualdades e nas insatisfaes presentes nas sociedades modernas. Mesmo tendo absorvido uma "enorme quantidade de indivduos cuja vida se passa quase que 
inteiramente
no meio industrial", tais atividades no exerciam a "coao, sem a qual no h moral", isto , no se lhes apresentavam como uma autoridade que lhes impusesse deveres,
regras, limites.

            H uma moral profissional do advogado e do magistrado, do soldado e do
            professor, do mdico e do sacerdote etc. Mas se se tentam fixar em uma
            linguagem algo definida as idias em curso sobre o que devem ser as
            relaes do empregador com o empregado, do trabalhador com o chefe da
            empresa, dos industriais concorrentes entre si ou com o pblico, que
            frmulas indecisas se obteriam. Algumas generalidades sem preciso sobre
            a fidelidade e a dedicao que os assalariados de todos os tipos devem
            queles que os empregam, sobre a moderao com a qual esses ltimos
            devem usar a sua preponderncia econmica, uma certa reprovao por toda
            concorrncia muito abertamente desleal, por toda explorao por demais
            injusta do consumidor, eis quase tudo o que contm a conscincia moral
            destas profisses. (...) Os atos mais censurveis esto to absolvidos
            pelo sucesso que o limite entre o que  proibido e o que  permitido,
            entre o que  justo e o injusto, no tem mais nada de fixo. (...) Uma moral to
    p. 89

            imprecisa e to inconsistente no poderia constituir uma disciplina.
            Disso resulta que toda esta esfera da vida coletiva est, em grande
            parte, subtrada  ao moderadora da regra. 61.

        Embora a atividade econmica venha acompanhando a civilizao, esta no tem, por si s, nada de moralmente obrigatrio nem tem servido ao progresso da moral.
 justamente nos grandes centros industriais e comerciais onde se v o crescimento do nmero de suicdios e da criminalidade, uma das medidas da imoralidade coletiva.
A civilizao em si  moralmente neutra, sendo a cincia o nico de seus elementos que apresenta um certo carter de dever.
        Concretamente, o que Durkheim prope  que, na medida em que o mercado se amplia, passando do nvel municipal ao internacional, caberia  corporao fazer
o mesmo, independentemente de determinaes territoriais, e consolidar-se num rgo autnomo, habilitado a estabelecer os princpios especficos dos distintos ramos
industriais. Isto no significava fazer ressuscitar artificialmente as corporaes medievais, mas reconhecer o papel que elas haviam cumprido enquanto instituies
e seu "poder moral capaz de conter os egosmos individuais, de manter no corao dos trabalhadores um sentimento mais vivo de sua solidariedade comum, de impedir 
que
a lei do mais forte se aplique to brutalmente s relaes industriais e comerciais". 62. As novas corporaes tornar-se-iam uma autoridade moral e uma fonte de 
vida
para seus membros. Como toda sociedade, seriam aptas a fazer-se respeitar e amar, a exercer um domnio indiscutvel, a estabelecer regras de conduta que possuiriam
sobre os indivduos um carter obrigatrio e, por fim, a levar seus membros ao sacrifcio e  abnegao em nome do interesse comum, ao mesmo tempo que criariam entre
eles uma forte solidariedade. Pessoas que so parte de um grupo que possui em comum "idias, sentimento e ocupaes" so atradas umas em direo s outras, procuram-se,
entram em relaes, associam-se e acabam por constituir um grupo especial do qual vem a desprender-se uma vida moral, um sentimento de todo...

            Ora, essa unio com algo que supera o indivduo, essa subordinao dos
            interesses particulares ao interesse geral  a prpria fonte de toda
            atividade moral. Se esse sentimento se precisa e se determina, quando,
            aplicando-se s circunstncias mais ordinrias e mais importantes da
            vida, se traduz em frmulas definidas, temos um corpo de regras morais
            prestes a se constituir. 63.

        O espao que a reflexo sobre esse tema ocupa na obra durkheimiana mostra sua preocupao com as questes de um mundo que, para ele, se decompunha moralmente.
Embora tenha sido ativamente engajado nos debates polticos da Frana, o socilogo rejeitava as solues para os problemas sociais propostas pelos grupos que se
qualificavam socialistas:
    p. 90

            As chamadas doutrinas socialistas so, de fato, essencialmente relativas
            a esta esfera da vida coletiva que se chama vida econmica. Isto no
            quer dizer que a questo social seja uma questo de salrios; somos,
            pelo contrrio, daqueles que pensam que ela , antes de mais, moral. 64.

        Ele via naquele socialismo apenas indicadores de um mal-estar social expresso em smbolos, pela "maneira como certas camadas da sociedade, particularmente
atingidas pelos sofrimentos coletivos, os representam". 65 Como o entendia, o socialismo j estava implicado na prpria natureza das sociedades superiores, onde 
o
trabalho estava muito dividido, sendo a socializao uma decorrncia natural da evoluo das funes econmicas cada vez mais organizadas.
        Enfim, sendo a diviso do trabalho um fato social, seu principal efeito no  aumentar o rendimento das funes divididas mas produzir solidariedade. Se
isto no acontece,  sinal de que os rgos que compem uma sociedade dividida em funes no se auto-regulam, seja porque os intercmbios ou contatos que realizam
so insuficientes ou pouco prolongados. com isso, no podem garantir o equilbrio e a coeso social. Nesses casos, o estado de anomia  iminente.
        V-se, assim que, sob certas circunstncias, a diviso do trabalho pode agir de maneira dissolvente, deixando de cumprir seu papel moral: o de tornar solidrias
as funes divididas. A ausncia de normas - que em situao normal se desprendem por si mesmas como prolongaes da diviso do trabalho - impossibilita que a competio
presente na vida social seja moderada e que se promova a harmonia das funes. So trs os casos em que isto se d:
nas crises industriais e comerciais que denotam que as funes sociais no esto bem adaptadas entre si; nas lutas ntre o
trabalho e o capital que mostram a falta de unidade e a desarmonia, entre os trabalhadores e os patres; e na diviso extrema de especialidades no interior da
cincia. 'Durkheim utiliza-se do exemplo de uma situao de mercado na qual um intenso crescimento reduz os contatos entre as partes - produtores e consumidores.
O resultado so as "crises que perturbam periodicamente as funes econmicas". Ao separar completamente o patro e o empregado, a grande indstria modificou as
relaes de trabalho e apartou os membros das famlias, antes que os interesses em conflito conseguissem estabelecer um novo equilbrio. Se a funo da diviso do
trabalho falha, a anomia e o perigo da desintegrao ameaam todo o corpo social e "quando o indivduo, absorvido por sua tarefa, se isola em sua atividade especial,
j no percebe os colaboradores que trabalham a seu lado e na mesma obra, nem sequer tem idia dessa obra comum". 66.
        Durkheim discorda daqueles que acusam a diviso do trabalho de ter reduzido o trabalhador a uma mquina que repete rotineiramente os mesmos movimentos sem
relacionar as operaes que lhe so exigidas a um propsito. Se o operrio "j no  uma clula viva de um organismo vivo
    p. 91

que vibra sem cessar ao contato das clulas Vizinhas",  porque tornou-se "uma engrenagem inerte que uma fora externa pe em funcionamento". Tal sistema no deixa
indiferente a moral. Arruna-se o indivduo e esgota-se a fonte da vida social, o que  uma ameaa s funes econmicas, mas principalmente a todas as funes sociais.
A soluo para isso no est em ampliar a cultura do trabalhador, mas em demonstrar-lhe que "suas aes tm um fim fora de si mesmas. Da, por especial e uniforme
que possa ser sua atividade,  a de um ser inteligente, porque ela tem um sentido e ele o sabe." 67. Por outro lado, a desarmonia- entre as aptides individuais
e o gnero das tarefas que so atribudas ao trabalhador por meio de alguma frma de coao constituem outra fonte de perturbao'da solidariedade, mas no so uma
conseqhcia necessria da diviso do trabalho em condies normais. Durkheim argumenta que "o trabalho s se divide espontaneamente se a sociedade est constituda
de tal maneira que as desigualdades sociais expressam exatamente as desigualdades naturais". 68. Vemos aqui que o autor compreende o que Marx chama de luta de classes
como uma expresso de anormalidade ao nvel das relaes sociais. Ele advoga tambm que o mrito do esforo pessoal possui carter moral e, portanto, integrador.
Por isso critica a instituio da herana.

            Sempre que a riqueza seja transmitida por herana, existiro ricos e
            pobres de nascimento. As condies morais de nossa vida social so tais
            que as sociedades no podero se manter a no ser que as desigualdades
            exteriores, dentro das quais os indivduos esto situados, forem cada
            vez mais se nivelando.  preciso no entender, por isso, que os homens
            devem tornar-se iguais entre eles; ao contrrio: a desigualdade
            interior, aquela que deriva do valor pessoal de cada um, ir sempre
            aumentando, sem que este valor seja exagerado ou diminudo por alguma
            causa exterior. Ora, a riqueza hereditria  uma dessas causas. Ela
            fornece a qualquer um vantagens que no derivam de seus prprios mritos
            e que, portanto, lhe conferem esta. superioridade sobre outros. Esta
            injustia, que nos parece crescentemente intolervel, torna-se cada vez
            mais inconcilivel com as condies de existncia de nossas
            sociedades. Tudo concorre ento para demonstrar que o direito
            sucessrio, mesmo sob a forma testamentria, est destinado a
            desaparecer progressivamente. 69.

        Mas mesmo que a extino da instituio da herana possibilitasse a cada indivduo entrar na luta pela vida com os mesmos recursos, no deixaria de subsistir
certa hereditariedade:

            A dos dons naturais. A inteligncia, o gosto, o valor cientfico,
            artstico, literrio, industrial, a coragem, a destreza natural so
            foras que cada um de ns recebe ao nascer, como o proprietrio nato
            recebe o seu capital. (...) Ser, portanto, necessria ainda certa
            disciplina moral para forar os menos
    p. 92

            favorecidos pela natureza a aceitarem o que devem ao acaso de seu
            nascimento. Haver quem reivindique uma partilha igual para todos e que
            no se conceda vantagem alguma aos mais teis e merecedores' Nesse caso,
            seria preciso uma disciplina muito mais enrgica para obrigar estes
            ltimos a aceitarem um tratamento simplesmente igual ao dispensado aos
            medocres e impotentes. 70.

                          MORAL E VIDA SOCIAL

        A moral consiste em "um sistema de normas de conduta que prescrevem como o sujeito deve conduzir-se em determinadas
circunstncias". No entanto, tais normas distinguem-se de outros conjuntos de regras porque envolvem uma noo de dever, constituem uma
obrigao, possuem um respeito especial, so sentidas como desejveis e, para cumpri-las, os membros da sociedade so estimulados a superar sua
natureza individual. As normas morais tm uma finalidade desejvel e desejada para aqueles a quem se destinam. Elas no so uma mera ordem...
"experimentamos um prazer sui generis em cumprir com nosso dever porque  nosso dever. A noo de bem penetra na noo de dever." Junto ao
conceito de autoridade desenvolve-se o de liberdade, a "filha da autoridade bem compreendida. Porque ser livre no  fazer o que se
queira;  ser-se senhor de si, saber agir pela razo, praticando o dever." 71. Cada povo, em um certo momento de sua histria, possui uma
moral.  com base nela que a opinio pblica e os tribunais julgam.  a ela que se almeja, ela  o bem. Neg-la  negar a sociedade e, embora
possam existir conscincias que no se ajustem  moralidade de seu tempo, existe uma moral comum e geral queles que pertencem a uma
coletividade e uma infinitude de conscincias morais particulares que a expressam de modo distinto. Assim, se o educador tem uma ascendncia
moral sobre seus alunos  porque  para eles uma autoridade legtima, a qual no se d atravs do temor que possa inspirar mas da prpria crena
na misso que desempenha. O mesmo se pode dizer do sacerdote que fala em nome de uma divindade. Ambos so rgos de entidades morais: um da
sociedade e das grandes idias morais de seu tempo e de sua terra, outro, de seu Deus. Mas  a sociedade a autoridade moral,  ela que
confere s normas morais seu carter obrigatrio. Alm dessa moral comum, existe uma diversidade indefinida de outras moralidades,
expressas pelas distintas conscincias particulares. O valor moral dos atos deve-se a que visam um propsito superior aos indivduos, sua fonte
 mais elevada e seu fim  a sociedade.
    p. 93

        Em toda a sua obra, Durkheim procura comprovar os princpios que fundamentam sua concepo de sociedade. Esta, se nada mais fosse do que
uma soma dos indivduos que a constituem, no poderia ter valor moral superior  soma do valor moral de cada um de seus elementos. E, "se
existe uma moral, um sistema de deveres e obrigaes,  mister que a sociedade seja uma pessoa qualitativamente distinta das pessoas
individuais que compreende e de cuja sntese  o resultado". Por isso  que, onde se inicia a vida do grupo - famlia, corporao, cidade,
ptria, agrupamentos internacionais - comea a moral, e "o devotamento e o desinteresse adquirem sentido". A ligao do membro a um grupo 
tambm a sua adeso a um determinado ideal social, e s na vida coletiva o indivduo aprende a idealizar. "A sociedade  a melhor parte de ns",
acredita Durkheim, "na verdade, o homem no  humano seno porque vive em sociedade" e sair dela  deixar de s-lo. 72. Para adquirir
humanidade  indispensvel superar-se, dominar as prprias paixes, considerar outros interesses que no os prprios. E  a sociedade que
ensina aos homens a virtude do sacrifcio, da privao, e a subordinao de seus fins individuais a outros mais elevados.
        Mas no processo de crescente diferenciao provocada pela diviso do trabalho, os membros de um grupo chegam ao ponto de no ter
em comum nada alm da qualidade de serem humanos. Ento, no h nada que eles "possam amar e honrar em comum seno o prprio homem... E como cada
um de ns encarna algo da humanidade, cada conscincia individual encerra algo de divino e fica, assim, marcada por um carter inviolvel
para os outros." 73. Esse  o nico sistema de crenas que pode garantir a unidade moral da sociedade moderna: a moral individualista e a
religio da humanidade, na qual o homem , ao mesmo tempo, o fiel e o deus. E "quem quer que atente contra a vida de um homem, contra a
liberdade de um homem, contra a honra de um homem, inspira-nos um sentimento de repulsa, anlogo quele que o crente sente quando v
profanarem o seu dolo". 74.  nesse ponto que se coloca um dos elementos mais relevantes da Sociologia durkheimiana: o lugar do
indivduo na sociedade moderna, sua relao com o Estado, a proteo de seus interesses e a criao de seus direitos. Em sociedades menos
complexas, que controlam mais de perto seus membros e atravs da disciplina podem chegar  tirania, o Estado tem ainda carter religioso.
Assim, a moral cvica, que trata dos deveres dos cidados, confunde-se com a religio pblica, e o indivduo  meramente o instrumento de
realizao dos fins estatais. Em sociedades complexas, nas quais o Estado possui funes muito mais extensas, existe tambm um nmero cada
vez mais significativo de grupos secundrios que, alm de expressar os distintos interesses organizados de seus membros, mantm com estes um
contato estreito.  do equilbrio surgido do jogo entre o Estado e esses grupos - famlia, corporao, Igreja, distritos territoriais e outras
formas de associao - que nascem as liberdades individuais. A esta concepo do Estado, Durkheim chama individualista.
    p. 94

No possuindo os direitos individuais qualquer limite intransponvel, "aquilo que ontem no parecia passar de uma espcie de luxo vir a tornar-se, amanh, direito
estrito. A tarefa, assim, do Estado,  ilimitada. (...) Tudo faz prever que nos tornaremos mais sensveis a quanto respeite a personalidade humana." 75.
        A glorificao do indivduo move-se com base na simpatia por "tudo o que  do homem, uma maior piedade por todas as dores, por todas
as misrias humanas, uma mais ardente necessidade de os combater e atenuar, uma maior sede de justia". A vida, a honra, a liberdade do
indivduo so respeitadas e protegidas, e se "ele tem direito a esse respeito religioso  porque existe nele qualquer coisa da humanidade. 
a humanidade que  respeitvel e sagrada" 76 e, quando o homem a cultua, ele tem que sair de si e estender-se aos outros. Essa moral no deve,
ento, ser confundida com a concepo vulgar, condenada por Durkheim, igualada ao egosmo utilitrio e ao utilitarismo estreito que fazem a
"apoteose do bem-estar e do interesse individuais e desse culto egosta do ego". O homem livre  aquele que contm seu egosmo natural,
subordina-se a fins mais altos, submete os desejos ao imprio da vontade, conforma-os a justos limites. Por isso, um individualismo
desregrado adviria da falta de disciplina e de autoridade moral da sociedade. A divinizao do indivduo  obra da prpria sociedade, e a
liberdade deste  utilizada para o benefcio social. O culto de que ele  ao mesmo tempo objeto e agente dirige-se  pessoa humana, est acima
das conscincias individuais e pode servir-lhes de elo em direo a uma mesma f. Ele representa a adeso unnime a um conjunto de crenas e
prticas coletivas merecedoras de um respeito particular que lhes confere um carter religioso. Portanto,

            no  de recear que alguma vez o cu se despovoe de forma definitiva,
            pois somos ns prprios que o povoamos. O que nele projetamos so
            imagens ampliadas de ns prprios. E enquanto houver sociedades humanas,
            elas tiraro do seu seio grandes ideais de que os homens se tornaro
            servidores. 77.

        Sendo os Estados, na poca em que tais reflexes foram feitas, as mais altas sociedades organizadas, e no estando livres de ameaas
provenientes de outras sociedades, a disciplina orientada  proteo da coletividade nacional (o patriotismo) foi apontada por Durkheim como
oposta  que visa o desenvolvimento dos seres humanos (o cosmopolitismo). Para superar esse conflito, era necessrio que as
sociedades se guiassem por um ideal acima das particularidades e que buscassem fins mais universais: os propriamente humanos. A idia de uma
futura confederao dos Estados europeus, se bem que mais abrangente do que um Estado particular, ainda estaria longe de organizar a humanidade.
A existncia de contradies entre os sentimentos patritico e cosmopolita exigiria um esforo de conciliao por parte do Estado que se fixaria
    p. 95

            como tarefa essencial, no o crescer, o estender as fronteiras, e sim o
            organizar, o melhor que possa, sua autonomia, chamar a uma vida moral
            mais e mais alta o maior nmero de seus membros (...) No tenha o Estado
            outro fim seno fazer, de seus cidados, homens, no sentido completo da
            palavra, e os deveres cvicos no passaro de forma mais particular dos
            deveres gerais da humanidade. (...) As sociedades, porm, podem
            consagrar seu amor-prprio no a ser as maiores, ou as mais abastadas, e
            sim a ser as mais justas, as mais bem organizadas, a possuir a melhor
            constituio moral. 78.

RELIGIO E MORAL

         como parte dessa preocupao com o estudo da moralidade que a religio ocupa um espao importante na obra de Durkheim. As religies
primitivas so o ponto de partida de seu estudo por considerar que, em sua clareza e simplicidade, evidenciam o essencial, mais tarde oculto
pelo secundrio e o acessrio. Nas comunidades mais simples, onde  menor o desenvolvimento das individualidades e das diferenas, "o fato
religioso ainda traz visvel o sinal de suas origens", mostrando tambm mais facilmente elementos comuns a todas as sociedades. Mas que classe
de realidade humana as religies expressam sob seus smbolos?
        As religies so constitudas por "um sistema solidrio de crenas e de prticas relativas s coisas sagradas - isto , separadas, interditas - crenas comuns 
a todos aqueles que se unem numa mesma
comunidade moral chamada Igreja". 79. Os fenmenos religiosos so de duas espcies: as crenas, que so estados de opinio, representaes, e
os ritos, que exprimem modos de conduta. Ambos organizam e classificam o universo das coisas em duas classes ou domnios radicalmente
excludentes: o profano e o sagrado. A passagem do mundo profano para o sagrado implica uma metamorfose e envolve ritos de iniciao realizados
por aquele que renuncia ou sai de um mundo para entrar em outro e que morre simbolicamente para renascer por meio de uma cerimnia. As coisas
sagradas so protegidas, mantidas  distncia e isoladas pelas interdies aplicadas s profanas. Elas podem ser palavras, objetos,
animais, alimentos, lugares, pessoas etc. Entre essas coisas existem as que so proibidas de ser provadas, vistas, pronunciadas ou tocadas, por
exemplo, por homens, mulheres, solteiros, membros de algum grupo, casta ou classe social, durante uma fase da vida ou em certos estados naturais
como a gravidez ou a menstruao.
        Algumas vezes tal abstinncia requer sofrimento porque "nos aferramos com todas as fibras de nossa carne ao mundo profano; nossa sensibilidade nos ata a
ele; nossa vida depende dele. (...) No podemos,
    p. 96

pois, desprender-nos dele sem violentar nossa natureza, sem chocar-nos dolorosamente com nossos instintos." 80. Essa dor  um componente do que o autor chama de
culto negativo, formado pelos ritos ascticos que estabelecem tabus. E como sagrado e profano no podem misturar-se, as grandes solenidades religiosas suspendem
o trabalho - atividade temporal - e estabelecem o feriado ritual. As cerimnias religiosas cumprem um importante papel ao colocarem a coletividade em movimento para
sua celebrao: elas aproximam os indivduos, relembram a eles que so membros de um mesmo grupo, multiplicam os contatos entre eles, tornam-nos mais ntimos e "por
isso mesmo, o contedo das conscincias muda. Em dias comuns, as preocupaes utilitrias e individuais so as que ocupam mais os espritos." Assim, a energia intrnseca
aos sentimentos sociais consegue manter os membros unidos entre si. Nesses dias especiais

            o que ocupa o pensamento so as crenas comuns, as tradies comuns, as
            lembranas comuns dos grandes antepassados, o ideal coletivo de que eles
            so a reencarnao: em uma palavra, as coisas sociais. Mesmo os
            interesses materiais, que as grandes cerimnias religiosas buscam
            satisfazer, so de ordem pblica, portanto social. 81.

         a sociedade, ento, que envolve os indivduos no fenmeno religioso e que, por meio dos ritos, torna-se mais viva e atuante na
suas vidas. Os homens sentem que algo fora deles renasce, desperta:  a parcela do ser social contida em cada um que se renova. Assim, um
momento de profunda tristeza como o que se d com a perda de um parente tambm reflete o estado que o grupo ao qual pertencia atravessa.
Permitir a indiferena nessas situaes em que o destino fere e diminui a famlia ou a comunidade "seria proclamar que elas no ocupam em seus
coraes o lugar a que tm direito". Essa  a funo do luto. Assim,

            uma famlia que tolera que um dos seus possa morrer sem ser chorado
            atesta por esse fato que carece de unidade moral e de coeso: ela
            abdica, renuncia a existir. Por seu lado, o indivduo, quando est
            firmemente aderido  sociedade da qual forma parte, sente-se moralmente
            obrigado a participar de suas tristezas e alegria. Desinteressar-se
            seria romper os vnculos que o unem  coletividade, seria renunciar a
            quer-la e contradizer-se. 82.

        Durkheim refere-se a seu tempo como uma poca de profunda perturbao, onde as sociedades "so obrigadas a renovar-se e a procurar-se laboriosamente e dolorosamente".
Seus velhos ideais e divindades esto morrendo, e os homens encontram-se num "perodo de frio, de mediocridade moral" que recobre as fontes de calor contidas na
sociedade.

            Mas quem  que no sente que, nas profundezas da sociedade, h uma
            intensa vida que se elabora e procura as suas vias de sada que acabar por
    p. 97

            encontrar? Aspiramos a uma justia mais elevada que nenhuma das frmulas
            existentes exprime de modo a satisfazer-nos. Mas estas aspiraes
            obscuras que nos vo formando conseguiro, mais cedo ou mais tarde,
            tomar mais claramente conscincia de si mesmas, traduzir-se em frmulas
            definidas em volta das quais os homens voltaro a unir-se e que se
            tornaro num centro de cristalizao de novas crenas. 83.

        Assim  que Durkheim deixa antever sua esperana de que a vida coletiva se organize em potentes bases morais uma vez que o homem descubra que "a humanidade
foi abandonada sobre a terra s suas nicas foras e no pode seno contar consigo mesma para dirigir os seus destinos". 84.

A TEORIA SOCIOLGICA DO CONHECIMENTO

        A religio representa a prpria sociedade idealizada, reflete as aspiraes "para o bem, o belo, o ideal", e tambm incorpora o mal, a
morte, e mesmo os aspectos mais repugnantes e vulgares da vida social. Ao exteriorizar sentimentos comuns, as religies so tambm os primeiros
sistemas coletivos de representao do mundo - cosmologias. Assim, "se a filosofia e as cincias nasceram da religio,  porque a prpria
religio comeou por ocupar o lugar das cincias e da filosofia". 85.
        O interesse que o fez voltar-se s religies era tambm compreender as categorias fundamentais do entendimento humano, noes
essenciais como tempo, espao, nmero, causa, substncia, personalidade. Essas so relaes que existem entre as coisas e que, produzidas
inicialmente no interior do pensamento religioso, so expressas por meio de conceitos e smbolos. Durkheim questiona as duas teses que at ento
procuraram explicar a questo do conhecimento e de sua racionalidade - o empirismo e o apriorismo - e prope que seja reconhecida a origem social
das categorias, as quais traduziriam estados da coletividade, sendo, pois, produtos da cooperao.
        Enquanto os conhecimentos empricos so suscitados pela ao do objeto sobre os espritos dos indivduos, as categorias seriam
representaes essencialmente coletivas, obras da sociedade expressas inicialmente por meio da religio, na qual foi engendrado tudo o que h
de essencial na sociedade: o direito, a cincia, a moral, a arte e a recreao. 86. Se isto se d  porque "a idia de sociedade  a alma da
religio", e nesta originaram-se quase todas as grandes instituies sociais. Ela  uma expresso resumida da vida coletiva.
        Sendo a razo obra das representaes comuns,  irredutvel  experincia individual, ultrapassando-a, por isso ela consegue impor-se aos
    p. 98

membros de uma sociedade, tendo, portanto, um carter coercitivo e a autoridade da prpria sociedade

            comunicando-se a certas maneiras de pensar que so como que as condies
            indispensveis de toda ao comum. A necessidade com a qual as
            categorias se impem a ns, no , pois, o efeito de simples hbitos de
            cujo jugo poderamos nos libertar com um pouco de esforo; tampouco 
            uma necessidade fsica ou metafsica, j que as categorias mudam segundo
            os lugares e os tempos; ela  um tipo particular de necessidade moral
            que  para a vida intelectual o que a obrigao moral  para a vontade. 87.

        As categorias do entendimento seriam instrumentos coletivos de pensamento que os grupos humanos forjaram ao longo de sculos e atravs dos quais as inteligncias
se comunicam, e que expressam coisas sociais. Os conceitos - como, por exemplo, rvore, belo, elegante, decidido, gracioso - constituem modos como as sociedades,
em certas pocas, representam a natureza, os sentimentos, os objetos e as idias. Conceitos e categorias so ambos representaes coletivas.
        As categorias no devem ser tomadas como fatos primeiros, imanentes ao esprito e portanto impenetrveis pela anlise, como
pensavam os aprioristas, ou como noes muito simples que qualquer um pode apreender de suas experincias pessoais, logo, elaboraes
individuais, como propunham os empiristas. O tempo, por exemplo,  um modo de organizao que s tem sentido para todos os homens se for
objetivamente pensado por todos eles. Os pontos de apoio que permitem a classificao temporal dos acontecimentos

            so tomados da vida social. As divises em dias, semanas, meses, anos
            etc. correspondem  periodicidade dos ritos, das festas, das cerimnias
            pblicas. A base da categoria "tempo"  o ritmo da vida coletiva. Um
            calendrio expressa o ritmo da atividade coletiva ao mesmo tempo que tem
            por funo assegurar sua regularidade. O mesmo acontece com o espao. 88.

        O espao no possui por si mesmo esquerda e direita, norte e sul, alto e baixo. A organizao espacial faz sentido para os membros de
uma sociedade, como no exemplo de sociedades australianas e norte-americanas, onde o espao  concebido na forma de um crculo que
reproduz o formato do campo tribal, enquanto em outras o mundo  dividido em tantas partes quantos so os cls.
        Reduzido apenas aos preceitos individuais, o homem no seria distinto dos animais, isto , no seria um homem, pois no seria um ser
social que sempre pensou por meio de conceitos. Estes exprimem a maneira pela qual a sociedade representa as coisas para si, e constituem a
matria do pensamento lgico. Sendo, em princpio, opostos s representaes sensveis, que se encontram em constante movimento, so
universais e impessoais, e
    p. 99

 atravs deles que os indivduos se comunicam. A origem dos conceitos s pode ser a comunidade, j que so compartilhados por todos e
"dependem da maneira como ela  constituda e organizada". 89. Ao mesmo tempo, o conceito  universalizvel: ou ele  comum a todos os homens ou
pode ser a eles comunicado, isto porque  obra da comunidade, supera os limites da experincia pessoal. , portanto, um fato social. Mas as
representaes coletivas contm tambm elementos subjetivos dos quais o pensamento necessita desembaraar-se para organizar-se cientificamente,
logicamente. Em suma, a cincia, a moral e a religio originam-se de uma mesma fonte: a sociedade.

CONCLUSES

        Embora o mtodo positivista - abraado pelo autor em seu esforo de constituir uma Sociologia dotada de slidas bases empricas - tenha
por vezes confundido analistas mais apressados que o identificaram com as tendncias conservadoras do pensamento poltico e social da poca,
Durkheim esteve atento para o surgimento de novas crenas, ideais e representaes, gerados em perodos revolucionrios ou de grande
intensidade da vida social, capazes de extinguir o "frio moral" pelo qual passavam as sociedades industriais. Seriam precisamente esses os
momentos de exaltao da vida moral, quando foras psquicas recm-nascidas permitem aos homens recuperar o vigor de sua f no
carter sagrado de suas sociedades e transformar seu meio, atribuindo-lhe a dignidade de um mundo ideal. Por outro lado, a profunda
f mantida por Durkheim na capacidade de convivncia entre indivduos idiossincrticos, sem que se pusesse em risco a existncia da vida
social, atesta sua sensibilidade para as tendncias de mudana, embora de carter pacfico e mesmo reformista, assim como sua esperana no
exerccio da liberdade responsvel num quadro de justia social e de ideais cosmopolitas que se estenderia a toda a humanidade. Apesar disso,
reconhece "que ainda no estamos no tempo em que esse patriotismo poder reinar totalmente, se  que esse tempo poder chegar um dia". 90.
        A obra de Durkheim, impulsionada pelo grupo de brilhantes intelectuais e pesquisadores que se formou, graas  sua liderana, em
torno da revista UAnne Sociologique teve um impacto decisivo na Sociologia. Sua influncia  particularmente visvel no caso dos estudos
sobre a Sociologia da religio e os sistemas simblicos de representao.
        As reflexes que Durkheim realizara junto com Mareel Mauss (1872-1976) a respeito das representaes coletivas e dos sistemas lgicos de compreenso do mundo
    p. 100

originrios de distintos grupos sociais estabeleceram uma ponte entre sua teoria sociolgica e as preocupaes que marcam a Antropologia contempornea. Por outro
lado, uma vertente do pensamento Durkheimiano, mais especificamente os aspectos ligados ao consenso e  integrao do sistema social, foi incorporada  moderna teoria
sociolgica norte-americana atravs da interpretao de Talcott Parsons. Suas idias inspiraram tambm estudos recentes sobre a desintegrao de padres tradicionais
de interao devidos aos processos de urbanizao, alm de pesquisas sobre a famlia, a profisso e a socializao.

BIBLIOGRAFIA

DURKHEIM, E. A Sociologia em Frana no sculo XIX. In: . A cincia
social e a ao. Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo: Difel, 1975-
DURKHEIM, E. Sociologia e cincias sociais. In: . A cincia social e a
ao. Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo- Difel, 1975.
DURKHEIM, E. Propriedade social e democracia. In: . A cincia social
e a ao. Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo: Difel, 1975.
DURKHEIM, E. Os princpios de 1789 e a Sociologia. In: . A cincia
social e a ao. Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo: Difel, 1975.
DURKHEIM, E. Sobre a definio de Socialismo. In: . A cincia social
e a ao. Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo: Difel, 1975.
DURKHEIM, E. Socialismo e cincia social. In: . A cincia social e a
ao. Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo: Difel, 1975.
DURKHEIM, E. A concepo materialista da histria. In:  . A cincia
social e a ao. Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo: Difel, 1975.
DURKHEIM, E. O individualismo e os intelectuais. In:  . A cincia
social e a ao. Traduo de Ins D Ferreira. So Paulo: Difel, 1975.
A cincia social e a ao.
DURKHEIM, E. O futuro da religio. In: _ Traduo de Ins D. Ferreira. So Paulo: Difel, 1975.
DURKHEIM, E. As regras do mtodo sociolgico. Traduo de Maria Isaura P. Queiroz. So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974.
DURKHEIM, E. De la divisin del trabajo social. Traduo de David Maldavsky. Buenos Aires: Schapire, 1967.
DURKHEIM, E. Educao e Sociologia. 4. ed. Traduo de Loureno Filho. So Paulo. Melhoramentos, 1955.
    p. 101

DURKHEIM, . Las formas elementales de la vida religiosa. Buenos Aires: Schapire, 1968.
DURKHEIM. La famille conjugale. Revue Phosophique de la France et
l'tranger, Paris, n. XCI, p. 8, jan./juin 1921.
DURKHETM, E.  Lies de Sociologia: a moral, o direito e o Estado. Traduo de J. B. Damasco Penna. So Paulo: T. A. Queiroz/Edusp, 1983.
DURKHEIM, E. Sociologia y filosofia. Traduo de J. M. Bolano Hijo. Buenos Aires: Kraft, 1951.
DURKHEIM, E. O suicdio. Traduo de Nathanael Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

NOTAS

1. Segundo a ordem de problemas a que se dedique, a Sociologia poderia ser dividida em Morfologia Social, Fisiologia Social, Sociologia Religiosa, Moral, Jurdica,
Econmica, Lingstica, Esttica e, por fim, a que sintetiza suas concluses, a Sociologia Geral. O ramo da Sociologia que se dedica a estudar os fatos morais,
por exemplo, corresponde  "razo humana aplicada  ordem moral, inicialmente para conhec-la e compreend-la, e em seguida para orientar suas transformaes", sempre
cuidando de afastar os sentimentos pessoais. Essa alta conscincia s pode ser adquirida pela cincia que , ela mesma, uma obra social.
2. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 11.
3. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 31.
4. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. XXIX.
5. DURKHEIM. Sociologia y filosofia, p. 127.
6. DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 445.
7. DURKHEIM. A Sociologia em Frana no sculo XIX, p   117.
8. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 6-7.
9. DURKHEIM. Educao e Sociologia, p. 47.
10. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 2.
11. DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 20.
12. DURKHEIM. Educao e Sociologia, p. 7. As normas que regulam a sexualidade, por exemplo, e que so caractersticas de grupos sociais e de sociedades, so suscetveis
 mudana no decorrer do tempo, como quaisquer outras normas, embora observem distintos ritmos. Elas se expressam
    p. 102

na forma da mudana de valores sobre o que  normalidade, anormalidade e criminalidade.
13. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. XXI.
14. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 62.
15. DURKHEIM  Sociologia e cincias sociais, p. 133.
16. Vale lembrar que Durkheim somente se encarregou da lgica da Sociologia depois de ter feito alguns estudos; exps, assim, um mtodo que se inspirava em sua prpria
prtica.
17. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. XXIII.
18. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. XXI.
19. DURKHEIM As regras do mtodo sociolgico, p. 25.
20. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. XXI.
21. DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 16.
22 DURKHEIM Educao e Sociologia, p. 47.
23 DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 19-20.
24 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 10.
25 DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. XXX.
26 DURKHEIM  Sociologia y filosofia, p  171.
27 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 438.
28 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 439.
29 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 113.
30 DURKHEIM. Educao e Sociologia, p. 67.
31 DURKHEIM. Propriedade social e democracia, p. 159. ^ DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 74.
M DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 60. O autor desenvolve tambm a idia de que o crime no  um fato patolgico, j que esta prtica est disseminada
em todas as sociedades e est ligada s condies fundamentais de toda a vida social.
34 DURKHEIM. Revue Philosophique de la France et l'tranger, p. 8.
35. A prpria diviso sexual do trabalho  a fonte da solidariedade conjugal e, na sua ausncia, mesmo o ncleo familiar tende a desaparecer, subsistindo apenas
as relaes sexuais eventuais.
36 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 114.
    p. 103

37 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 113.
38 DURKHEIM. As regras do mtodo sociolgico, p. 99.
39 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 220-221.
40 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 163.
41 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 61.
42 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 94.
43 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 86.
44 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 95.
45 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 89-
46 DURKHEIM. Sociologia y filosofia, p. 160.
47 DURKHEIM. O suicdio, p. 18.
48 DURKHEIM. O suicdio, p. 16.
49 Durkheim analisou outras variveis que podem estar relacionadas ao suicdio tais como o sexo, o clima, as guerras, as crises polticas, a religio, o estado civil
etc. 50 DURKHEIM. O suicdio, p. 239.
51 DURKHEIM. O suicdio, p. 246.      .
52 DURKHEIM. O suicdio, p. 162.
53 DURKHEIM. O suicdio, p. 201.
54 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 313-
55 DURKHEIM. O suicdio, p. 200.
56 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 338.
57 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 8.
58 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 28.
59 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 10.
60 DURKHEIM. Revue Philosophique de la France et l'tranger, p. 13.
61 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 8.
62 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 14.
63 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 17.
64 DURKHEIM. Sobre a definio de socialismo, p. 204.
65 DURKHEIM. Socialismo e cincia social, p. 215.
66 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 304.
    p. 104

67 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 316.
68 DURKHEIM. De la divisin del trabajo social, p. 320.
69 DURKHEIM. Revue Philosophique de la France et l'tranger, p. 10-11.
70 DURKHEIM. O suicdio, p. 198.
71 DURKHEIM. Educao e Sociologia, p. 44.
72 DURKHEIM. Educao e Sociologia, p. 35.
73 DURKHEIM. O individualismo e os intelectuais, p. 244.
74 DURKHEIM. O individualismo e os intelectuais, p. 238.
75 DURKHEIM. Lies de Sociologia a moral, o direito e o Estado, p. 63.
76 DURKHEIM. O individualismo e os intelectuais, p. 240.
77 DURKHEIM. O futuro da religio, p. 286.
78 DURKHEIM. Lies de Sociologia a moral, o direito e o Estado, p. 68-69.
79 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 49.
80 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 321.
81 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 358.
82 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 410.
83 DURKHEIM. O futuro da religio, p  287.
84 DURKHEIM. O futuro da religio, p. 287.
85 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 14.
86 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 14.
87 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 21.
88 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 16.
89 DURKHEIM. Las formas elementales de la vida religiosa, p. 19.
90 DURKHEIM. Lies de Sociologia: a moral, o direito e o Estado, p. 69-
    P. 105

3 Max Weber

                    Maria Ligia de Oliveira Barbosa
                          Tnia Quintaneiro

            A tarefa do professor  servir aos alunos com o
            seu conhecimento e experincia e no impor-lhes
                   suas opinies polticas pessoais.

                                            Max Weber

INTRODUO

         poca de Max Weber, travava-se na Alemanha um acirrado debate entre a corrente at ento dominante no pensamento social e filosfico,
o positivismo, e seus crticos. O objeto da polmica eram as especificidades das cincias da natureza e das cincias do esprito e,
no interior destas, o papel dos valores e a possibilidade da formulao de leis. Wilhelm Dilthey (1833-1911), um dos mais importantes
representantes da ala antipositivista, contraps  razo cientfica dos positivistas a razo histrica, isto , a idia de que a compreenso do
fenmeno social pressupe a recuperao do sentido, sempre arraigado temporalmente e adscrito a uma viso de mundo, weltanschauung, (relativismo) e a um
ponto de vista (perspectivismo). Obra humana, a experincia histrica  tambm uma realidade mltipla e inesgotvel. 1
        Mas foram Marx e Nietzsche, reconhecidos pelo prprio Weber como os pensadores decisivos de seu tempo, aqueles que, segundo alguns
bigrafos, tiveram maior impacto sobre a obra do socilogo alemo. A influncia de Marx evidencia-se no fato de ambos terem compartilhado o
grande tema - o capitalismo ocidental - e dedicado a ele boa parte de
    p. 107

suas energias intelectuais, estudando-o da perspectiva histrica, econmica, ideolgica e sociolgica. Weber props-se a verificar a
capacidade que teria o materialismo histrico de encontrar explicaes adequadas  histria social, especialmente sobre as relaes entre a
estrutura e a superestrutura. Em suma, procurou compreender como as idias, tanto quanto os fatores de ordem material, cobravam fora na
explicao sociolgica, sem deixar de criticar o monismo causal que caracteriza o materialismo marxista nas suas formas vulgares.
        Weber tambm  herdeiro da percepo de Friedrich Nietzsche (1844- 1900) segundo a qual a vontade de poder, expressa na luta entre
valores antagnicos,  que torna a realidade social, poltica e econmica compreensvel. Isso refletia preocupaes correntes de
historiadores, socilogos e psiclogos alemes, interessados pelo carter conflituoso implcito no pluralismo democrtico.
        Enfim, cabe lembrar a originalidade de Weber no refinamento dessas e de outras idias que estavam presentes nos debates da poca. Os
conceitos com os quais interpretou a complexa luta que tem lugar em todas as arenas da vida coletiva e o desenvolvimento histrico do
Ocidente como a marcha da racionalidade representam um avano em termos de preciso metodolgica.

A OBJETIVIDADE DO CONHECIMENTO

        Na investigao de um tema, um cientista  inspirado por seus prprios valores e ideais, que tm um carter sagrado para ele, nos
quais deposita sua f e pelos quais est disposto a lutar. Por isso, deve estar capacitado a estabelecer uma "distino entre reconhecer e
julgar, e a cumprir tanto o dever cientfico de ver a verdade dos fatos, como o dever prtico de defender" os prprios valores, que devem ser
obrigatoriamente expostos e jamais disfarados de "cincia social" ou da "ordem racional dos fatos".  essencial distinguir a poltica e a
cincia e considerar que esta tampouco est isenta de valores Enquanto a cincia  um produto da reflexo do cientista, a poltica o  do homem
de vontade e de ao, ou do membro de uma classe que compartilha com outras ideologias e interesses. Segundo Weber, "a cincia  hoje uma
vocao organizada em disciplinas especiais a servio do auto-esclarecimento e conhecimento de fatos inter-relacionados". 2. Ela
no d resposta  pergunta: a qual dos deuses devemos servir? Essa  uma questo que tem a ver com a tica. Em outras palavras,  preciso
distinguir entre os julgamentos de valor e o saber emprico. Este nasce de necessidades e consideraes prticas historicamente colocadas, na
forma de problemas, ao cientista cujo propsito deve ser o de procurar selecionar
    p. 108

e sugerir a adoo de medidas que tenham a finalidade de solucion-los. J os julgamentos de valor dizem respeito  definio do significado que
se d aos objetos ou aos problemas. O saber emprico tem como objetivo procurar respostas atravs do uso dos instrumentos mais adequados (os
meios, os mtodos). Mas o cientista nunca deve propor-se a estabelecer normas, ideais e receitas para a praxis, nem dizer o que deve, mas o que
pode ser feito. A cincia , portanto, um procedimento altamente racional que procura explicar as conseqncias de determinados atos,
enquanto a posio poltica prtica vincula-se a convices e deveres. A relao entre cincia e valores , ainda assim, mais complexa do que
possa parecer. Segundo Weber:

            Hoje falamos habitualmente da cincia como "livre de todas as pressuposies". Haver tal coisa?
            Depende do que entendemos por isso. Todo trabalho cientfico pressupe que as regras da lgica do mtodo so
            vlidas; so as bases gerais de nossa orientao no mundo; e, pelo menos para nossa questo especial, essas
            pressuposies so o aspecto menos problemtico da cincia. A cincia pressupe, ainda, que o produto do
            trabalho cientfico  importante no sentido de que "vale a pena conhec-lo". Nisto esto encerrados todos
            os nossos problemas, evidentemente, pois esta pressuposio no pode ser provada por meios
            cientficos - s pode ser interpretada com referncia ao seu significado ltimo, que devemos rejeitar ou
            aceitar, segundo a nossa posio ltima em relao  vida. (...) A "pressuposio" geral da Medicina 
            apresentada trivialmente na afirmao de que a Cincia Mdica tem a tarefa de manter a vida como tal e
            diminuir o sofrimento na medida mxima de suas possibilidades. Se a vida vale a pena ser vivida e quando
            - esta questo no  indagada pela Medicina. 3

        Mas como  possvel, apesar da existncia desses valores, alcanar a objetividade nas cincias sociais? A resposta de Weber  que
os valores devem ser incorporados conscientemente  pesquisa e controlados atravs de procedimentos rigorosos de anlise,
caracterizados como "esquemas de explicao condicional". A ao do cientista  seletiva. Os valores so um guia para a escolha de um certo
objeto pelo cientista. A partir da, ele definir uma certa direo para a sua explicao e os limites da cadeia causal que ela  capaz de
estabelecer, ambos orientados por valores. As relaes de causalidade, por ele construdas na forma de hipteses, constituiro um esquema
lgico-explicativo cuja objetividade  garantida pelo rigor e obedincia aos cnones do pensamento cientfico. O ponto essencial a ser salientado
 que o prprio cientista  quem atribui aos aspectos do real e da histria que examina uma ordem atravs da qual procura estabelecer uma
relao causal entre certos fenmenos. Assim produz o que se chama tipo ideal.
    p. 109

        Conclui-se que a atividade cientfica , simultaneamente, racional com relao s suas finalidades - a
verdade  cientfica - e racional com relao a valores - a busca da verdade. A obrigao de dizer a verdade
, enfim, parte de uma tica absoluta que se impe, sem qualquer condio, aos cientistas Dada a sua
complexidade, a discusso realizada por Weber sobre a objetividade das cincias sociais merece uma
considerao cuidadosa. Segundo o autor, para chegar ao conhecimento que pretende, o cientista social
efetua quatro operaes:

            1) estabelece leis e fatores hipotticos que serviro como meios para seu estudo;
            2) analisa e expe ordenadamente "o agrupamento individual desses fatores historicamente dados e sua
            combinao concreta e significativa", procurando tornar inteligvel a causa e natureza dessa significao;
            3) remonta ao passado para observar como se desenvolveram as diferentes caractersticas individuais daqueles
            agrupamentos que possuem importncia para o presente e procura fornecer uma explicao histrica a partir
            de tais constelaes individuais anteriores, e 4) avalia as constelaes possveis no futuro. 4

        Weber endossa o ponto de vista segundo o qual as cincias sociais visam a compreenso de eventos culturais enquanto singularidades. 5. O alvo , portanto, 
captar
a especificidade dos fenmenos estudados e seus significados. Mas sendo a realidade cultural infinita, uma investigao exaustiva, que considerasse todas as circunstncias
ou variveis envolvidas num determinado acontecimento, torna-se uma pretenso inatingvel. Por isso, o cientista precisa isolar, da "imensidade absoluta, um fragmento
nfimo" que considera relevante. O critrio de seleo operante nesse processo est dado pelo significado que certos fenmenos possuem, tanto para ele como para
a cultura e a poca em que se inserem.  a partir da considerao de ambos os registros que ser possvel o ideal de objetividade e inteligibilidade nas cincias
sociais. Pode-se dizer, ento, que o particular ou especfico no  aquilo que vem dado pela experincia, nem muito menos o ponto de partida do conhecimento, mas
o resultado de um esforo cognitivo que discrimina, organiza e, enfim, abstrai certos aspectos da realidade na tentativa de explicar as causas associadas  produo
de determinados fenmenos. Mas o mtodo de estudo de que se utiliza baseia-se no estado de desenvolvimento dos conhecimentos, nas estruturas conceituais de que dispe
e nas normas de pensamento vigentes, o que lhe permite obter resultados vlidos no apenas para si prprio.
        Existe uma grande diferena entre conferir significado  realidade histrica por meio de idias de valor e conhecer suas leis e
orden-la de acordo com conceitos gerais e princpios lgicos, genricos. Mas a explicao ao fato significativo em sua especificidade
nunca estar livre de pressupostos porque ele prprio foi escolhido em funo de valores. com isso,
    p. 110

Weber rejeita a possibilidade de uma cincia social que reduza a realidade emprica a leis. Para explicar um acontecimento concreto, o cientista agrupa uma certa
constelao de fatores que lhe permitam dar sentido a esta realidade particular. 6
        Weber procura demonstrar que conceitos muito genricos, extensos, abrangentes ou abstratos, so menos proveitosos para o
cientista social por serem pobres em contedo, logo, afastados da riqueza da realidade histrica. Portanto, a tentativa de explicar tais
fenmenos por meio de "leis" que expressem regularidades quantificveis que se repetem no passa de um trabalho preliminar, possivelmente til.
Os fenmenos individuais so um conjunto infinito e catico de elementos cuja ordenao  realizada a partir da significao que representam e
por meio da imputao causal que lhe  feita. Logo,

            a) o conhecimento de leis sociais no  um conhecimento do socialmente real, mas unicamente um dos diversos meios
            auxiliares que o nosso pensamento utiliza para esse efeito e, b) porque nenhum conhecimento dos acontecimentos culturais
            poder ser concebido seno com base na significao que a realidade da vida, sempre configurada de modo individual,
            possui para ns em determinadas relaes singulares. 7

        O princpio de seleo dos fenmenos culturais infinitamente diversos  subjetivo, j que apenas o ponto de vista humano  capaz de
conferir-lhes sentido, assim como de proceder  imputao de causas concretas e adequadas ou objetivamente possveis, destacando algumas
conexes, construindo relaes, e elaborando ou fazendo uso de conceitos que pretendem ser fecundos para a investigao emprica, embora
inicialmente imprecisos e intudos. Isto vai permitir "tomar conscincia no do que  genrico mas, muito pelo contrrio, do que  especfico a
fenmenos culturais". 8. A resposta para o problema da relao entre a objetividade do conceito puro e a compreenso histrica encontra-se na
elaborao dos tipos ideais, atravs dos quais busca-se tornar compreensvel a natureza particular das conexes que se estabelecem empiricamente.

OS TIPOS IDEAIS

        Por meio das cincias sociais "queremos compreender a peculiaridade da vida que nos rodeia" composta de uma diversidade quase infinita de
elementos. Ao tomar um objeto, apenas um fragmento finito dessa realidade, o cientista social empreende uma tarefa muito distinta daquela que se prope
    p. 111

o cientista da natureza. O que procura  compreender uma individualidade sociocultural formada de componentes historicamente agrupados, nem
sempre quantificveis, a cujo passado se remonta para explicar o presente, partindo ento deste para avaliar as perspectivas futuras.
        Sendo uma cincia generalizadora, a Sociologia constri conceitos-tipo, "vazios frente  realidade concreta do histrico" e
distanciados desta, mas unvocos porque pretendem ser frmulas interpretativas atravs das quais se apresenta uma explicao racional
para a realidade emprica que organiza. Esta adequao entre o conceito e a realidade  tanto mais completa quanto maior a racionalidade da
conduta a ser interpretada, o que no impede a Sociologia de procurar explicar fenmenos irracionais (msticos, profticos, espirituais,
afetivos). O que d valor a uma construo terica  a concordncia entre a adequao de sentido que prope e a prova dos fatos, caso
contrrio, ela se torna intil, seja do ponto de vista explicativo ou do conhecimento da ao real. Quando  impossvel realizar a prova
emprica, a evidncia racional serve apenas como uma hiptese dotada de plausibilidade. Uma construo terica que pretende ser uma explicao
causal baseia-se em probabilidades de que um certo processo "A" siga-se, na forma esperada, a um outro determinado processo "B".
        Somente as aes compreensveis so objeto da Sociologia. E para que regularidades da vida social possam ser chamadas de leis
sociolgicas  necessrio que se comprove a probabilidade estatstica de que ocorram na forma que foi definida como adequada significativamente.
        Na medida em que no  possvel a explicao de uma realidade social particular, nica e infinita, por meio de uma anlise exaustiva
das relaes causais que a constituem, escolhem-se algumas destas por meio da avaliao das influncias ou efeitos que delas se pode esperar.
O cientista atribui a esses fragmentos selecionados da realidade um sentido, destaca certos aspectos cujo exame lhe parece importante -
segundo seu princpio de seleo - baseando-se, portanto, em seus prprios valores. Mas, enquanto "o objeto de estudo e a profundidade do
estudo na infinidade das conexes causais so determinados somente pelas idias de valor que dominam o investigador e sua poca", o mtodo e os
conceitos de que ele lana mo ligam-se s normas de validez cientfica referidos a uma teoria. A elaborao de um instrumento que oriente o
cientista social em sua busca de conexes causais  muito valiosa do ponto de vista heurstico. Esse modelo de interpretao-investigao  o
tipo ideal, e  dele que se vale o cientista para guiar-se na infinitude do real.
        Suas possibilidades e limites devem-se: 1)  unilateralidade, 2)  racionalidade e 3) ao carter utpico. Ao elaborar o tipo ideal,
parte-se da escolha, numa realidade infinita, de alguns elementos do objeto a ser interpretado que so considerados pelo investigador os mais
relevantes para a explicao. Esse processo de seleo acentua - necessariamente - certos
    p. 112

traos e deixa de lado outros, o que confere unilateralidade ao modelo puro. Os elementos causais so relacionados pelo cientista de modo
racional, embora no haja dvida sobre a influncia, de fato, de incontveis fatores irracionais no desenvolvimento do fenmeno real. No
relativo  nfase na racionalidade, o tipo ideal s existe como utopia e no , nem pretende ser, um reflexo da realidade complexa, muito menos
um modelo do que ela deveria ser. Um conceito tpico-ideal  um modelo simplificado do real, elaborado com base em traos considerados
essenciais para a determinao da causalidade, segundo os critrios de quem pretende explicar um fenmeno.
         possvel, por exemplo, construir tipos ideais da economia urbana da Idade Mdia, do Estado, de uma seita religiosa, de interesses
de classe e de outros fenmenos sociais de maior ou menor amplitude e complexidade, e tambm organizar qualquer dessas realidades a partir de
um ou de diversos de seus elementos. Na medida em que o cientista procede a uma seleo, esta vem a corresponder s suas prprias
concepes do que  essencial no objeto examinado, e sua construo tpico-ideal no corresponde necessariamente s de outros cientistas.
Ele proceder, a partir da, a uma comparao entre o seu modelo e a dinmica da realidade emprica que examina. As construes elaboradas
por Marx sobre o desenvolvimento do capitalismo tm, para Weber, o carter de tipos ideais e, embora teoricamente corretas, no se lhes
deve atribuir validez emprica ou imaginar que so "tendncias" ou "foras ativas" reais.

            Tais construes (...) permitem-nos ver se, em traos particulares ou em seu carter total, os fenmenos se aproximam
            de uma de nossas construes, determinar o grau de aproximao do fenmeno histrico e o tipo construdo teoricamente.
            Sob esse aspecto, a construo  simplesmente um recurso tcnico que facilita uma disposio e terminologia mais lcidas. 9

        Um exemplo da aplicao do tipo ideal encontra-se na obra A tica protestante e o esprito do capitalismo. Weber parte de uma
descrio provisria que lhe serve como guia para a investigao emprica, "indispensvel  clara compreenso do objeto de investigao",
do que entende inicialmente por "esprito do capitalismo", e vai construindo gradualmente esse conceito ao longo de sua pesquisa, para
chegar  sua forma definitiva apenas no final do trabalho. O tipo ideal  utilizado como instrumento para conduzir o autor numa realidade
complexa. O autor reconhece que seu ponto de vista  um entre outros. Cabe  Sociologia e  Histria, como parte das cincias da cultura, 10,
reconstruir os atos humanos, compreender o significado que estes tiveram para os agentes, e o universo de valores adotado por um grupo social ou
por um indivduo enquanto membro de uma determinada sociedade e, por fim, construir conceitos-tipo e encontrar "as regras gerais do acontecer".
    p. 113

OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA SOCIOLOGIA WEBERIANA
AO E AO SOCIAL

        A ao  definida por Weber como toda conduta humana (ato, omisso, permisso) dotada de um significado subjetivo dado por quem a
executa e que orienta essa ao.
        Quando tal orientao tem em vista a ao - passada, presente ou futura - de outro ou de outros agentes que podem ser "individualizados e
conhecidos ou uma pluralidade de indivduos indeterminados e completamente desconhecidos" - o pblico, a audincia de um programa, a
famlia do agente etc. - a ao passa a ser definida como social. 11. A Sociologia , para Weber, a cincia "que pretende entender,
interpretando-a, a ao social para, dessa maneira, explic-la causalmente em seu desenvolvimento e efeitos", observando suas
regularidades as quais se expressam na forma de usos, costumes ou situaes de interesse 12 e embora a Sociologia no tenha a ver somente
com a ao social, sem embargo, para o tipo de Sociologia que o autor prope, ela  o dado central, constitutivo. 13. Entretanto, algumas
aes no interessam  Sociologia por serem reativas, sem um sentido pensado, como a de retirar a mo ao se levar um choque.
        A explicao sociolgica busca compreender e interpretar o sentido, o desenvolvimento e os efeitos da conduta de um ou mais
indivduos referida a outro ou outros - ou seja, da ao social, no se propondo a julgar a validez de tais atos nem a compreender o agente
enquanto pessoa. Compreender uma ao  captar e interpretar sua conexo de sentido, que ser mais ou menos evidente para o socilogo. Em suma:
ao compreensvel  ao com sentido.
        As condutas humanas so tanto mais racionalizadas quanto menor for a submisso do agente aos costumes e afetos e quanto mais ele se
oriente por um planejamento adequado  situao. Pode-se dizer, portanto, que as aes sero tanto mais intelectualmente compreensveis
(ou sociologicamente explicveis) quanto mais racionais, mas  possvel a interpretao endoptica e o clculo exclusivamente intelectual dos
meios, direo e efeitos da ao ainda quando existe uma grande distncia entre os valores do agente e os do socilogo. Interpretar uma
ao devida a valores religiosos, a virtudes, ao fanatismo ou a afetos extremos que podem no fazer parte da experincia do socilogo ou aos
quais ele seja pouco suscetvel pode, portanto, dar-se com um grau menor de evidncia.
    p. 114

        Para compreender uma ao atravs do mtodo cientfico, o socilogo trabalha ento com uma elaborao limite, essencial para o
estudo sociolgico, que chama de tipos puros ou ideais, vazios de realidade concreta ou estranhos ao mundo, ou seja: abstratos,
conceituais. O Avarento, personagem dramtico de Molire, pode ser visto como um tipo ideal ou puro. Sua principal caracterstica pessoal  a
avareza, e todas as suas aes esto orientadas para a possibilidade de guardar cada vez mais dinheiro.  evidente que mesmo os avarentos mais
empedernidos no constrem todos os momentos da sua vida em torno apenas da atividade de entesouramento! Apenas figuras imaginadas seriam
capazes, por exemplo, de contar os gros de arroz que cada um de seus filhos estaria autorizado a comer nas refeies... Ainda assim, o
personagem proporciona, enquanto tipo ideal, um conjunto articulado de princpios racionais para a explicao das personalidades e aes dos
avarentos. E  este o sentido do uso de tipos ideais.
        Logo, com base no reconhecimento de que, durante o desenvolvimento da ao, podem ocorrer condicionamentos irracionais,
obstculos, emoes, equvocos, incoerncias etc., Weber constri quatro tipos puros, ou ideais, de ao: a ao racional com relao afins, a
ao racional com relao a valores, a ao tradicional e a ao afetiva. Sem dvida, so muitas as combinaes entre a maior ou a menor
nitidez com que o agente percebe suas prprias finalidades, os meios de que dever servir-se para alcan-las, as condies colocadas pelo
ambiente em que se d sua ao, assim como as conseqncias advindas de sua conduta.
        A escala classificatria abrange desde a racionalidade mais pura at a irracionalidade. O socilogo capta intelectualmente as conexes de
sentido racionais, as que alcanam o grau mximo de evidncia. Isso no ocorre com a mesma facilidade quando valores e afetos interferem nas
aes examinadas. A partir de um modelo de desenvolvimento da conduta racional, o socilogo interpreta outras conexes de sentido menos
evidentes - sejam aquelas afetivamente condicionadas ou que tenham sofrido influncias irracionais de toda espcie - tomando-as como
desvios do modelo constitudo.
        Em sntese: somente a ao com sentido pode ser compreendida pela Sociologia, a qual constri tipos ou modelos explicativos abstratos
para cuja construo levam-se em conta tanto as conexes de sentido racionais, cuja interpretao se d com maior evidncia, quanto as
no-racionais, sobre as quais a interpretao alcana menor clareza.
    p. 115

OS TIPOS PUROS DE AO E DE AO SOCIAL

        A ao de um indivduo ser classificada como racional com relao afins se, para atingir um objetivo previamente definido, ele lana mo dos meios necessrios
ou adequados, ambos avaliados e combinados to claramente quanto possvel de seu prprio ponto de vista. Um procedimento cientfico ou uma ao econmica, por exemplo,
expressam essa tendncia e permitem uma interpretao racional. O procedimento econmico - todo aquele que leva em conta um conjunto de necessidades a atender, quaisquer
que sejam, e uma quantidade escassa de meios - corresponde ao modelo tpico de ao racional. A questo para o agente que visa chegar ao objetivo pretendido recorrendo
aos meios disponveis  selecionar entre estes os mais adequados. A conexo entre fins e meios  tanto mais racional quanto mais a conduta se d rigorosamente e
sem a interferncia perturbadora de tradies e afetos que desviam seu curso. Assim, provavelmente  mais racional aplicar em aes da bolsa de valores a partir
da avaliao de um especialista no assunto do que ceder a um impulso, decidir com base num jogo de dados ou aceitar o conselho de um sacerdote.
        A conduta ser racional em relao a valores quando o agente orientar-se por fins ltimos, por princpios, agindo de acordo com ou a
servio de suas prprias convices e levando em conta somente sua fidelidade a tais valores, estes, sim, inspiradores de sua conduta, ou
na medida em que cr na legitimidade intrnseca de um comportamento, vlido por si mesmo - como, por exemplo, ser honesto, ser casto, no se
alimentar de carne... Est, portanto, cumprindo um dever, um imperativo ou exigncia ditados por seu senso de dignidade, suas crenas
religiosas, polticas, morais ou estticas, por valores que preza tais como a justia, a honra, a honestidade, a fidelidade, a beleza... Por
conseguinte, no  guiado pela considerao dos efeitos que podero advir de sua conduta. 14 Da que s vezes exista nesse tipo de
procedimento uma certa irracionalidade no que diz respeito  relao entre meios e fins, j que o agente no se interessa pelo aspecto da
racionalidade com a mesma paixo com que exige o respeito aos seus valores. Tal irracionalidade ser tanto maior quanto mais absoluto for,
para o sujeito, o valor que inspira sua ao. O significado da ao no se encontra, portanto, em seu resultado ou em suas conseqncias, mas no
desenrolar da prpria conduta, como, por exemplo, a daqueles que lutam em prol dos valores que consideram indiscutveis ou acima de quaisquer
outros, como a paz, o exerccio da liberdade (poltica, religiosa, sexual, de uso de drogas etc.), em benefcio de uma causa como a
nacional ou pela preservao dos animais. O que d sentido  ao  sua fidelidade aos valores que a guiaram.
    p. 116

        A conduta pode tambm no ter qualquer motivao racional, como  o caso daquelas de tipo afetivo e de tipo tradicional. Diz-se que o
sujeito age de modo afetivo quando sua ao  inspirada em suas emoes imediatas - vingana, desespero, admirao, orgulho, medo, inveja,
entusiasmo, desejo, compaixo, gosto esttico ou alimentar etc. - sem considerao de meios ou de fins a atingir. Uma ao afetiva  aquela
orientada pelo cime, pela raiva ou por diversas outras paixes. Aes desse tipo podem ter resultados no pretendidos, desastrosos ou
magnficos como, por exemplo, magoar a quem se ama, destruir algo precioso ou produzir uma obra de arte, j que o agente no se importa
com os resultados ou conseqncias de sua conduta. A ao afetiva distingue-se da racional orientada por valores pelo fato que, nesta, o
sujeito "elabora conscientemente os pontos de direo ltimos da atividade e se orienta segundo estes de maneira conseqente", portanto
age racionalmente. Podem constituir aes afetivas: escrever poemas erticos ou amorosos, torcer por um time de futebol, levar os filhos a
shows de cantores adolescentes, desde que elas se orientem pelos sentimentos das pessoas que as realizam.
        Quando hbitos e costumes arraigados levam a que se aja em funo deles, ou como sempre se fez, em reao a estmulos habituais,
estamos diante da ao tradicional. Tal  o caso do batismo dos filhos realizado por pais pouco comprometidos com a religio, o beijo na mo
durante o pedido de bno, o cumprimento semi-automtico entre pessoas que se cruzam no ambiente de trabalho ou o acender um cigarro aps um
caf. Weber compara os estmulos que levam  ao tradicional aos que produzem a imitao reativa, j que  difcil conhecer at que ponto o
agente tem conscincia de seu sentido. Assim como a ao estritamente afetiva, a estritamente tradicional situa-se no limite ou alm do que
Weber considera ao orientada de maneira significativamente consciente.
        Podemos utilizar essas quatro categorias para analisar o sentido de um sem-nmero de condutas, tanto daquelas praticadas, como das que o
agente se recusa a executar ou deixa de praticar: estudar, dar esmolas, comprar, casar, participar de uma associao, fumar, presentear,
socorrer, castigar, comer certos alimentos, assistir  televiso, ir  missa,  guerra etc. O socilogo procura compreender o sentido que um
sujeito atribui  sua ao e seu significado. H que se ter claro, porm, o alerta de Weber de que "muito raras vezes a ao, especialmente
a social, est exclusivamente orientada por um ou outro destes tipos" que no passam de modelos conceituais puros, o que quer dizer que em
geral as aes sofrem mais de um desses condicionamentos, embora possam ser classificadas com base naquele que, no caso,  o predominante.
         necessrio distinguir uma ao propriamente social de dois modos de conduta simplesmente reativos, sem carter social e cujo sentido no
se conecta significativamente s aes do outro, a saber: a) a ao homognea
    p. 117

- aquela executada por muitas pessoas simultaneamente, como proteger-se contra uma calamidade natural, ou aquelas reaes uniformes de massa criadas pela situao
de classe quando, por exemplo, todos os empresrios de um setor aumentam automaticamente seus preos a partir do anncio pelo governo de que ser criado um imposto
especfico; b) a ao proveniente de uma imitao ou praticada sob a influncia da ou condicionada pela conduta de outros ou por uma massa (uma multido, a imprensa
e a opinio pblica seriam massas dispersas). Na medida em que o sujeito no orientou causalmente sua conduta pelo comportamento de outros j que ele apenas imita,
no se estabelece uma relao de sentido, o que coloca esse tipo de ao fora do campo de interesse da Sociologia compreensiva.

RELAO- SOCIAL

        Uma conduta plural (de vrios), reciprocamente orientada, dotada de contedos significativos que descansam na probabilidade de que se
agir socialmente de um certo modo, constitui o que Weber denomina relao social. Podemos dizer que relao social  a probabilidade de
que uma forma determinada de conduta social tenha, em algum momento, seu sentido partilhado pelos diversos agentes numa sociedade qualquer. Como
exemplos de relaes sociais temos as de hostilidade, de amizade, as trocas comerciais, a concorrncia econmica, as relaes erticas e
polticas. Em cada uma delas, as pessoas envolvidas percebem o significado, partilham o sentido das aes dado pelas demais pessoas.
Como membros da sociedade moderna, todos ns somos capazes de entender o gesto de uma pessoa que pega o seu carto de crdito para pagar uma
conta. O mesmo no aconteceria, por exemplo, com um ndio ainda distante do contato com a nossa sociedade, pois ele seria incapaz de partilhar,
numa primeira aproximao, o sentido de vrios dos nossos atos.
        Quando, ao agir, cada um de dois ou mais indivduos orienta sua conduta levando em conta a probabilidade de que o outro ou os outros
agiro socialmente de um modo que corresponde s expectativas do primeiro agente, estamos diante de uma relao social. O gerente do
supermercado solicita a um empacotador que atenda um cliente. Temos aqui trs agentes cujas aes orientam-se por referncias recprocas, cada um
dos quais contando com a probabilidade de que o outro ter uma conduta dotada de sentido e sobre a qual existem socialmente expectativas
correntes. Tomemos o exemplo desde o ponto de vista da conduta e expectativas de um desses agentes. O cliente, ao fazer suas compras,
    p. 118

j conta tanto com a possibilidade de ser auxiliado pelo empacotador, assim como tem conhecimento de que, se necessrio, poder recorrer ao
gerente para que este faa com que o funcionrio trabalhe adequadamente. Substituindo-os por um cidado, um assaltante e um policial, ou por um
casal, ou por pais e filhos, temos outros tipos de relao social que se fundam em probabilidades e expectativas do comportamento de cada um dos
participantes. O contedo dessas relaes  diverso: prestao de servios, conflito, poder, amor, respeito etc. e existe nelas um carter
recproco, embora essa reciprocidade no se encontre necessariamente no contedo de sentido que cada agente lhe atribui mas na capacidade de
cada um compreender o sentido da ao dos outros. Um cidado pode temer o assaltante que, embora reconhea os sofrimentos de sua vtima, 
indiferente a eles. O empacotador pode ser solidrio com o cliente e este trat-lo friamente, um parceiro pode sentir paixo pelo outro que
abusa da generosidade advinda de tal sentimento. O carter recproco da relao social no significa uma atuao do mesmo tipo por parte de cada
um dos agentes envolvidos. Apenas quer dizer que uns e outros partilham a compreenso do sentido das aes, todos sabem do que se trata, mesmo
que no haja correspondncia. Sinais de amor podem ser compreendidos, notados, sem que este amor seja correspondido. O que caracteriza a
relao social  que o sentido das aes sociais a ela associadas pode ser (mais ou menos claramente) compreendido pelos diversos agentes de
uma sociedade. Alm disso, os contedos atribudos s relaes tampouco so permanentes, seja totalmente ou em parte, assim como as prprias
relaes entre agentes, as quais podem ser transitrias, duradouras, casuais, repetir-se etc.
        Cada indivduo, ao envolver-se nessas ou em quaisquer relaes sociais, toma por referncia certas expectativas que possui da ao do
outro (ou outros) aos quais sua conduta se refere. O vendedor que aceita um cheque do comprador, o desportista que atua com lealdade com o
adversrio e o poltico que prope a seus futuros eleitores a execuo de certos atos esto se baseando em probabilidades esperadas da conduta
daqueles que so o alvo de sua ao. Em suma: as relaes sociais so os contedos significativos atribudos por aqueles que agem tomando outro
ou outros como referncia - conflito, piedade, concorrncia, fidelidade, desejo sexual etc. - e as condutas de uns e de outros orientam-se por
esse sentido embora no tenham que ter reciprocidade no que diz respeito ao contedo.
        Tomemos uma ilustrao. Ana notou que Beto tem interesse nela: vrios de seus atos assim o indicam. Ele a convida para sair,
concede-lhe muita ateno. Mas Ana no tem inteno de namorar Beto e procura faz-lo entender isso atravs de recusas polidas. Conquanto
ambos guiem suas aes por expectativas da ao do outro, nesse caso o contedo de ambas no  recproco, apesar de totalmente compreensvel
para cada uma das partes. Da mesma forma, somos capazes de entender o sentido de um gesto violento numa agresso, e  isto o que nos leva a
reagir de acordo com ele,
    p. 119

mesmo que no haja reciprocidade de nossa parte. O que importa para identificar relaes sociais como tais  que estejam inseridas em e
reguladas por expectativas recprocas quanto ao seu significado. Os agentes podem conduzir-se como colegas, inimigos, parentes, comprador e
vendedor, criminoso e vtima, admirador e astro, indiferente e apaixonado, patro e empregado, ou dentro de uma infinidade de
possibilidades, desde que todas elas incluam uma referncia comum ao sentido partilhado. Uma relao social pode ser tambm efmera ou
durvel, isto , pode ser interrompida, ser ou no persistente e mesmo mudar radicalmente de sentido durante o seu curso, passando, por
exemplo, de amistosa a hostil, de desinteressada a solidria etc. Weber chama o Estado, a Igreja ou o casamento de pretensas estruturas sociais
que s existem de fato enquanto houver a probabilidade de que se dem as relaes sociais dotadas de contedos significativos que as constituem.
Ou seja, de que pessoas nessa sociedade achem que elevam se casar, pagar impostos e votar ou assistir s cerimnias religiosas. Assim, do ponto
de vista sociolgico, um matrimnio, uma corporao ou mesmo um Estado deixam de existir "desde que desaparea a probabilidade de que a se
desenvolvam determinadas espcies de atividades sociais orientadas significativamente". 15. Weber apresenta uma interpretao inovadora a
respeito do que  chamado de instituio, ou do que chama de "personalidades coletivas". Segundo ele, formaes sociais como o
Estado, cooperativas, sociedades annimas etc.,

            no so outra coisa que desenvolvimentos e entrelaamentos de aes especficas de pessoas individuais,
            j que apenas elas podem ser sujeitos de uma ao orientada pelo seu sentido. Apesar disto, a Sociologia
            no pode ignorar, mesmo para seus prprios fins, aquelas estruturas sociais de natureza coletiva que so
            instrumentos de outras maneiras de colocar-se diante da realidade. (...) Para a Sociologia, a realidade
            Estado no se compe necessariamente de seus elementos jurdicos, ou mais precisamente, no deriva deles.
            Em todo caso no existe para ela uma personalidade coletiva em ao. Quando fala do Estado, da nao, da
            sociedade annima, da famlia, de uma corporao militar ou de qualquer outra formao semelhante,
            refere-se unicamente ao desenvolvimento, numa forma determinada, da ao social de uns tantos indivduos... 16

        Tanto mais racionais sejam as relaes sociais, mais facilmente podero ser expressas sob a forma de normas, seja por meio de um
contrato ou de um acordo, como no caso de relaes de contedo econmico ou jurdico, da regulamentao das aes de governos, de scios etc.
Pode-se deduzir que isso se torna mais difcil quando se trata de uma relao cujo principal fundamento seja ertico ou valorativo. Na
realidade, as relaes podem ter ambos contedos, enquanto definies ou conceitos so tipos ideais.
    p. 120

        Weber refere-se tambm ao contedo comunitrio de uma relao social, fundado num sentimento subjetivo (afetivo ou tradicional) de
pertena mtua, que se d entre as partes envolvidas e com base no qual a ao est reciprocamente referida, de modo semelhante ao que costuma
ocorrer entre os membros de uma famlia, estamento, grupo religioso, escola, torcedores de um time ou entre amantes. J a relao associativa
apia-se num acordo de interesses motivado racionalmente (seja com base em fins ou valores), como o que se d entre os participantes de um
contrato matrimonial, de um sindicato, do mercado livre e de associaes religiosas ou como as Organizaes No-Governamentais. Podemos
identificar, na maioria das relaes sociais, elementos comunitrios e societrios, assim como h motivos afetivos, tradicionais, religiosos e
racionais mesclados em quase todas as aes. Numa igreja ou associao religiosa podemos encontrar claramente tanto o contedo comunitrio
quanto o acordo de interesses racionais. Se o sentimento de pertena a uma comunidade - a comunho -  a base da vida religiosa para o
praticante leigo, o trabalho profissional dos sacerdotes apia-se em uma organizao racional.
        Condutas podem ser regulares, seja porque as mesmas pessoas as repetem ou porque muitos o fazem dando a elas o mesmo sentido, e isto
interessa  Sociologia. Se tal regularidade acontece devido ao mero hbito, trata-se de um uso; quando duradoura, torna-se um costume; e 
determinada por uma situao de interesses quando se reitera unicamente em funo da orientao racional da ao. A moda  um uso que se
contrape, graas ao seu carter de novidade, ao costume, mas tambm pode resultar de convenes impostas por um estamento em busca de
garantir seu prestgio, como a distino que se expressa no consumo da alta costura. O processo de racionalizao da conduta pode exigir que o
agente tome conscincia e rejeite sua prpria submisso  regularidade imposta pelo costume. Os agentes podem orientar-se pelas suas crenas na
validezde uma ordem que lhes apresenta obrigaes ou modelos de conduta (como  o caso dos que vo  escola, ao templo ou ao trabalho) Ao
adquirir o prestgio da legitimidade, ou seja, quando a ordem se torna vlida para um ou mais agentes, "aumenta a probabilidade de que a ao
se oriente por ela em um grau considervel", tanto mais quanto mais ampla for a sua validez. 17. A garantia da validade de uma ordem pode se
dar com base na "probabilidade de que, dentro de um determinado crculo de homens, uma conduta discordante tropear com uma relativa reprovao
geral e sensvel na prtica" ou "na probabilidade de coao fsica ou psquica exercida por um quadro de indivduos institudos com a misso
de obrigar  observncia dessa ordem ou de castigar sua transgresso". No primeiro caso, a ordem chama-se conveno e, no segundo, direito. 19
    p. 121

DIVISO DO PODER NA COMUNIDADE: CLASSES, ESTAMENTOS E PARTIDOS

        Um dos problemas que se coloca, por excelncia,  Sociologia:  o das diferenas sociais. Na concepo weberiana, elas podem ter vrios
princpios explicativos. O critrio de classificao mais relevante  dado pela dominncia, em dada unidade histrica, de uma forma de
organizao, ou pelo peso particular que cada uma das diversas esferas da vida coletiva possa ter. Se, numa sociedade como a chinesa
tradicional, a posio social  fixada pelas qualificaes para a ocupao de cargos mais do que pela riqueza, nas sociedades capitalistas
modernas a propriedade de certos bens e as possibilidades de us-los no mercado esto entre os determinantes essenciais da posio de seus
membros. Assim, o predomnio da esfera econmica nas sociedades capitalistas tornou a riqueza e as propriedades os principais
fundamentos da posio social, enquanto nas sociedades feudais europias valorizava-se a origem, ou linhagem - fatores que so relevantes quando
a esfera predominante  a social - como principal elemento de classificao.
        A concepo de sociedade construda por Weber implica numa separao de esferas - como a econmica, a religiosa, a poltica, a
jurdica, a social, a cultural - cada uma delas com lgicas particulares de funcionamento. O agente individual  a unidade da anlise
sociolgica, a nica entidade capaz de conferir significado s suas aes. Ao agir socialmente tendo em vista a validez de uma determinada
ordem cujo sentido  compartilhado por aqueles que dela participam, ele o faz de acordo com os padres que so especficos de tal ordem e,
assim, articula em sua ao sentidos referenciados a esferas distintas. Isto  evidenciado nos achados de Weber sobre a conduta do protestante,
mais especificamente o calvinista, cuja ao resulta de uma combinao, com pesos diferenciados, de um sentido puramente econmico, voltado para
o mercado, e outro de carter religioso, orientado para procedimentos destinados  salvao de sua alma. Temos aqui, portanto, um conjunto de
condutas ascticas referidas a ordens que costumam ser conflitivas do ponto de vista tico - a econmica e a religiosa - mas que tiveram,
entre seus resultados, a poupana e a acumulao.  nas aes e no sentido que o agente lhes confere que se atualiza a lgica de cada uma
das esferas da vida em sociedade, e  a partir do contexto significante da ordem na qual uma ao individual est inserida que poderemos
compreender sociologicamente seu significado. Assim, "a forma pela qual a honra social  distribuda dentro de uma comunidade, entre grupos
tpicos pertencentes a ela pode ser chamada de ordem social". 19 Se existe a probabilidade de alguns homens considerarem vlidas
    p. 122

as normas do Direito, eles estaro orientando sua conduta de acordo com a ordem jurdica. Quando, por exemplo, o sentido de uma relao social 
dado pela ordem econmica, isto , pela distribuio de servios e de propriedades, sua referncia fundamental  o mercado. 20. Cada pessoa
pode participar, ao mesmo tempo, de diferentes esferas, como: ser membro de um partido, desfrutar de um certo grau de prestgio, ter uma
propriedade, praticar uma religio... e da infinidade real das aes individuais  que devem extrair-se as regularidades do comportamento
humano. 21
        Partindo, portanto, do princpio geral de que s as conscincias individuais so capazes de dar sentido  ao social e que tal sentido
pode ser partilhado por uma multiplicidade de indivduos, Weber estabeleceu conceitos referentes ao plano coletivo - a) classes, b)
estamentos ou grupos de status e c) partidos - que nos permitem entender os mecanismos diferenciados de distribuio de poder, o qual pode
assumir a forma de riqueza, de distino ou do prprio poder poltico, num sentido estrito.
        Pessoas que tm a mesma posio no que se refere  propriedade de bens ou de habilitaes encontram-se numa determinada situao de
classe. Nesse contexto, as aes sociais vo ter a sua racionalidade e o seu significado definidos pelo mercado no qual os indivduos lutam para
adquirir poder econmico.  nessa esfera que Weber identifica os elementos para elaborar seu conceito de classes. Diz ele:

            Falamos de uma classe quando. 1)  comum a um certo nmero de pessoas um componente causal especfico
            de suas probabilidades de existncia na medida em que 2) tal componente esteja representado exclusivamente
            por interesses lucrativos e de posse de bens 3) em condies determinadas pelo mercado (de bens ou de
            trabalho)." Como exemplos de classes, cita os proprietrios de terras ou de escravos, os industriais, os
            trabalhadores qualificados e os profissionais liberais - todos os quais constituiriam grupos
            positivamente privilegiados devido  sua situao no mercado, isto , a de possuidores de algum tipo de
            propriedade que tem valor (moeda, terra, mquinas, conhecimentos). Os trabalhadores no-qualificados,
            ao contrrio, formariam uma classe negativamente privilegiada, mas  entre eles que se verificam com mais
            freqncia aes comunitrias, que envolvem o sentimento de pertena mtua. Em cada caso, o conjunto
            especfico de agentes orienta sua ao num sentido que  definido pela sua posio/situao no mercado. 23.
             o sentido comum (e fundado em determinadas probabilidades) dessas aes orientadas para o mercado
            (de trabalho, de produtos, de empreendimentos) que faz de cada conjunto de agentes uma classe. 24

        Mas o significado das aes tambm pode ser definido segundo critrios vigentes na ordem social - que  onde se opera a luta por honra e
    p. 123

prestgio e se d a sua distribuio. Aqui, o contedo das relaes sociais  baseado em regras de pertena a grupos de status ou estamentos. Logo, outra  a lgica
de funcionamento que confere racionalidade a essa esfera:

            Em oposio s classes, os estamentos so normalmente comunidades, ainda
            que, com freqncia, de carter amorfo. Em oposio  situao de classe
            condicionada por motivos puramente econmicos, chamaremos situao
            estamental a todo componente tpico do destino vital humano condicionado
            por uma estima especfica - positiva ou negativa - da honra adscrita a
            alguma qualidade comum a muitas pessoas (...) Quanto ao seu contedo, a
            honra correspondente ao estamento  normalmente expressa, antes de tudo,
            na exigncia de um modo de vida determinado para todos os que queiram
            pertencer ao seu crculo. 25

        Weber cita os exemplos do reconhecimento social de que desfrutavam, nos Estados Unidos, os descendentes das Primeiras Famlias
da Virgnia, da princesa indgena Pocahontas, dos Pilgrim Fathers e dos Knickerbocker 26 o qual  comparvel, dentro de certos limites, ao
prestgio que pretendem as chamadas tradicionais famlias de algumas regies brasileiras. Os estamentos (ou estados) expressam sua honra por
meio de um estilo de vida tpico, constitudo pelo consumo de certos bens, por determinados comportamentos e modos de expresso, pela
celebrao de matrimnios endogmicos, uso de um tipo especfico de vestimentas etc. Ligadas a essas expectativas, existem "limitaes 
vida social, isto  (...) especialmente no que se refere ao matrimnio, at que o crculo assim formado alcance o maior isolamento possvel", 27
assim como a estigmatizao de algumas atividades como o trabalho manual e at industrial. Os estamentos garantem a validez das condutas
desejveis por meio de convenes, atravs das quais expressa-se uma desaprovao geral relativamente a comportamentos discordantes. A
validez de uma ordem manifesta-se no fato de que aquele que a transgride  obrigado a ocultar essa violao.
        Enquanto as camadas estamentais socialmente superiores tendem a basear sua posio numa qualidade especial e intrnseca prpria, por
exemplo, o sangue, os estamentos negativamente privilegiados podem afirmar-se com base na crena em alguma misso que lhes cabe cumprir e,
assim, sustentam sua honra e sentimento comunitrio, como  o caso dos povos que se dizem enviados de deus ou portadores de uma mensagem.
Qualquer que seja o seu carter, os estamentos podem ser fechados (por descendncia) ou abertos.
        Ora, uma casta , sem dvida, um estamento fechado, pois todas as obrigaes e barreiras que a participao num estamento encerra
existem numa casta, na qual so intensificadas em grau extremo. O Ocidente conheceu estados legalmente fechados, no sentido de que o
inter-matrimnio com no-membros do grupo estava ausente. (...)
        A Europa ainda reconhece
    p. 124

essas barreiras de estamento para a alta nobreza. A Amrica admite-a entre brancos e negros (inclusive todos os sangues mistos) nos estados
sulistas da Unio. Mas na Amrica tais barreiras significam que o casamento  absoluta e legalmente inadmissvel,  parte o fato de que
tal intermatrimnio provocaria um boicote social 28
        Essa forma de estratificao j foi mais significativa no passado e pode chocar-se com a racionalidade presente na esfera
econmica dominante na sociedade capitalista. Isto significa que, nas sociedades ocidentais contemporneas, embora a situao de status no
esteja determinada pela mera posse de bens, a longo prazo a propriedade torna-se reconhecida como uma qualificao estamental. porque a prpria
possibilidade de manter um estilo de vida distintivo exige uma certa disponibilidade de recursos a qual, , por sua vez, garantida por uma
participao regular no poder econmico. Em outras palavras, uma famlia economicamente decadente tende a perder seu status. De toda maneira,
"enquanto as classes tm seu verdadeiro solo ptrio na ordem econmica, os estamentos o tm na ordem social e, portanto, na esfera da
distribuio de honras". 29. Mas se no plano histrico a importncia dos estamentos concebidos na forma clssica foi reduzida, na Sociologia
contempornea este conceito tem sido utilizado de modo amplo, em virtude de que, atravs dele, podem explicar-se os mecanismos de imposio de
uma ordem social.
         por conceber a sociedade dividida em instncias diferenciadas que Weber distingue entre os conceitos de classe - fenmeno puramente
econmico e definido na esfera do mercado - de conscincia de classe - adscrito  esfera social. Weber v na conscincia de classe um carter
contingente, ao contrrio de Marx, que postula uma correlao necessria entre esses dois planos. Pertencer a uma determinada classe no implica
em possuir qualquer sentimento de comunidade ou conscincia de interesses ou direitos. Isso acontece tipicamente com os membros de um
estamento, e estes no so necessariamente membros de uma mesma classe. No caso das classes,  possvel dar-se uma ao homognea ou de massa, a
qual pode ou no vir a se transformar numa ao comunitria, isto , aquela inspirada pelos sentimentos (afetivos ou tradicionais) dos seus
membros de pertencerem a um todo. No entanto, os membros de uma classe participam tipicamente de outro tipo de ao: a ao societria, baseada
em interesses racionalmente motivados. A partir das formas de ao social que os componentes de uma classe so capazes de empreender
enquanto grupo, torna-se vivel a compreenso do sentido das greves ou da constituio dos fundos de ajuda mtua entre trabalhadores, mas
tambm o da associao entre empresrios. O significado das condutas no se encontra em possveis transformaes estruturais da sociedade ou na
manuteno do status quo... mas pode ser essencialmente racional com respeito a fins.
        Nas duas situaes, aquelas aes remetem ao mercado: a seu modo de
    p. 125

funcionamento,  configurao especfica de interesses que nele se desenha e  maneira como os diversos agentes nele se posicionam.

        Uma das distines entre estamentos e classes refere-se, portanto,  necessria existncia, nos primeiros, de um sentimento de
pertena, j que as classes so apenas "bases possveis (e freqentes) de uma ao comunitria". 30. Os membros de grupos de status esto de
acordo com a manuteno desse carter de fechamento aos demais (os no-membros), isto , de garantia de exclusividade, de privilgios ou
monoplios, sempre baseados em algum critrio socialmente legtimo de excluso. Participar de um estamento quer dizer, ento, viver de acordo
com determinadas regras que diferenciam os componentes deste grupo dos de outros.  esse sentido de distino - ligado  obteno e/ou adoo
de estilos de vida, maneiras, tradies, modas, diplomas, etiqueta, lugar de residncia ou  estigmatizao de certos modos de aquisio ou
de estabelecimento de parcerias matrimoniais etc. - que orienta a conduta dos agentes que o constituem. Entre as aes comunais mais
freqentes nesse caso devem destacar-se as prticas de excluso e afastamento dos no-membros, as quais reforam os sentimentos de
pertena e de distino. Ao contrrio,

            o membro e os processos econmicos no conhecem nenhuma acepo de pessoas. Os interesses materiais dominam
            ento sobre a pessoa. Nada sabe de honra. Ao contrrio dele, a ordem estamental significa justamente o
            inverso: uma organizao social de acordo com a honra e um modo de viver segundo as normas estamentais.
            Tal ordem , pois, ameaada em sua prpria raiz quando a mera aquisio econmica e o poder puramente
            econmico, que revelam claramente sua origem externa, podem outorgar a mesma honra a quem os tenha
            conseguido, ou podem inclusive (...) outorgar-lhes uma honra superior em virtude do xito, que os membros
            de um estamento pretendem desfrutar em virtude de seu modo de vida. Por isso os membros de toda organizao
            estamental reagem com rigor contra as pretenses do mero lucro econmico e quase sempre com tanto maior
            aspereza quanto mais ameaados se sentem. 31

        Mesmo que, tendencialmente, estamentos positivamente privilegiados superponham-se a classes tambm privilegiadas, isto no
ocorre sempre. Um exemplo clssico  o da aristocracia feudal europia que, embora economicamente decadente, continuava a ser socialmente
valorizada em oposio aos ricos, mas nem sempre refinados, membros da burguesia enriquecida. Uma ilustrao contempornea desse tipo de
comportamento distintivo  aquele adotado pelos freqentadores da chamada alta sociedade em relao aos pejorativamente chamados novos
ricos ou emergentes, os que no tiveram bero e, em certos casos, os plebeus. Enfim,

            o estamento  uma qualificao em funo de honras sociais ou da falta
            destas, sendo condicionado principalmente, bem como expresso, atravs
    p. 126

            de um estilo de vida especfico. A honra social pode resultar
            diretamente de ' uma situao de classe sendo, na maioria das vezes,
            determinada pela mdia da situao de classe dos membros do estamento.
            Isso, porm, no ocorre necessariamente. A situao estamental, por sua
            vez, influi na situao de classe, pelo fato de que o estilo de vida
            exigido pelos estamentos leva-os a preferir tipos especiais de
            propriedade ou empresas lucrativas e rejeitar outras. 32

        Embora reconhea na definio seguinte uma simplificao excessiva, Weber diz: "As classes se organizam segundo as relaes de produo e aquisio de bens, 
os estamentos,
segundo princpios de seu consumo de bens nas diversas formas especficas de sua maneira de viver."33 j t Si

            As castas seriam, por fim, aqueles grupos de status fechados cujos
            privilgios e distines esto desigualmente garantidos por meio de
            leis, convenes e rituais. Isso se d geralmente quando h diferenas
            tnicas, como no caso dos povos prias, podendo ocorrer repulsa e
            desprezo mtuos, segregaes rgidas em termos ocupacionais e s vezes
            at de qualquer tipo de relacionamento social como compartilhar
            refeies e freqentar certos locais. 3"1 Costuma haver regras de
            endogamia, de comensalidade e de dieta. Os contatos fsicos com membros
            de castas inferiores podem contaminar aqueles das castas superiores e s
            vezes tal impureza deve ser expiada por meio de um ato religioso. Por
            sua estrutura, as sociedades de castas implicam num tipo de subordinao
            entre grupos com maiores ou menores privilgios. Mas Weber aponta para a
            existncia, nesses grupos tnicos oprimidos, de vigorosos sentimentos de
            uma honra e dignidade prpria superiores, apesar de e talvez por eles se
            encontrarem em uma situao inferior, ou mesmo de serem alvo de desprezo
            e rejeio por parte dos demais grupos sociais. Muitas vezes as castas
            vinculam-se a determinados ofcios e sustentam uma tica profissional
            tradicional de carter religioso, vocacional, fundada na perfeio do
            produto, portanto distante "de toda idia de racionalizao do modo de
            produo que se encontra na base de toda tcnica racional moderna -
            sistematizao da explorao para convert-la em uma economia lucrativa
            racional - de todo capitalismo moderno". 35

        Enfim, as diferenas que correspondem, no interior da ordem econmica, s classes e, no da ordem social ou da distribuio da honra, aos estamentos, geram 
na esfera
do poder social os partidos, cuja ao  tipicamente racional: buscar influir sobre a direo que toma uma associao ou uma comunidade. O partido " uma organizao
que luta especificamente pelo domnio" embora s adquira carter poltico se puder lanar mo da coao fsica ou de sua ameaa.

            Em oposio  ao comunitria exercida pelas classes e pelos estamentos (...) a ao comunitria
            dos partidos contm sempre uma socializao, pois sempre se dirige a um fim metodicamente
            estabelecido, tanto se se trata de
    p. 127

            um fim objetivo - a realizao de um programa com propsitos ideais ou materiais - como de uma
            finalidade pessoal - prebendas, poder e, como conseqncia disso, honras para seus chefes
            e sequazes ou ambos de uma s vez. (...) Por isso, s podem existir partidos dentro de comunidades
            de algum modo socializadas, isto , de comunidades que tm uma ordem racional e um aparato pessoal
            dispostos a assegur-la, pois a finalidade dos partidos con.si.ste precisamente em influir sobre
            tal aparato e, onde seja possvel, ocup-lo com seus seguidores. 36

A DOMINAO

        Uma das questes colocadas  Sociologia  a que se refere  persistncia das relaes sociais. O que pode levar a que o contedo
dessas relaes ou elas prprias se mantenham? Dito de outro modo, o que faz com que os indivduos dem s suas aes um sentido determinado que
perdure com regularidade no tempo e no espao? Qual  a base da regularidade nas aes das pessoas se o que lhes d sentido no  uma
instituio abstrata? Uma vez que Weber entende que o social constri-se a partir das aes individuais, cria-se um problema terico: como 
possvel a continuidade da vida social? A resposta para tais questes encontra-se no fundamento da organizao social, chave do verdadeiro
problema sociolgico: a dominao ou a produo da legitimidade, da submisso de um grupo a um mandato.  fundamental ento distinguir os
conceitos de poder e dominao.
        O conceito de poder , do ponto de vista sociolgico, amorfo j que "significa a probabilidade de impor a prpria vontade dentro de uma
relao social, mesmo contra toda a resistncia e qualquer que seja o fundamento dessa probabilidade". 37 Portanto, no se limita a nenhuma
circunstncia social especfica, dado que a imposio da vontade de algum pode ocorrer em inmeras situaes.
        Os meios utilizados para alcanar o poder podem ser muito diversos, desde o emprego da simples violncia at a propaganda e o
sufrgio por procedimentos rudes ou delicados: dinheiro, influncia social, poder da palavra, sugesto e engano grosseiro, ttica mais ou
menos hbil de obstruo dentro das assemblias parlamentares. 38. A probabilidade de encontrar obedincia dentro de um grupo a um certo
mandato torna os conceitos de dominao e de autoridade de interesse para a Sociologia j que possibilitam a explicao da regularidade do
contedo de aes e das relaes sociais. Enquanto a disciplina deve-se 
    p. 128

            obedincia habitual, por exemplo por parte das massas ou da famlia, "sem resistncia nem crtica", a
            dominao  um estado de coisas pelo qual uma vontade manifesta (mandato) do dominador ou dos dominadores
            influi sobre os atos de outros (do dominado ou dos dominados), de tal modo que, em um grau socialmente
            relevante, estes atos tm lugar como se os dominados tivessem adotado por si mesmos e como mxima de sua
            ao o contedo do mandato (obedincia). 39

        A dominao legtima pode justificar-se por trs motivos de submisso ou princpios de autoridade - racionais, tradicionais ou afetivos.

            Pode depender diretamente de uma constelao de interesses, ou seja, de consideraes utilitrias de vantagens
            e inconvenientes por parte daquele que obedece. Pode tambm depender de mero costume, do hbito cego
            de um comportamento inveterado, ou pode fundar-se, finalmente, no puro afeto, na mera inclinao pessoal
            do sdito. No obstante, a dominao que repousasse apenas nesses fundamentos seria relativamente instvel.
            Nas relaes entre dominantes e dominados, por outro lado, a dominao costuma apoiar-se internamente em
            bases jurdicas, nas quais se funda a sua legitimidade, e o abalo dessa crena na legitimidade costuma
            acarretar conseqncias de grande alcance. Em forma totalmente pura, as bases de legitimidade da dominao
            so somente trs, cada uma das quais se acha entrelaada - no tipo puro - com uma estrutura sociolgica
            fundamentalmente diversa do quadro e dos meios administrativos. 40

        So, portanto, trs os tipos de dominao legtima: a legal, a tradicional e a carismtica. As formas bsicas de legitimao justificam-se com base em distintas
fontes de autoridade,

            a do "ontem eterno", isto , dos mores santificados pelo reconhecimento
            inimaginavelmente antigo e da orientao habitual para o conformismo. 
            o domnio tradicional exercido pelo patriarca e pelo prncipe
            patrimonial de outrora. (...) A do dom da graa (carisma) extraordinrio
            e pessoal, a dedicao absolutamente pessoal e a confiana pessoal na
                revelao, herosmo ou outras qualidades da liderana individual.  o
            domnio carismtico exercido pelo profeta ou - no campo da poltica -
            pelo senhor de guerra eleito, pelo governante plebiscitrio, o grande
            demagogo ou o lder do partido poltico. Finalmente, h o domnio da
            legalidade, em virtude da f na validade do estatuto legal e da
            competncia funcional, baseada em regras racionalmente criadas. Nesse
            caso, espera-se o cumprimento das obrigaes estatutrias.  o domnio
            exercido pelo moderno servidor do Estado e por todos os portadores do
            poder que, sob este aspecto, a ele se assemelham. 41
    p. 129

        A essncia da poltica, dos mecanismos do mercado e da vida social  a luta; seja ela "o duelo entre cavaleiros regulado convencionalmente, a concorrncia 
sem limites,
a disputa ertica sem regulaes ou a competio esportiva estritamente regulada". O contedo desse tipo de relao social "orienta-se pelo propsito de impor a
prpria vontade contra a resistncia da outra ou das outras partes". 42. Os homens lutam por seus interesses no mercado assim como, para participar no poder ou influir
na sua distribuio, seja entre Estados ou entre grupos dentro de um Estado, "ou mesmo com a finalidade de desfrutar a sensao do prestgio produzida pelo poder". 
43
O homem no ambiciona o poder apenas para enriquecer economicamente. Muito freqentemente, aspiram-se s honras sociais que ele produz. 44 Em suma, classes, estamentos
e partidos so fenmenos de distribuio de poder dentro da comunidade e manifestaes organizadas da luta cotidiana que caracteriza a existncia humana.
        H que se atentar para o fato de que as categorias de luta e seleo, que poderiam dar margem a uma interpretao darwinista da Sociologia weberiana, no 
se referem
 luta dos indivduos por suas probabilidades de vida, mas pela seleo das relaes sociais, por impedi-las, estorv-las, favorec-las ou organiz-las num certo
padro que convm ou atende aos valores ou interesses e crenas daqueles que tratam de imp-los.
        A vitria daqueles possuidores de qualidades - no importa se baseadas na fora, na devoo, na originalidade, na tcnica demaggica, na dissimulao etc. 
- as quais
aumentam suas probabilidades de entrar numa relao social (seja na posio de funcionrio, mestre de obras, diretorgeral, empresrio, profeta, cnjuge ou deputado)
 chamada de seleo social. Nesse quadro, a realidade social aparece como um complexo de estruturas de dominao. A possibilidade de dominar  a de dar aos valores,
ao contedo das relaes sociais, o sentido que interessa ao agente ou agentes em luta. O esprito do capitalismo, por exemplo, "teve que lutar por sua supremacia
contra todo um mundo de foras hostis". Mas

            para que um modo de vida to bem adaptado s peculiaridades do
            capitalismo pudesse ter sido selecionado, isto , pudesse vir a dominar
            sobre os outros, ele teve de se originar em alguma parte, e no apareceu
            em indivduos isolados, mas como um modo de vida comum a grupos inteiros de homens. 45

        A luta pelo estabelecimento de uma forma de dominao legtima - isto , de definies de contedos considerados vlidos pelos
participantes das relaes sociais - marca a evoluo de cada uma das esferas da vida coletiva em particular e define o contedo das relaes
sociais no seu interior. As atitudes subjetivas de cada indivduo que  parte dessa ordem passam a orientar-se pela crena numa ordem legtima,
a qual acaba por corresponder ao interesse e vontade do dominante. Desse ponto de vista, 
    p. 130

a dominao o que mantm a coeso social, garante a permanncia das relaes sociais e a existncia da prpria sociedade. Ela se manifesta sob diversas formas: a
interpretao da histria de acordo com a viso do grupo dominante numa certa poca, a imposio de normas de etiqueta e de convivncia social consideradas adequadas,
e a organizao de regras para a vida poltica.  importante ressaltar que a dominao no  um fenmeno exclusivo da esfera poltica, mas um elemento essencial
que percorre todas as instncias da vida coletiva.
        Weber interessou-se pelas estruturas de dominao especialmente sob duas formas: a burocrtica e a carismtica. A primeira corresponde ao tipo especificamente 
moderno
de administrao, racionalmente organizado, ao qual tendem as sociedades ocidentais e que pode aplicar-se tanto a empreendimentos econmicos e polticos quanto queles
de natureza religiosa, profissional etc. Nela a legitimidade se estabelece atravs da crena na legalidade das normas estatudas e dos direitos de mando dos que
exercem a autoridade. Em oposio a ela, as duas outras formas (tradicional e carismtica) fundamentam-se em condutas cujos sentidos no so racionais. Em comparao
com a carismtica, a tradicional  mais estvel. Mas, em certas circunstncias, cada uma dessas formas de dominao pode converter-se na outra ou destru-la. As
formas de dominao tradicionais ou racionais podem ser rompidas pelo surgimento do carisma que institui um tipo de dominao que se baseia na "entrega extra-cotidiana
 santidade, herosmo ou exemplaridade de uma pessoa e s regras por ela criadas ou reveladas". 46 Ela representa a possibilidade, no sistema terico weberiano, 
de
rompimento efetivo, apesar de temporrio, das outras formas de dominao. Em algum momento de seu exerccio e mesmo para manter-se, a dominao carismtica tende
a tornar-se tradicional ou racional-legal, o que  chamado de rotinizao ou cotidianizao do carisma.

CARISMA E DESENCANTAMENTO DO MUNDO

        A despeito da dimenso iluminista do seu pensamento, na qual a histria revela-se como um progresso, existe um Weber pessimista que
aponta paia as conseqncias negativas, mas inevitveis, do processo de racionalizao, o que d  sua obra, certamente crtica, um torn de
resignao. 47 Como participante ativo da produo cultural de sua poca, Weber partilhava a viso de que o avano da racionalidade tinha tambm
como resultado uma decadncia geral da cultura clssica, em especial da alem. O sentido em que o processo de evoluo vem ocorrendo  tal que
"limita cada vez mais o alcance das escolhas efetivas abertas aos homens". Estes no s tm poucas alternativas como vo se tornando cada
vez mais medocres.
    p. 131

        Tudo isso  conseqncia do que se chama de desencantamento do mundo. A humanidade partiu de um universo habitado pelo sagrado, pelo
mgico, excepcional e chegou a um mundo racionalizado, material, manipulado pela tcnica e pela cincia. O mundo de deuses e mitos foi
despovoado, sua magia substituda pelo conhecimento cientfico e pelo desenvolvimento de formas de organizao racionais e burocratizadas, e
"os valores ltimos e mais sublimes retiraram-se da vida pblica, seja para o reino transcendental da vida mstica, seja para a fraternidade
das relaes humanas diretas e pessoais". 48 Quais as conseqncias dessa racionalizao operada por meio da cincia e da tcnica? Acaso ela
garantiria que os homens encontraram o caminho para o verdadeiro deus ou para a felicidade? Para o autor, isso no passa de iluso ou de otimismo
ingnuo. Mas ao menos teramos hoje um conhecimento mais claro das nossas prprias condies de vida do que tinham os primitivos?  o
prprio Weber que responde a essas indagaes:

            A menos que seja um fsico, quem anda num bonde no tem idia de como o
            carro se movimenta. E no precisa saber. Basta-lhe poder contar com o
            comportamento do bonde e orientar sua conduta de acordo com essa
            expectativa; mas nada sabe sobre o que  necessrio para produzir o
            bonde ou moviment-lo. O selvagem tem um conhecimento incomparavelmente
            maior sobre suas ferramentas. (...) A crescente intelectualizao e
            racionalizao no indicam, portanto, um conhecimento maior e geral das
            condies sob as quais vivemos. Significa mais alguma coisa, ou seja o
            conhecimento ou crena em que, se quisssemos, poderamos ter esse
            conhecimento a qualquer momento. Significa principalmente, portanto, que
            no h foras misteriosas incalculveis, mas que podemos, em princpio,
            dominar todas as coisas pelo clculo. Isto significa que o mundo foi
            desencantado. J no precisamos recorrer aos meios mgicos para dominar
            ou implorar aos espritos. (...) Os meios tcnicos e os clculos
            realizam o servio. Isto, acima de tudo,  o que significa a
            intelectualizao. 49

        No entanto, a histria no  apenas progresso linear em direo aos mundos burocrticos: h descontinuidades e estados de crise, quando
as "estruturas institucionais consolidadas podem desintegrar-se, e as formas rotineiras de vida mostrar-se insuficientes para dominar um
estado de crescentes tenses, presso ou sofrimento". 50 O agente da ruptura  o lder, heri ou profeta portador do carisma. Esta 

            a qualidade, que passa por extraordinria (cuja origem  condicionada
            magicamente, quer se trate de profetas, feiticeiros, rbitros, chefes de
            caadas ou comandantes militares), de uma personalidade, graas  qual
            esta  considerada possuidora de foras sobrenaturais, sobre-humanas -
            ou pelo menos especificamente extra-cotidianas, no-acessveis a
            qualquer pessoa - ou, ento, tida como enviada de Deus, ou ainda como
            exemplar e, em conseqncia, como chefe, caudilho, guia ou lder. 51
    p. 132

            com a nfase que d ao indivduo extraordinrio, que transcende os
            limites da rotina cotidiana, Weber abre espao para um tipo de liderana
            capaz de produzir mudanas significativas em relaes sociais marcadas
            pela racionalidade - seja na esfera poltica ou na religiosa, num tipo
            de dominao tradicional ou burocrtica. Ao situar-se em oposio aos
            poderes hierocrticos tradicionais dos mgicos ou sacerdotes, o profeta
            ou salvador "colocou seu carisma pessoal contra a dignidade deles,
            consagrada pela tradio, a fim de romper seu poder ou coloc-los a seu
            servio". 52

        Weber considerava que, no mais das vezes, as burocracias dominantes, como a confuciana, caracterizavam-se pelo desprezo a toda religiosidade irracional, 
respeitando-a
apenas no interesse da domesticao das massas. As classes e estamentos (os camponeses, os artesos, os comerciantes, os industriais etc.) relacionam-se de distintas
formas com a religiosidade. O proletariado moderno e as amplas camadas da burguesia moderna, se  que tomam uma atitude religiosa unilinear, costumam sentir indiferena
ou averso pelo religioso. A conscincia de depender do prprio rendimento, diz ele,  enfocada ou completada pela da dependncia a respeito das puras constelaes
sociais, conjunturas econmicas e relaes de poder sancionadas pela lei. Mas

            as camadas mais baixas do proletariado - as mais instveis do ponto de
            vista econmico, de muito difcil acesso s concepes racionais - e as
            camadas da pequena burguesia - em decadncia proletria ou em constante
            indigncia e ameaadas de proletarizao - so presa fcil de misses
            religiosas, sobretudo as que adquirem forma mgica ou mgicoorgistica.
            (...) Sem dvida  mais fcil que prosperem sobre esse solo os elementos
            emotivos do que os racionais de uma tica religiosa. 53

         esse um locus perfeito para o surgimento de lideranas carismticas de cunho religioso ou poltico, de salvadores. Mas apesar de e talvez graas ao seu 
carter
renovador e irracional, o carisma  engolido pela lgica frrea das instituies e obrigatoriamente  rotinizado ou adaptado ao cotidiano, sendo retomado o caminho
da institucionalizao tradicional ou racional.

            O revolucionismo emocional  seguido pela rotina tradicionalista da vida
            cotidiana; o lder cruzado e a prpria f desaparecem ou, o que  ainda
            mais verdadeiro, a f torna-se parte da fraseologia convencional. (...)
            Essa situao  especialmente rpida nas lutas de f, porque elas so
            habitualmente levadas ou inspiradas por lderes autnticos, isto ,
            profetas da revoluo. Nesse caso, tal como ocorre com a mquina de todo
            lder, uma das condies para o xito  a despersonalizao e
            rotinizao, em suma, a proletarizao psquica, no interesse da
            disciplina. Depois de ascenderem ao poder, os seguidores de um cruzado
            habitualmente degeneram muito facilmente numa camada comum de saqueadores. 54
    p. 133

A SOCIOLOGIA DA RELIGIO

        Como nas demais, tambm na ordem religiosa existe luta entre agentes pela imposio do seu domnio, podendo ser operadas mudanas
decisivas tanto no mbito da religio como em outras reas da vida coletiva. Assim como na economia e na poltica, tambm tem-se assistido
na vida religiosa, especialmente em algumas seitas ocidentais, ao estabelecimento de um conjunto de valores conducentes  racionalizao
das condutas dos fiis. Weber considerou este um fenmeno fundamental para a transformao das prticas econmicas e para a constituio da
estrutura das sociedades modernas. Portanto, o estudo da religiosidade  essencial para a compreenso das distintas formas de vida social, assim
como de sua evoluo, sendo a racionalizao das relaes sociais a mais clara tendncia presente nas sociedades ocidentais - questo de grande
centralidade no conflito sociopoltico internacional contemporneo.

            Na medida em que cada religio constitui uma individualidade
            histrica extremamente rica e complexa, uma profecia religiosa pode ter
            diversos contedos. De acordo com o interesse intelectual que o move,
            Weber enfatiza alguns de seus aspectos, orientando-se pelas
            conseqncias prticas da religiosidade em termos das suas
            possibilidades de racionalizao da conduta social. Uma das fontes desse
            racionalismo rigorosamente realista, orientado prtica e politicamente,
            foi a nobreza funcionria militar de Roma, que rejeitava como
            indecorosos o xtase na forma orgistica ou de euforia, assim como a
            dana, a msica e as lutas para treinamento nos ginsios, to apreciados
            pelos gregos. As congregaes crists que sofreram influncia romana no
            incorporaram  religiosidade ou  cultura qualquer elemento irracional,
            e o desenvolvimento das tcnicas de salvao no Ocidente seguiu esse
            caminho. 55

        Em toda religio que descansa numa tcnica de salvao (como o xtase, a embriaguez, a possesso etc.) o renascimento sob o ponto de
vista religioso s parece acessvel  aristocracia dos religiosamente qualificados por meio de uma luta pessoal contra os apetites ou afetos
da rude natureza humana, apoiada em uma tica de virtuosos. Mas a religio pode tambm fomentar o racionalismo prtico. Em outras
palavras, estimular uma intensificao da racionalidade metdica, sistemtica, do modo de levar a vida, e uma objetivao e socializao
racional dos ordenamentos terrenos. Isto foi o que ocorreu com os mosteiros catlicos cujas prticas cotidianas somadas  frugalidade dos
internos tiveram como conseqncia inesperada um acumulo considervel de riqueza.
    p. 34

        A diferena histrica decisiva entre as religiosidades de salvao predominantes no mundo oriental e no ocidental consiste em que
a primeira desemboca essencialmente na contemplao, e a ltima, no ascetismo. Enquanto os ascetas procuravam participar nos processos do
mundo, os msticos dispunham-se  possesso contemplativa do sagrado, estado "no qual o indivduo no  um instrumento, mas um recipiente do
divino" e portanto foge do mundo para unir-se aos deuses. A atitude religiosa asctica conduz o virtuoso a submeter seus impulsos naturais
ao modo sistematizado de levar a vida, o que pode provocar uma reorientao da vida social da comunidade num sentido tico religioso,
um domnio racional do universo. Para concentrar-se nas obras de salvao pode ser necessria uma separao do mundo - incluindo-se a as
relaes familiares, os interesses econmicos, erticos etc (ascetismo negador do mundo) - ou a atividade dentro e frente  ordem do mundo
(ascetismo orientado para o mundo, secular ou intramundano). No primeiro caso, o crente defende-se contra as distraes que a vida terrena
oferece, no segundo, o mundo torna-se uma obrigao, e a misso do crente, que se torna um reformador ou revolucionrio racional, consiste
em transform-lo segundo os ideais ascticos. 56. Entregar-se aos bens mundanos pe em perigo a concentrao sobre os bens de salvao: 
preciso, ento, neg-los. Atuar sobre as esferas seculares e submeter seus prprios impulsos naturais convertem-se, para o asceta, numa
vocao que ele tem que cumprir racionalmente. Para compreender em linhas gerais a evoluo e direes que tomam as doutrinas ascticas, 
necessrio que se analise a natureza da organizao das comunidades religiosas  luz dos processos de racionalizao, especialmente aqueles
que se do aps a renovao da ordem tradicional provocada pelo aparecimento de lideranas carismticas.
        Igreja  definida por Weber como uma associao de dominao que se utiliza de bens de salvao por meio da coao hierocrtica exercida
atravs de um quadro administrativo que pretende ter o monoplio legtimo dessa coao. Portanto, ela submete seus membros de modo
racional e contnuo. Diferentemente de uma congregao - que se compe de um conjunto de auxiliares permanentes, unidos pessoalmente a um
profeta portador de carisma -, os sacerdotes so aqueles indivduos socializados por meio da hierarquia administrativa, portanto constituem
uma burocracia. A evoluo e a organizao da Igreja e da "religiosidade congregacional como uma estrutura corporativa a servio de fins
objetivos" supem um processo de rotinizao do carisma do profeta ou salvador. 57. Isto porque os mandamentos do salvador ou sua profecia
pretendem levar a que os crentes modifiquem seu modo de vida a fim de alcanar um ideal sagrado e nisso so guiados pela classe sacerdotal,
que vai sistematizar e tornar inteligvel para os laicos o contedo da profecia ou tradio sagradas. Assim,
    p. 135

            se uma comunidade religiosa surge na onda de uma profecia ou da propaganda de um salvador, o controle da 
            conduta regular cabe, primeiro, aos sucessores qualificados carismaticamente, aos alunos, discpulos dos
            profetas ou do salvador. Mais tarde, sob certas condies que se repetem regularmente (...) essa tarefa 
            caber a uma hierocracia sacerdotal, hereditria ou oficial. 58

        O processo de racionalizao que ocorre na organizao da comunidade religiosa reflete-se em suas concepes de mundo e nas razes
que so apresentadas para explicar aos fiis por que alguns so mais afortunados do que outros - ou seja, o sofrimento individual visto como
imerecido - e por que nem sempre so os homens bons, mas os maus, os que vencem... 59. De modo geral, as religies mais antigas proporcionavam a
teodicia dos mais bem aquinhoados - os "homens dominantes, os proprietrios, os vitoriosos e os sadios", os dotados de "honras, poder,
posses e prazer" - que viam, assim, legitimada a sua boa sorte. Mas  necessrio dar respostas aos mais carentes, os oprimidos, que precisam
de conforto e de esperana na redeno, fornecendo-lhes uma teodicia do seu sofrimento, uma interpretao tica sobre "a incongruncia entre o
destino e o mrito". A teodicia tinha que dar respostas tambm  injustia e  imperfeio da ordem social.

            O velho problema da teodicia consiste na questo mesma de como um poder, considerado como onipotente e
            bom, criou um mundo irracional, de sofrimento imerecido, de injustias impunes, de estupidez sem esperana.
            Ou esse poder no  onipotente, nem bom, ou, ento princpios de compensao e recompensa totalmente
            diversos governam nossa vida. (...) Esse problema - a experincia da irracionalidade no mundo - tem sido
            a fora propulsora de toda evoluo religiosa. 60

        Para atender s necessidades dos menos afortunados, mgicos e sacerdotes passam a exercer funes mais mundanas de aconselhamento
sobre a vida, reforadas com a criao de uma religiosidade em torno de um salvador daqueles expostos  privao, produzindo uma viso do mundo
na qual o infortnio individual possui valor positivo.
        No caso do cristianismo, construiu-se sobre a figura de um redentor uma explicao racional para a histria da humanidade, sendo a
mortificao e a abstinncia voluntria justificveis pelo seu papel na salvao. Toda necessidade de salvao , para Weber, expresso de uma
indigncia e, por isso, a opresso econmica ou social  uma fonte eficiente, ainda que no exclusiva, de seu renascimento. Para deixar de
ser acessvel apenas aos virtuosos, a salvao e os meios para que os indigentes a alcancem assumiro distintas formas de acordo com o
contedo da religio, sejam eles: a redeno e absolvio, a salvao pela f e a predestinao. A salvao poder ser atribuda
    p. 136

no s prprias obras, mas aos atos de um heri em estado de graa ou de um deus encarnado. O pecador que obtm a absolvio mediante atos religiosos pode passar
sem uma metdica vida tico-pessoal j que, nessas religies antigas, no  valorizado o habitus total da personalidade, conquistado graas a uma vida asctica ou
contemplativa, ou  vigilncia perptua. A salvao pela f tampouco exige um domnio racional do mundo e sua mudana. Por fim, os indivduos podem ser predestinados
 salvao e, de acordo com o carter da profecia na qual se origina tal interpretao, o crente tem ou no indcios sobre seu destino, o que pode ocasionar ou
no uma ao transformadora no mundo.
        Embora os virtuosos tenham procurado ser exemplares na sua prtica religiosa, as exigncias da vida cotidiana e de incorporao da
massa dos no-virtuosos, os no-qualificados religiosamente, reclamam certos ajustes. As concesses que da se originaram tiveram grande
significado para a vida cotidiana, especialmente do ponto de vista do estabelecimento de uma tica racional voltada para o trabalho e para a
prtica econmica, tradicionais fontes de atrito com a moralidade religiosa. "Em quase todas as religies orientais, os religiosos
permitiram que as massas permanecessem mergulhadas na tradio", mas d-se uma grande diferena quando os virtuosos organizam-se numa seita
asctica "lutando para modelar a vida nesse mundo segundo a vontade de um deus". 61. com isso, propunham-se regras de conduta para os crentes,
e sua prpria vida individual passava a ser orientada por princpios racionalizadores. Para escapar  relao tensa que sempre existira entre
o mundo econmico e uma tica de fraternidade, colocam-se duas alternativas: a tica puritana da vocao ou o misticismo. Se este
ltimo  uma fuga do mundano por meio "de uma dedicao sem objeto a todos", unicamente pela devoo, o puritano "renunciou ao universalismo
do amor e rotinizou racionalmente todo o trabalho neste mundo, como sendo um servio  vontade de Deus e uma comprovao de seu estado de
graa". 62
        De acordo com suas caractersticas, cada tica religiosa penetra diferentemente na ordem social (por exemplo, nas relaes familiares,
com o vizinho, os pobres e os mais dbeis), na punio do infrator, na ordem jurdica e na econmica (como no caso da usura), no mundo da ao
poltica, na esfera sexual (inclusive a atitude a respeito da mulher) e na da arte. Ao produzirem um desencantamento do mundo e bloquearem a
possibilidade de salvao por meio da fuga contemplativa, as seitas protestantes ocidentais - que trilharam a via do ascetismo secular e
romperam a dupla tica que distinguia monges e laicos - fomentaram uma racionalizao metdica da conduta... que teve intensos reflexos na
esfera econmica!
        Na tentativa de combater as interpretaes economicistas ou psicologizantes das religies e de sua evoluo, Weber abordou "os
motivos que determinaram as diferentes formas de racionalizao tica da conduta da vida per s" e procurou explicaes internas  prpria esfera
religiosa.
    p. 137

        Nossa tese no  de que a natureza especfica da religio constitui uma simples funo da camada que surge como sua adepta
caracterstica, ou que ela represente a ideologia de tal camada, ou que seja um reflexo da situao de interesse material ou ideal. 63
        O que Weber faz aqui  uma referncia  necessidade de se questionar a uniLiteralidade da tese materialista, complementando-a com
outras vias de interpretao, nesse caso, a relao entre uma tica religiosa e os fenmenos econmicos e sociais, ou melhor, os tipos de
conduta ou de modos de agir que possam ser mais favorveis a certas formas de organizao da esfera econmica e a uma tica econmica. E
conclui: "Sempre que a direo da totalidade do modo de vida foi racionalizada metodicamente, ela foi profundamente determinada por
valores ltimos" religiosamente condicionados. 64 Atravs da anlise de uma das direes em que evolui a esfera religiosa no sentido de uma
racionalizao crescente, Weber encontrar a base para explicar o predomnio de concepes e prticas econmicas racionalizadas nas
sociedades ocidentais.
        A autonomia da instncia religiosa  o pressuposto para que se considere o desenvolvimento das doutrinas e dos sistemas de explicao
religiosos a partir da lgica de funcionamento do seu prprio campo. No h elementos materiais ou psicolgicos que sejam determinantes desse
processo: as relaes entre os diversos agentes religiosos so o fundamento principal de toda causalidade nessa rea. No caso de algumas
seitas protestantes, as tenses entre os campos econmico e religioso so superadas, e podemos dizer que a afinidade eletiva entre os
elementos dominantes em cada um deles refora o desenvolvimento da tica asctica e do capitalismo enquanto uma forma de orientar a ao
econmica.

TENDNCIA  RACIONALIZAO E BUROCRACIA

        Se quisssemos caracterizar, em uma s idia, a marca distintiva que Weber identifica nas sociedades ocidentais contemporneas, esta
seria de que o mundo tende inexoravelmente  racionalizao em todas as esferas da vida social. Dizem seus bigrafos:
        At mesmo uma rea de experincia to interiorizada e aparentemente subjetiva como a da msica se presta a um trabalho
sociolgico sobre o conceito de racionalizao de Weber. A fixao de padres de acordes atravs de uma anotao mais concisa e o
estabelecimento da escala bem temperada; a msica tonal harmoniosa e a padronizao do quarteto de sopro e dos instrumentos de corda como o
ncleo da orquestra sinfnica.
    p. 138

Tais fatos so vistos como racionalizaes progressivas. Os sistemas musicais da sia, as tribos indgenas pr-letradas da Antigidade e do Oriente Mdio, so comparveis
no que se relaciona com o seu mbito e grau de racionalizao. 65
        O prprio estudo que elabora sobre a Sociologia da religio visa a "contribuir para a tipologia e Sociologia do racionalismo", e por isso "parte das formas
mais racionais que a realidade pode assumir", ou seja, as tpicoideais. Procura, assim, "descobrir at que ponto certas concluses racionais, que podem ser estabelecidas
teoricamente, foram realmente formuladas. E talvez descubramos por que no". 66 Isto no significa que outras formas de atividade, que se tornaram altamente racionalizadas,
sempre tivessem tido tal orientao, mesmo no caso da ao econmica que hoje se utiliza amplamente do clculo como tcnica racional. Em sua forma primitiva, todo
afanar-se dos homens por sua alimentao  muito semelhante quilo que nos animais tem lugar sob o imprio dos instintos. Do mesmo modo, encontra-se pouco desenvolvido
o grau de calculabilidade da ao econmica conscientemente orientada pela devoo religiosa, pela emoo guerreira, pelos impulsos de piedade ou por outros afetos
semelhantes. 67
        Um dos meios atravs do qual essa tendncia  racionalizao se atualiza nas sociedades ocidentais  a organizao burocrtica. Da
administrao pblica  gesto dos negcios privados, da mfia  polcia, dos cuidados com a sade s prticas de lazer, escolas, clubes,
partidos polticos, igrejas, todas as instituies, tenham elas fins ideais ou materiais, estruturam-se e atuam atravs do instrumento cada
vez mais universal e eficaz de se exercer a dominao que  a burocracia.
        Entre os trs tipos puros de dominao legtima, a racional ou legal  a forma de organizao na qual mais se reduz a importncia de
outras influncias como a riqueza, os costumes, a parentela e os amigos, substituindo-as por leis ou regulamentaes administrativas. As ordens
passam a ser dadas de maneira previsvel e estvel; cuida-se da execuo dos deveres e dos direitos dos que se submetem a ela; a especializao
necessria para o exerccio de cargos ou funes  claramente determinada; apelam-se para as normas e os registros escritos, os
arquivos, "o sistema de leis, aplicadas judicial ou administrativamente de acordo com determinados princpios, vale para todos os membros do
grupo social". A burocracia enquanto tipo ideal pode organizar a dominao racional-legal por meio de uma incomparvel superioridade
tcnica que garanta preciso, velocidade, clareza, unidade, especializao de funes, reduo do atrito, dos custos de material e
pessoal etc. Ela deve tambm eliminar dos negcios "o amor, o dio e todos os elementos sensveis puramente pessoais, todos os elementos
irracionais que fogem ao clculo". 68 A organizao burocrtica  hierrquica, e o recrutamento para seus quadros d-se atravs de
concursos ou de outros critrios objetivos. Funcionrios que pudessem ser eleitos pelos
    p. 139

governados modificariam o rigor da subordinao hierrquica j que isto estabeleceria uma relativa autonomia frente ao seu superior. O tipo ideal do burocrata 
o do funcionrio que age em cooperao com outros, cujo ofcio  separado de sua vida familiar e pessoal, regulamentado por mandatos e pela exigncia de competncia,
conhecimento e percia e que no pode usar dos bens do Estado em proveito prprio ou apropriar-se deles. O salrio  determinado de acordo com o cargo e existe
uma carreira que estrutura a hierarquia. Ao ocupar um posto, o funcionrio

            no se subordina - como, por exemplo, sucede na forma de dominao feudal ou patrimonial - a uma pessoa como a um
            senhor ou patriarca, mas coloca-se a servio de uma finalidade objetiva impessoal. (...) O funcionrio pblico, por
            exemplo - pelo menos num estado moderno avanado -, no  considerado um empregado particular de um soberano. 69

        Embora configuraes burocrticas tenham existido no Egito e na China antigos, e seja tambm desse modo que se organize a Igreja romana,
essa  por excelncia a forma do Estado moderno que assim expressa a racionalizao da dominao poltica por parte dos grupos que o
controlam, seja numa sociedade capitalista ou socialista.
        Dotada de inmeras facetas, a organizao burocrtica tanto pode exacerbar o centralismo decorrente da racionalizao, e com isso superar
os valores democrticos, como representar um elemento de democratizao j que, diante da norma burocrtica, todos so em princpio
rigorosamente iguais. Weber acreditava que a racionalizao acentuar-se-ia ainda mais nas sociedades em que a propriedade dos meios
de produo fosse coletivizada. Tais consideraes tericas inspiraro as cincias administrativas assim como os estudos sobre organizaes
formais e dos partidos polticos.
        O processo de burocratizao tambm ocorre na economia e na empresa modernas a partir do estabelecimento de um controle contbil de
custos, de formas racionais de organizao do trabalho e da mecanizao. com a finalidade de obter o mximo lucro, as empresas capitalistas
procuram organizar de modo racional o trabalho e a produo, necessitando, para tanto, garantir-se contra as irracionalidades dos
afetos e das tradies que perturbam a calculabilidade indispensvel ao seu desenvolvimento. Os indivduos tenderiam, igualmente, a se tornar
mais racionais em suas aes. A disciplina da moderna fbrica capitalista espelha-se na disciplina militar, mas utiliza-se de mtodos
completamente racionais como aqueles desenhados pela administrao cientfica que o autor conheceu nos Estados Unidos. As sociedades
modernas caminham no sentido de uma crescente racionalidade e burocratizao tambm em suas formas de conhecimento, como  o caso da
cincia.
        Weber enlaa esses temas e responde s suas indagaes mais persistentes e fundamentais sobre o desenvolvimento do capitalismo no Ocidente
    p. 140

e a racionalizao da conduta promovida por um sistema tico, por meio do que se torna sua obra mais conhecida: A tica protestante e o esprito do capitalismo.

RACIONALIZAO E CAPITALISMO

        Entre os elementos especficos das sociedades ocidentais que teriam levado ao surgimento e desenvolvimento do capitalismo no se
destacam o incremento da populao nem a afluncia de metais preciosos. Tal processo ocorrera por meio "da empresa permanente e racional, da
contabilidade racional, da tcnica racional e do Direito racional. A tudo isso se deve ainda adicionar a ideologia racional, a racionalizao
da vicia, a tica racional da economia."70 Em suma, o capitalismo vinculava-se  racionalizao na vida prtica. Foi a presena muito
significativa de protestantes de vrias seitas entre os empresrios e os trabalhadores qualificados nos pases capitalistas mais industrializados
que sugerira a Weber a possibilidade da existncia de algum tipo de afinidade particular entre certos valores presentes na poca do
surgimento do capitalismo moderno e aqueles disseminados pelo calvinismo. Por meio da anlise de obras de puritanos e de autores que
representavam a tica calvinista - baseada numa atividade incessante no mundo - Weber procurou encontrar uma possvel relao entre valores e
condies para o estabelecimento do capitalismo. Para os puritanos,

            a perda de tempo (...)  o primeiro e o principal de todos os pecados. (...) A perda de tempo, atravs da
            vida social, conversas ociosas, do luxo e mesmo do sono alm do necessrio para a sade - seis, no mximo
            oito horas por dia -  absolutamente dispensvel do ponto de vista moral. 71

        Por isso. at mesmo o esporte deveria "servir a uma finalidade racional: a do restabelecimento necessrio  eficincia do corpo" e
nunca como diverso ou como meio "de despertar o orgulho, os instintos, ou o prazer irracional do jogo". Por motivos semelhantes reprovava-se o
teatro - o que angariou o dio e o desprezo de Shakespeare pelos puritanos - e as demais atividades estticas e artsticas como a poesia,
a msica, a literatura e at mesmo as que se referiam ao vesturio e  decorao pessoal.
        Para fundar as possveis conexes ou paralelos entre as mudanas na esfera religiosa e as transformaes na economia, Weber cita mximas
publicadas pelo norte-americano Benjamin Franklin, em meados do sculo 18, as quais servem de expresso do que ele est chamando de esprito do
capitalismo:
    p. 141

            Lembra-te de que tempo  dinheiro. Aquele que pode ganhar dez xelins por dia por seu trabalho e vai
            passear ou fica vadiando metade do dia, embora no dispenda mais do que seis pences durante seu
            divertimento ou vadiao, no deve computar apenas essa despesa; gastou, na realidade, ou melhor, jogou
            fora, cinco xelins a mais. Lembra-te deste refro: o bom pagador  o dono da bolsa alheia. Aquele que 
            conhecido por pagar pontual e exatamente na data prometida, pode, em qualquer momento, levantar tanto
            dinheiro quanto seus amigos possam dispor. Isso , s vezes, de grande utilidade. Depois da industriosidade
            e da frugalidade, nada contribui mais para um jovem subir na vida do que a pontualidade e a justia em
            todos os seus negcios; portanto, nunca conserves dinheiro emprestado uma hora alm do tempo prometido,
            seno um desapontamento fechar a bolsa de teu amigo para sempre. O som de teu martelo s cinco da manh
            ou s oito da noite, ouvido por um credor, o far conceder-te seis meses a mais de crdito; ele procurar,
            porm, por seu dinheiro no dia seguinte se te vir em uma mesa de bilhar ou escutar tua voz numa taverna quando deverias estar no trabalho. 72

        O trabalho torna-se portanto um valor em si mesmo, e o operrio ou o capitalista puritanos
passam a viver em funo de sua atividade ou negcio e s assim tm a sensao da tarefa
cumprida. O puritanismo condenava o cio, o luxo, a perda de tempo, a preguia.
        Assim, a peculiaridade dessa filosofia da avareza parece ser o ideal de um homem honesto, de crdito
reconhecido e, acima de tudo, a idia do dever " , de um indivduo com relao ao aumento de seu capital,
que  tomado

            como um fim em si mesmo. Na verdade, o que  aqui pregado no  uma simples tcnica de vida, mas sim uma
            tica peculiar, cuja infrao no  tratada como uma tolice, mas como um esquecimento do dever. (...) No 
            mero bom senso comercial (...) mas, sim, um ethos. 71

        Para estarem seguros quanto  sua salvao, ricos e pobres deveriam trabalhar sem descanso, "o dia todo em favor do que lhes foi destinado" pela vontade 
de Deus, e glorific-lo
por meio de suas atividades produtivas. Estas tinham se tornado um dever a ser metodicamente executado, possuindo um fim em si mesmas. Assim, os puritanos
prescrevem: "Contra as dvidas religiosas e a inescrupulosa tortura moral, e contra todas as tentaes da carne, ao lado de uma dieta vegetariana e banhos frios, 
trabalha energicamente
em tua Vocao."74 Essa tica tinha como resultado operrios disciplinados

            que se aferravam ao trabalho como a uma finalidade de vida desejada por Deus. Dava-lhes, alm disso, a tranqilizadora
            garantia de que a desigual distribuio da riqueza deste mundo era obra especial da Divina Providncia que,
            com essas diferenas e com a graa particular, perseguia seus fins secretos, desconhecidos do homem. 75
    p. 142

        E, por outro lado, empresrios que se sentiam abenoados ao estar inteiramente dedicados  produo de riqueza. Weber identificou a
presena desse conjunto de valores nos Estados Unidos, na Holanda e na Alemanha e notou que seu desenvolvimento favorecera "uma vida econmica
racional e burguesa". A essa dedicao verdadeiramente religiosa ao trabalho ele chamou vocao, fruto de um ascetismo mundano, oposto ao
ascetismo catlico em dois pontos fundamentais: primeiro, no seu carter de ao metdica no mundo e, segundo, na valorizao do sucesso
econmico.

            ... o trabalho  velho e experimentado instrumento asctico, apreciado mais do que qualquer outro na Igreja
            do Ocidente, em acentuada contradio no s com o Oriente, mas tambm com quase todas as ordens monsticas
            do mundo. 76
            O trabalho vocacional , como dever de amor ao prximo, uma dvida de gratido  graa de Deus (...) no
            sendo do agrado de Deus que ele seja realizado com relutncia O cristo deve assim mostrar-se industrioso
            em seu trabalho secular. 77

        Deve-se lembrar que a doutrina catlica, dominante naquela poca, condenava a ambio do lucro e a usura. Para os calvinistas, no
entanto, desejar ser pobre era algo que soava to absurdo como desejar ser doente; "a prosperidade era o prmio de uma vida santa". O mal no
se encontrava na posse da riqueza, mas no seu uso para o prazer, o luxo, o gozo espontneo e a preguia. Essa moralidade levou a que alguns
milionrios norte-americanos preferissem no legar sua fortuna aos prprios filhos como meio de temper-los no esforo produtivo. "Para os
calvinistas, o deus inescrutvel tem seus bons motivos para repartir desigualmente os bens de fortuna, e o homem se prova exclusivamente no
trabalho profissional." 78. Segundo Weber, a adoo dessa nova perspectiva trazida pelo protestantismo permite aos primeiros
empresrios reverter sua condio de baixo prestgio social e se transformarem nos heris da nova sociedade que se instalava. Essa tica
teve conseqncias marcantes sobre a vida econmica e, ao combinar a "restrio do consumo com essa liberao da procura da riqueza,  bvio
o resultado que da decorre: a acumulao capitalista atravs da compulso asctica da poupana". 79. Mas este foi apenas um impulso
inicial. A partir dele, o capitalismo libertou-se do abrigo de um esprito religioso e a busca de riquezas passou a associar-se a paixes
puramente mundanas. O capitalismo moderno j no necessita mais do suporte de qualquer fora religiosa e sente que a influncia da religio
sobre a vida econmica  to prejudicial quanto a regulamentao pelo Estado.
        Weber adverte ter analisado apenas uma das possveis relaes entre o protestantismo asctico e a cultura contempornea e que no
pretendeu contrapor sua anlise ao materialismo de Marx, mas evidenciar as outras
    p. 143

conexes causais possveis que contribuem para a realizao de uma individualidade histrica concreta: o capitalismo ocidental. Para iniciar o exame dessas relaes,
elaborou um modelo abstrato, um tipo ideal, do que chamou de esprito do capitalismo, composto dos elementos que considerou serem seus aspectos definitrios.

CONCLUSES

        A possibilidade de entender a estrutura social como um conjunto de mltiplas lgicas oferece ricas perspectivas de anlise para
sociedades cada vez mais complexas. As diferenas sociais, os princpios diversificados que as produ/em e a irredutibilidade dos fenmenos
sociais de esferas especficas so balizas fundamentais para se pensar as sociedades do sculo 20. A nfase no conceito de dominao como parte
integrante das relaes sociais em qualquer esfera  outro instrumento precioso para se entender a natureza dessas relaes. As tendncias 
informatizao no comrcio, na indstria, no Estado, nos sistemas financeiros etc., podem tambm ser analisadas adequadamente com os
conceitos de burocratizao e racionalizao. A gama de temas e de possibilidades que so abertos por Weber so a demonstrao de que se
trata de um clssico no sentido mais vigoroso da expresso. A complexidade e a abrangncia de sua Sociologia, portanto, tornam difcil
a tarefa de sintetizar toda a riqueza terica nela contida. Procurar a unidade de sua obra  como montar um quebracabea - atraente e
instigante - que permite mltiplas combinaes.

BIBLIOGRAFIA

COHN, Gabriel. Crtica e resignao - fundamentos da Sociologia de Max Weber. So Paulo: T. A. Queiroz, 1979.
GERTH, Hans; MILLS, Wright. Orientaes intelectuais. In:  . Max
Weber. Ensaios de Sociologia. Traduo de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
WEBER, Max. A cincia como vocao. In: GERTH, Hans; MILLS, Wright. Max Weber. Ensaios de Sociologia. Traduo de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
    p. 144

WEBER, Max. A poltica como vocao. In: GERTH, Hans; MILLS, Wright. Max Weber. Ensaios de Sociologia. Traduo de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
WEBER, Max. A tica protestante e o esprito do capitalismo. Traduo de Irene Szmerecsnyi e Tams Szmerecsnyi. So Paulo: Pioneira/UnB, 1981.
WEBER, MJX. A objetividade do conhecimento nas Cincias Sociais. In: COHN, Gabriel (Org.). Max Weber: Sociologia. Traduo de Amlia Cohn e Gabriel Cohn. 2. ed.
So Paulo: tica, 1982. p. 79-127.
WEBER, Max. A psicologia social das religies mundiais. In: GERTH, Hans; MILLS, Wright. Max Weber. Ensaios de Sociologia. Traduo de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro:
Zahar, 1979.
WEBER, Max. Economia y sociedad. Mxico: Fondo de Cultura, 1984.
WEBER, Max. ndia: o brmane e as castas. In: GERTH, Hans; MILLS, Wright. Max Weber. Ensaios de Sociologia. Traduo de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
WEBER, Max. Origem do capitalismo moderno. In: TRAGTEMBERG, Maurcio. Textos selecionados - Max Weber. Traduo de Maurcio Tragtemberg et ai. So Paulo: Abril Cultural,
1980. (Coleo Os Pensadores)
WEBER, Max. Rejeies religiosas do mundo e suas direes. In: GERTH, Hans; MILLS, Wright. Max Weber. Ensaios de Sociologia. Traduo de Waltensir Dutra. Rio de
Janeiro: Zahar, 1979- -- -~

NOTAS

1 Viso de mundo.
2 WEBER. A cincia como vocao, p. 180.
3 WEBER. A cincia como vocao, p. 170-171.
4 WEBER. A objetividade do conhecimento nas Cincias Sociais, p. 91-
5 A cincia social  includa por Weber na categoria das cincias da cultura desde que estude "os acontecimentos da vida humana a partir de sua significao cultural".
6 Weber questiona a unilateralidade da interpretao materialista da histria a qual, ao explicar a causalidade dos fenmenos culturais, rebaixa a causas acidentais
e cientificamente insignificantes todos os fatores que no se refiram aos interesses materiais.
    p. 145

7 WEBER. A objetividade do conhecimento nas Cincias Sociais, p. 96. Weber discute a influncia que representou, para as cincias histricas e culturais, o sucesso
da biologia moderna e de seu princpio de ordenamento da realidade em um esquema de leis gerais. A impossibilidade do uso desse esquema estava em que o mtodo dedutivo
exigia um conhecimento da totalidade da realidade histrica como ponto de partida indispensvel para o que parecia ser vlido e cientfico.
8 WEBER. A objetividade do conhecimento nas Cincias Sociais, p. 116.
9 WEBER. Rejeies religiosas do mundo e suas direes, p. 372.
10 As cincias da cultura procuram explicar as obras humanas, o que os homens criaram: suas leis, instituies jurdicas, polticas, sua organizao familiar, arte,
suas crenas religiosas, valores morais, atividades econmicas, seus sistemas de conhecimento.
11 WEBER. Economia y sociedad, p. 18.
12 WEBER. Economia y sociedad, p. 5.
n WEBER. Economia y sociedad, p. 20.
14 Tanto aes sustentadas numa tica dos fins ltimos (a que faz do valor um fim em si mesmo) quanto aquelas que, pautadas apenas por um clculo racional, visam
atingir determinados fins utilizando quaisquer meios clesguam em paradoxos, porquanto ambas passam por alto as conseqncias que podem recair sobre os outros. Quem
 capaz de modificar sua conduta devido a essa conscincia orienta-se segundo uma tica de responsabilidade, a qual suplementa a tica da convico ou das certezas
absolutas. Essa deciso no exclui o comprometimento e a paixo por uma causa, tampouco aceita que os fins justifiquem o uso de quaisquer meios.
15 WEBER. Economia y sociedad, p. 22.
16 WEBER. Economia y sociedad, p. 12.
17 WEBER. Economia y sociedad, p. 25.
18 WEBER. Economia y sociedad, p. 27.
19 WEBER. Economia y sociedad, p. 683.
20 Weber enumera, entre outras, a propriedade de edifcios, terras cultivveis, estabelecimentos, armazns, minas, gado, escravos, controle do prprio trabalho e
do trabalho de outros.
21 Para Weber, a Sociologia e a Histria, cincias empricas da ao, compreendem a ao ao interpretarem o seu sentido. O socilogo compreende com grau mximo
de evidncia as conexes de sentido racionais e, com crescente dificuldade, as aes que sofrem a influncia de irracionalidades ou as que so orientadas por valores,
principalmente se no for
    p. 146

sensvel a eles e quer conseguir reviv-los. Cabe tambm  Sociologia o estudo das regularidades, os modos tpicos de desenvolvimento da ao, enquanto a Histria
estuda as conexes singulares.
22 WEBER. Economia y sociedad, p. 683.
23 Os escravos, no entanto, mesmo sendo trabalhadores, e at mesmo qualificados, constituem um grupo de status ou estamento, no uma classe, porque o seu destino
no est determinado por qualquer oportunidade de valorizar sua situao no mercado econmico por meio de seu trabalho ou de seus bens.
24 Comunidade  uma relao social na qual a atitude na ao social "inspira-se no sentimento subjetivo dos participantes de constituir um todo" e sociedade "inspira-se
em uma compensao de interesses por motivos racionais de fins ou de valores ou tambm em uma unio de interesses". WEBER. Economia y sociedad, p. 33.
25 WEBER. Economia y sociedad, p. 687-688.
26 Estes seriam os personagens que se converteram em mitos fundadores da nao norte-americana: uma princesa nativa, os primeiros puritanos ingleses e os holandeses
que migraram e se estabeleceram na regio.
27 WEBER. Economia y sociedad, p. 688.
28 WEBER. ndia: o brmane e as castas, p. 460.
29 WEBER. Economia y sociedad, p. 693-
30 WEBER. Economia y sociedad, p. 683.
31 WEBER. Economia y sociedad, p. 691-692.
32 WEBER. ndia: o brmane e as castas, p. 459.
33 WEBER. Economia y sociedad, p. 692.
34 Uma forte discriminao referente aos descendentes daqueles trabalhadores que se dedicavam a lidar com a carne e o couro ainda pode ser verificada atualmente
na sociedade japonesa.
35 WEBER. Economia y sociedad, p. 353. ,^
36 WEBER. Economia y sociedad, p. 693. Prebendas so pagamentos vitalcios ou se devem ao usufruto de rendas auferidas graas ao desempenho de deveres num cargo.
37 WEBER. Economia y sociedad, p. 43. Como diria Rousseau, em Do contrato social: "Ceder  fora constitui ato de necessidade, no de vontade; quando muito, ato
de prudncia. Em que sentido poder representar um dever?"
38 WEBER. Economia y sociedad, p. 693.
    p. 147

39 WEBER Economia y sociedad, p. 699.
40 WEBER Economia y sociedad, p. 706-707.
41 WEBER A poltica como vocao, p. 99.     .
42 WEBER Economia y sociedad, p. 31.
43 Weber esclarece que, embora desde sua perspectiva a Sociologia no reconhea uma personalidade coletiva em ao, o conceito de Estado  um conceito coletivo significativo
para os indivduos que por ele orientam sua conduta.
44 WEBER Economia y sociedad, p. 683. - '
45 WEBER. A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 34.
46 WEBER. Economia y sociedad, p. 172.
47 Ver COHN. Crtica e resignao - fundamentos da Sociologia de Max Weber.
48 WEBER. A cincia como vocao, p. 182.       .. .
49 WEBER. A cincia como vocao, p. 165.
50 GERTH; MILLS. Orientaes intelectuais, p. 69-70.
51 WEBER. Economia y sociedad, p. 193-
52 WEBER. Rejeies religiosas do mundo e suas direes, p. 376.
53 WEBER. Economia y sociedad, p. 389.
    p. 148

54 WEBER. A poltica como vocao, p. 149.
55 WEBER. Economia y sociedad, p. 437. ,   y<"
56 WEBER. Economia y sociedad, p. 429.
57 WEBER. Economia y sociedad, p. 379.
58 WEBER. Rejeies religiosas do mundo e suas direes, p. 376.
59 WEBER. A psicologia social das religies mundiais, p. 318.
60 WEBER. A poltica como vocao, p. 146. "
61 WEBER. A poltica como vocao, p. 334.
62 WEBER. Rejeies religiosas do mundo e suas direes, p. 381.
63 WEBER. A psicologia social das religies mundiais, p. 312.
64 WEBER. A psicologia social das religies mundiais, p. 330.
65 GERTH; MILLS. Orientaes intelectuais, p. 69-
66 WEBER. Rejeies religiosas do mundo e suas direes, p. 372.
    p. 149

67 WEBER. Economia y sociedad, p. 82.
68 WEBER. Economia y sociedad, p. 732.
69 WEBER. Economia y sociedad, p. 719.
70 WEBER. Origem do capitalismo moderno, p. 169-
71 WEBER A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 112.
72 WEBER. A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 29-30.
73 WEBER. A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 31.
74 WEBER. A tica protestante e o espirito do capitalismo, p. 113.
75 WEBER. A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 127.
76 WEBER. A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 112-113.
77 WEBER. A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 205.
78 WEBER. Economia y sociedad, p. 461.
79 WEBER. A tica protestante e o esprito do capitalismo, p. 124.
    p. 150

CONSIDERAES FINAIS

        Do ponto de vista da produo sociolgica contempornea, pode-se dizer que a herana legada por Marx, Durkheim e Weber no foi
desperdiada. A teoria sociolgica clssica - debatida, interpretada e criticada em instituies acadmicas e de pesquisa, assim como no
interior de partidos e movimentos polticos - rendeu frutos. Continuam a desenvolver-se novas correntes de pensamento, filiadas explicitamente ou
no  produo marxiana, durkheimiana ou weberiana, algumas delas com claros propsitos de sntese.
        Mas, apesar da indiscutvel grandeza da obra dos clssicos da Sociologia, pode-se objetar, por exemplo, que algumas das "previses"
que nela foram identificadas nem sempre ou s parcialmente se cumpriram. Pode-se mencionar, dentre outras, as que disseram respeito  diminuio
da importncia da religiosidade como conseqncia do processo de secularizao,  decadncia econmica do modo de produo capitalista e
 constituio da vida social com base em valores radicalmente mais humanos e solidrios. Contudo, ao contrrio de desacreditar a obra dos
clssicos ou de desmerecer a cincia em nome da qual abordavam a vida social, essas insuficincias s serviram como estmulo  investigao
sociolgica acerca de um objeto que freqentemente conduz a novos temas e ao questionamento de anlises aparentemente "acabadas". Essa 
inclusive uma das dimenses da vitalidade da Sociologia.
        Marx talvez tenha sido, dentre os clssicos, o que gerou o debate mais prolfico. Seja em oposio a ele, ou a seu favor,
organiza-se boa parte da produo da teoria social contempornea. J foi apontado que a teoria marxiana no conseguiu resolver o dilema entre a
potencialidade transformadora da ao individual e os limites que lhe so postos pela estrutura socioeconmica. Embora insista no carter
ativo do indivduo, indispensvel para revolucionar as estruturas sociais, Marx ressalta que as condies materiais servem como moldura
restritiva do alcance dos atos individuais, delimitando as aes historicamente realizveis. Sua afirmao de que "os homens fazem sua
prpria histria, mas no a fazem a seu livre arbtrio e, sim sob aquelas circunstncias com que se encontram diretamente, que existem e
que o passado transmite" pode ser entendida como expresso da
    p. 151

dificuldade de integrar esses nveis conceituais to distintos. No  clara a resposta: se  o indivduo que move e produz a histria das
sociedades, ou se esta  o resultado coletivo das transformaes acumuladas a partir da evoluo das foras produtivas e, nesse caso, os
homens assumiriam meramente o papel de animadores dessas condies sem vida.
        Por outro lado, a utilizao de um modelo dicotmico de classes sociais, fundado nas relaes sociais de produo e nos tipos de
apropriao dos meios de produo que lhes so correspondentes,  um instrumento de anlise que tem se mostrado incapaz de situar o amplo
espectro de relaes sociais que o prprio capitalismo concorrencial j anunciava. Algumas dessas desigualdades sociais, como  o caso da que se
verifica entre os sexos ou etnias, foram ou continuam a ser tratadas como expresses secundrias daquela impressa pela estrutura, ou seja:
reduziram-se meramente a variveis explicativas do modelo dicotmico. O fato de Marx no ter legado uma teoria acabada das classes sociais
justifica, pelo menos em parte, a precariedade dessa abordagem.
        Por fim, o enfoque histrico-materialista, constitudo em explicao ltima da vida social, enfatiza um tipo de causalidade que
no consegue dar conta da complexidade e diversidade de certos fenmenos superestruturais como as ideologias, as formas que assumem as
associaes polticas, as religies, as manifestaes culturais e jurdicas que se manifestam em estruturas com perfis bastante
semelhantes. A conhecida carta de Engels a Bloch j expressava um certo temor em relao  disseminao de interpretaes deterministas e
economicistas, mas deu a elas uma resposta ambgua, sugerindo, portanto, a dificuldade de uma soluo definitiva para a questo no marco traado
pelo materialismo histrico. Weber foi o primeiro a apontar, de modo coerente, essa insuficincia.
        Em um certo sentido, podemos dizer que a evoluo histrica recente - a queda dos regimes socialistas do leste europeu e o
conseqente impacto desse e de outros eventos sobre a concepo clssica de "socialismo" - tornou mais crtica a situao do marxismo. Mas
devemos ressaltar que, como Weber e Durkheim, Marx teve seu pensamento revisitado de formas muito ricas e criativas. Fora das perspectivas mais
doutrinrias, podemos encontrar seu arcabouo terico informando anlises sobre o processo de constituio das identidades de classes
sociais ou dos mecanismos de luta pelo controle do processo produtivo e das relaes sociais. O determinismo econmico que imperava no marxismo
clssico cede espao a determinaes sociais, culturais, polticas, e os atores coletivos surgem com fora afastando a concepo do predomnio
das estruturas.
        A contribuio de Durkheim, embora seja de inegvel valor e at hoje permanea como reconhecida referncia para aqueles interessados nas
questes sociais, deixa tambm em aberto algumas questes polmicas. A nfase durkheimiana na coeso social e na solidariedade levou o autor a
dar
    p. 152

um tratamento marginal ao tema do conflito assim como das desigualdades sociais. Embora tenha procurado abordar essa problemtica desde o ponto
de vista da desintegrao dos laos indivduo e sociedade - o que pode ser verificado tanto nos ltimos captulos da Diviso do trabalho social
como em O suicdio- seu enfoque dirigiu-se  considerao do enfraquecimento ou da carncia de uma moralidade pressuposta,
responsvel pelos vnculos entre os indivduos, ou de um desvio em relao a uma via adequada. O prisma sob o qual o conflito  analisado 
o da moral, de modo que a coeso continua a ser o ponto de partida, o estado normal. Desde que se criasse uma tica e um direito ajustados aos
novos tempos, aqueles distrbios e insatisfaes tenderiam a extinguir-se.
        Embora Durkheim considere que no existe associao sem seu substrato: o indivduo - atravs de quem se expressa a vida social - ao
privilegiar a sociedade, seu enfoque produz a imagem de ente quase materializado, sobre-humano. O indivduo , afinal, o produto de um ser
que adquiriu vida prpria. A dicotomia indivduo/sociedade, que perpassa toda a sua obra, polariza a anlise sem incorporar de modo significativo
nveis intermedirios.   -y-
        Mas a contribuio fundamental de Durkheim, no sentido de definir claramente o conjunto de problemas propriamente sociolgicos,
permanece vlida, e parte considervel da Sociologia contempornea  tributria do seu conceito de representaes coletivas, o qual aparece
hoje, sob diversas formas, nos estudos sobre o simblico.
        Weber apia-se no ponto diametralmente oposto ao de Durkheim ao rejeitar a existncia de associaes ou de instituies que tenham
qualquer precedncia sobre o indivduo, ou mesmo que possam adquirir vida prpria, desvinculada daquilo que lhes d origem: a ao dotada de
sentido, empreendida por um sujeito. O autor possibilita, pelas suas escolhas metodolgicas, algum tipo de desenvolvimento terico por linhas
individualistas. No entanto, foi justamente sua preocupao com o ponto de partida individual para a anlise de fenmenos situados no plano
coletivo o que permitiu  Sociologia mais recente criar perspectivas mais realistas e rigorosas no entendimento de fenmenos sociais. Sua
proposta metodolgica  parte integrante dos mais recentes avanos da pesquisa sociolgica, e os conceitos por ele criados so essenciais para
a compreenso dos processos sociais modernos. A noo de "dominao" abre inmeras perspectivas de anlise, seja no plano dos processos de
legitimao de certos formatos para as relaes sociais, seja no da constituio e hierarquizao dos grupos sociais dos mais diferentes
tipos. A teoria weberiana  o instrumento essencial para compreender o Estado contemporneo, os movimentos sociais e os vrios tipos de ao
coletiva, ou ainda as mais sutis formas de distino presentes no mundo moderno, seja qual for o seu princpio fundador.
    p. 153

        Mas a grandeza e os limites do pensamento weberiano talvez se encontrem no ponto em que se cruzam racionalidade e carisma, indivduo e
histria. A crtica aos processos burocratizantes e mediocrizantes advindos da crescente racionalizao do mundo coaduna-se com a
resignao frente  derrota eterna do indivduo pelas instituies e pela roda da Histria. Mas no haveria aqui um certo desequilbrio entre
o peso da dimenso coletiva e a responsabilidade excessiva atribuda ao indivduo carismtico enquanto agente de transformao? Em outras
palavras, em que medida o ponto de partida profundamente individualista de seu sistema permitiria reconhecer o papel dos atores coletivos como
agentes da mudana histrica?
        A Sociologia - tanto como busca de solues para os impasses nascidos com as sociedades modernas quanto em funo dos caminhos que a
cincia vem abrindo - tem como marca de seu destino buscar incessantemente respostas a problemas que se colocam com o prprio
processo de desenvolvimento social, assim como questionar-se a respeito da validade de suas prprias concluses.
        O intuito dessas observaes finais  lembrar que a realidade social, enquanto objeto de interpretao, coloca questes novas que
acabam por extravasar os instrumentos que a cincia elaborou para respond-las. Tericos do porte de Marx, Durkheim e Weber esto entre
aqueles que iniciaram a construo de explicaes de amplo alcance para um objeto que a cada momento apresenta evolues surpreendentes. A
tendncia recente parece ser a de integrar criativamente, antes que a de opor, o pensamento dos trs clssicos. O que a Sociologia contempornea
tem de mais avanado evidencia isto No se trata de apagar as diferenas, mas de aproveitar mais sistematicamente o trabalho daqueles
autores, que lanaram bases diferenciadas mas consistentes para explicar o mundo social.
    p. 154

CRONOLOGIA DOS PRINCIPAIS FATOS RELACIONADOS  MARX, DURKHEIM E WEBER

1817 - Henri Saint-Simon publica Indstria
1818 - Nasce Karl Marx em Trves, antiga Prssia Renana
1819 - Saint-Simon publica O organizador
1821 - Saint-Simon publica O sistema industrial
1825 - Morre Saint-Simon
1830 - Divulga-se a frase atribuda a Saint-Simon "De cada um segundo
sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades"
1830-1842 - Auguste Comte publica Curso de filosofia positiva em seis volumes
1831 - Mone Hegel
1835 - Marx estuda Direito em Bonn
1836 - Marx estuda Direito, Filosofia e Histria em Berlim e participa de
um clube de estudantes da Universidade de Berlim - os Jovens Hegelianos - que critica a cristandade
1840 - Feuerbach publica A essncia do cristianismo e Proudhon Que  a
propriedade?
1841 - Marx defende sua tese de doutorado sobre a filosofia de
Epicuro e passa a trabalhar na Rhemische Zeitung, em Colnia.
1843 - Marx se estabelece em Paris e publica a Crtica  filosofia do Direito
de Hegel e Questo judaica
1844 - Marx redige os Manuscritos ecommico-filosficos, publicados na
Europa somente em 1932. Marx conhece Engels e juntos escrevem A sagrada famlia r
1845 - Marx  expulso da Frana e vai para a Blgica
1846 - Marx e Engels redigem a Ideologia alem ' <"   -'
1847 - Marx escreve Misria da filosofia e o Manifesto do Partido Comunista
a pedido da Liga Comunista de Londres, juntamente com Engels
    p. 155

1848 - As classes populares instituem, em Paris, a "repblica social". Marx
 expulso de Bruxelas e volta a Paris, e dali  Prssia
1849 - Marx  extraditado, dirige-se a Paris, de onde  expulso, e instala-se
na Inglaterra onde publica Trabalho assalariado e capital, conferncias pronunciadas, em 1847, na Associao Operria Alem, em Bruxelas
1850 - Marx publica A luta de classes na Frana de 1848 a 1850
1851-1854 - Comte publica o Sistema de uma sociedade positiva - tratado de Sociologia instituindo uma religio da humanidade
1851-1862 - Marx colabora com a New York Tribune
1852 - Marx publica O dezoito brumro de Lus Bonaparte. Dissolve-se a Liga dos Comunistas. Comte publica O catecismopositivista - exposio sumria da religio
universal
1857 - Marx publica Fundamentos da crtica da economia poltica. Morre
Comte'
1858 - Nasce David mile Durkheim, em pinal, regio de Lorena, Frana
1859 - Marx publica Contribuio para a crtica da economia poltica.
Darwin publica A origem das espcies
1863 -  criada a Associao Internacional dos Trabalhadores. Marx
dirige-a, redige seu manifesto inaugural e seus estatutos
1864 - Nasce Max Weber em Erfurt, Alemanha
1865 - Marx escreve Salro, preo e lucro
1867 - Marx publica o primeiro volume de O capital
1870 - O valor da produo alem supera o da Frana. A Frana declara
guerra  Prssia. O proletariado parisiense estabelece a Comuna de Paris
1871 - Unificao da Alemanha, vitria de Bismarck sobre a Frana, Marx
publica A guerra civil na Frana. Cai o Segundo Imprio francs. Derrota da Comuna de Paris
1872 - Funda-se na Alemanha a Associao para uma Poltica Social (Verein
fr Sozialpolitik) da qual Weber vir a participar
1875 - Marx publica Crtica ao Programa de Gotha.   .   r  <   
1877 - Weber escreve o ensaio Do curso da histria alem, com especial referncia s posies do Kaiser e do Papa
1879-1882 - Durkheim cursa a cole Normale Suprieur
1882 - Weber estuda Direito, Economia, Administrao, Filosofia e Teologia nas Universidades de Heidelberg e de Berlim
    p. 156

1883 - Morre Marx
1885 - Engels publica o segundo volume de O capital, de Marx
1887 - Weber entra para a Verein
1887-1902 - Durkheim leciona Pedagogia e Cincia Social em Bordeaux e publica artigos na Revue Philosophique
1889 - Wreber apresenta sua tese de doutorado baseada na histria das empresas comerciais na Idade Mdia
1889 - Durkheim publica Elementos de Sociologia
1890-1892 - Weber realiza uma pesquisa sobre a situao dos camponeses na Prssia Oriental, publicada em 1894: As tendncias na evoluo da situao dos trabalhadores
rurais na Alemanha Oriental
1891 - Weber publica Histria das instituies agrrias
J 893 - Durkheim publica A diviso do trabalho social
1894 - Engels publica o terceiro volume de O capital, de Marx
1894 - A tese A histria agrria romana e seu significado para o Direito
pblico e privado garante a Weber sua aprovao para lecionar Economia poltica na Universidade de Freiburg
1895 - Weber escreve As causas sociais da decadncia da civilizao antiga.
Durkheim publica As regras do mtodo sociolgico
1896 - Weber leciona na Universidade de Heidelberg
1896 - Durkheim publica A proibio do incesto e suas origens e edita a
revista UAnne Sociologique
1897 - Durkheim publica O suicdio
1898 - Durkheim publica Curso de cincia social e O individualismo e os
intelectuais, no qual se posiciona em relao ao "caso Dreyfuss" que mobiliza a Frana
1900 - Durkheim escreve A Sociologia na Frana no sculo XIX
1900-1912 - Durkheim leciona na Sorbonne
1901-1902 - Durkheim e Mauss publicam Algumas formas primitivas de classificao
1903 - Weber funda com Werner Sombart a revista Archivfr
Sozialwissenschaft und Sozialpolitik
1904 - Weber viaja aos Estados Unidos e publica a primeira parte cie A tica
protestante e o esprito do capitalismo e o ensaio A objetividade do conhecimento nas Cincias Sociais
    p. 157

1905 - Weber interessa-se pela sociedade russa e publica dois trabalhos a respeito, alm da segunda parte de A tica protestante e o esprito do capitalismo
1905 - Publica-se a Histria da teoria da mais-valia, de Marx
1906 - Weber viaja aos Estados Unidos, escreve As seitas protestantes e
o esprito do capitalismo. Durkheim publica A determinao do fato moral
1908 - Weber escreve dois artigos sobre psicossociologia industrial e As
seitas protestantes. Ajuda a organizar a Associao Alem de Sociologia
1909 - Weber publica As relaes de produo na agricultura do mundo
antigo
1910 - A ctedra de Durkheim na Sorbonne assume a denominao de Sociologia
1910-1914 - Weber redige Economia e sociedade
1912 - Durkheim publica As formas elementares da vida religiosa
1913 - Weber redige o Ensaio acerca de algumas categorias da Sociologia compreensiva
1914 - Weber escreve A tica econmica das religies universais. Inicia-se a Primeira Guerra Mundial. Weber  administrador de nove hospitais alemes
1915 - Durkheim publica dois artigos referentes  guerra de 1914
1917 - Morre Durkheim
1918 - Weber faz duas conferncias sobre as distintas vocaes que resultam
em dois artigos: A poltica como vocao e A cincia como vocao, publica o Ensaio sobre o sentido da neutralidade axiolgica nas cincias sociolgicas e econmicas
e ministra o curso Uma Crtica Positiva da Concepo Materialista da Histria
1919 - Weber ministra um curso na Universidade cie Munique, publicado em
1923 como Histria econmica geral
1920 - Morre Weber
1922 - Publica-se Economia e sociedade, de Weber
1922 - Publicam-se Educao e Sociologia e Sociologia e filosofia, de Durkheim
1925 - Publica-se A educao moral, de Durkheim
    p. 158

1928 - Publica-se O socialismo - a definio, seu comeo, a doutrina saintsimoniana, de Durkheim
1950 - Publica-se Lies de Sociologia, de Durkheim
1955 - Publica-se Pragmatismo e Sociologia, de Durkheim
1970 - Publica-se A cincia social e a ao, coletnea de artigos escritos por Durkheim em diferentes perodos
    p. 159

COLEO APRENDER

1. FOLCLORE EM MINAS GERAIS (2J edio revista e ampliada)
Saul Martins
2. ASTRONOMIA FUNDAMENTAL , ,
Rodrigo Dias Trsia
*>.  EDUCAO ARTSTICA - Introduo  Histria da Arte
(2J edio revista e ampliada)
Sandra Loureiro de Freitas Reis
4. ESCREVER SEM DOER - Oficina de Redao (31 reimpresso)
Ronald Claver
5. FONTES DE INFORMAO ESPECIALIZADA -
Caractersticas e Utilizao (esgotado)
Bernadete Santos Campello e Carlita Maria Campos
6. l, 2, 3 DA SEMITICA f
Jlio Pinto                            '
7. UM TOQUE DE CLSSICOS - Marx, Durkheim e Weber
(2'edio revista e ampliada - 1a reimpresso) -  -'
Tnia Qumtaneiro, Maria Ligia de Oliveira Barbosa e ''
Mrcia Gardnia Monteiro de Oliveira
8. LATINA ESSENTIA - Preparao ao Latim (3d edio revista e ampliada)
Antnio Martinez de Rezende
9. DESENVOLVIMENTO HUMANO E PSICOLOGIA -
Generalidades, Conceitos, Teorias
Vnia Brma Corra Lima de Carvalho


10. O BELO AUTNOMO - Textos Clssicos de Esttica
Rodrigo Duarte (Org.)
11. OS HETERPTEROS AQUTICOS DE MINAS GERAIS - Guia
Introdutrio com Chave de Identificao para as Espcies de
Nepomorpha e Gerromorpha
Nico Nieser e Alan Lane de Melo
12. PRINCPIOS DE MORFOMETRIA DIGITAL - KS300para Iniciantes
Marcelo Vidigal Caliar
13. SISTEMA DE ESGOTOS *'       -''-
Patnc io Gallegos Crespo
14. TCNICAS ALTERNATIVAS DE CONSERVAO - Recuperao de Livros,
Revistas, Folhetos e Mapas (2' edio revista)
Snia de Conti Gomes e Rosemary Tofani Motta
15. MANUAL PARA NORMALIZAO DE PUBLICAES    '''"-'     ' TCNICO-CIENTFICAS (5a edio revista) '    '
Jnia Lessa Frana, Stella Maris Borges, Ana Cristina de Vasconcellos e
Mana Helena de Andrade Magalhes
16. INICIAO ESPORTIVA UNIVERSAL - da Aprendizagem Motora ao
Treinamento Tcnico (vol. 1)
Pablojuan Greco e Rodolfo Novellino Benda (Org.)
17. INICIAO ESPORTIVA UNIVERSAL - Metodologia da Iniciao
Esportiva na Escola e no Clube (vol. 2)       " , ' ,   
Pablojuan Greco (Org.)
18. ESTRUTURAS MORFOLGICAS DO PORTUGUS (1J reimpresso)
Luiz Carlos de Assis Rocha
19. MTODOS DE PESQUISAS DE SURVEY(1a reimpresso)
Earl Babbie
20. ASMA - a Resposta Inflamatria Pulmonar e seu Controle Farmacolgico
J. N. Francischi e D M. Conroy


21. \PRENDER CINCIAS - Um Mundo de Materiais
Mana Emha Caixeta de Castro Lima, Orlando Gomes de Aguiar Jnior e
Selma Ambrosma de Moura Braga
22. \PRENDER CINCIAS - Um Mundo de Materiais (livro do professor)
Maria Emha Caixeta de Castro Lima, Orlando Gomes de Aguiar Jnior e
Selma Ambrosina de Moura Braga
23. FONTES DE INFORMAO PARA PESQUISADORES E PROFISSIONAIS
Bernadete Santos Campello, Beatriz Valadares Cendn ejeannette
Marguerite Kremer (Org.)

$4.    LINGUAGEM E FORMAO DE CONCEITOS NO ENSINO DE CINCIAS
Eduardo Fleury Mortimer
25. LAZER, TRABALHO E EDUCAO - Relaes Histricas,
Questes Contemporneas
Christianne Werneck
26. INTRODUO  LGICA SIMBLICA
Paulo Roberto Margutti Pinto
27. ELEVATRIAS NOS SISTEMAS DE ESGOTOS
Patrcio Gallegos Crespo
28    GRAMTICA: NUNCA MAIS - o Ensino da Lngua Padro sem o Estudo
da Gramtica
Luiz Carlos de Assis Rocha


A presente edio foi composta pela Editora UFMG, em caracteres Gatmeau e Architecture, e impressa pela Grfica Label em sistema offset, papel offset 90g (miolo)
e carto supremo 250g (capa), em abril de 2003

A presente edio foi composta pela Editora UFMG, em caracteres Gatmeau e Architecture, e impressa pela Grfica Label em sistema offset, papel offset 90g (miolo)
e carto supremo 250g (capa), em abril de 2003

Orelha do livro
Um toque de clssicos  uma introduo  sociologia de Karl Marx, mile Durkheim e Max Weber, atravs do estudo de tpicos fundamentais de suas obras. O livro
torna acessvel ao leitor no
familiarizado com o pensamento desses autores os
conceitos bsicos de seus sistemas tericos, sem cair em simplificaes fceis ou em distores ideolgicas. Oferece, assim, uma viso de conjunto, que amplia o
foco da anlise de forma a incluir
no apenas a produo mais conhecida, mas tambm textos menos divulgados, que so apresentados e discutidos de maneira clara e didtica.
Um toque de clssicos  fruto de longa experincia acumulada, nos nveis de graduao e ps-graduao, por trs professoras do Departamento de Sociologia e Antropologia
da Universidade Federal de
Minas Gerais. Esta  a segunda edio revista e ampliada do livro que sem dvida preencheu uma lacuna j h muito sentida pelos professores que lecionam cursos de
introduo  teoria sociolgica, e coloca ao seu alcance um instru-
mento de excelente qualidade que pode ser til no apenas aos estudantes de nvel superior, mas tambm em cursos de atualizao para professores.

Tnia     Quintaneiro     
professora no Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG.  autora de Cuba e Brasil - da revoluo ao golpe (Editora UFMG, 1988) e de Retratos de mulher (1996)
e co-autora de Labirintos simtricos: introduo  teoria sociolgica de Talcott Parsons (Editora UFMG,
2002).
Maria Ligia de Oliveira Barbosa  professora no Departamento de Sociologia da UFRJ e possui artigos publicados na rea de Sociologia da Educao e das Profisses^
Mrcia Gardnia Monteiro de Oliveira  professora da UFMG e co-autora de Labirintos simtricos: introduo  teoria sociolgica de Talcott Parsons (Editora UFMG,
2002).

Capa final
Atravs da abordagem de tpicos fundamentais da obra de Karl Marx, mile Durkheim e Max Weber, Um toque de clssicos busca facilitar aos leitores o
acesso ao pensamento desses trs grandes tericos da Sociologia. com uma linguagem lmpida e didtica, esta publicao vem a ser de grande utilidade para os professores
e estudantes de nvel superior, em cursos de introduo  teoria sociolgica e em cursos de atualizao para professores de ensino mdio e fundamental.
